Estados Unidos estudam "estratégia de reconciliação" no Iraque

As autoridades dos Estados Unidos estão dirigindo sua atenção para os líderes tribais iraquianos - há séculos, peças-chave para acordos políticos -, após um estudo interno que indica que as táticas dos norte-americanos são responsáveis pela alienação de milhares de aliados potenciais.

O estudo confidencial, conduzido por três oficiais do Exército a pedido dos comandantes militares dos Estados Unidos no Iraque, concluiu que os norte-americanos precisam alterar aspectos fundamentais das suas interações com os iraquianos, especialmente no volátil Triângulo Sunita, ao norte e a oeste de Bagdá.

Em resposta ao estudo, as autoridades de ocupação estão promovendo uma "estratégia de reconciliação", cuja meta é conquistar a simpatia de líderes de várias tribos sunitas por meio do dinheiro e dos favores políticos, segundo informaram autoridades militares e civis norte-americanas. Algumas das outras recomendações contidas no estudo ainda estão sendo avaliadas, incluindo a criação de um escritório de assuntos tribais, a designação de oficiais de ligação junto às maiores tribos, e o recrutamento de novas unidades de defesa civil iraquianas segundo linhas tribais.

"Nos engajamos em um jogo sem que conhecêssemos claramente as regras e rituais que regulam a partida", diz o relatório, compilado em novembro passado por três oficiais do Exército que trabalham para a Força Tarefa Conjunta 7, a designação do quartel-general das forças armadas dos Estados Unidos em Bagdá.

"Operações de contra-insurgência precisam se concentrar em devolver a honra ao povo iraquiano, em fazer com que os tomadores de decisões das tribos participem do processo político e em trabalhar dentro dos parâmetros culturais, para construir uma nação iraquiana moderna e democrática".

Um anexo ao relatório, baseado em uma pesquisa feita nas ruas após a captura de Saddam Hussein, no mês passado, diz que é improvável que a prisão do ex-presidente modifique as motivações subjacentes da insurgência. "A captura de Saddam vai ter efeitos apenas simbólicos no país", conclui o documento.

O estudo sugere ainda que seja criado um escritório de assuntos tribais que atenderia às necessidades dos líderes das tribos, além de coletar informações de inteligência sobre a insurgência. Os agentes de ligação atuando junto às tribos poderiam melhorar as relações pessoais, enquanto que as unidades tribais de defesa civil leais às autoridades de ocupação forneceriam segurança, ficando subordinadas às lideranças locais.

As autoridades dizem que as propostas estão sendo consideradas seriamente pelos lideres da ocupação norte-americana.

O relatório culpa em grande parte as táticas norte-americanas pelo acirramento da insurgência, especialmente ações que irritam desnecessariamente as tribos sunitas - incluindo o "tratamento brutal" dispensado aos líderes tribais e o favoritismo manifesto aos muçulmanos xiitas -, deixando muita gente convencida de que não terá um lugar em um novo governo iraquiano.

"O fato de a CPA não ter incluído os líderes tribais no processo de formulação de políticas envergonha esses líderes e ignora milhares de anos de cultura sócio-política árabe", diz o relatório, que utiliza a sigla em inglês para Autoridade Provisória da Coalizão, a força de ocupação liderada pelos Estados Unidos.

Autoridades do governo dizem que, antes da invasão liderada pelos Estados Unidos, em março, especialistas do Departamento de Estado mencionaram a necessidade de procurar ativamente minimizar as preocupações dos líderes tribais e familiares iraquianos. Mas o Departamento de Defesa, encarregado da reconstrução do Iraque, decidiu à época que era preciso minar a estrutura tribal, ao invés de reforçá-la. O Pentágono atribuiu parte do fracasso colonial britânico no Iraque na década de 20 à confiança excessiva depositada no apoio das tribos.

Porém, essa visão parece estar mudando. "Após vários meses, alguns burocratas aqui e em Washington D.C. estão começando a perceber que, caso queiramos obter segurança e ser capazes de dar início a grandes projetos, será necessário que joguemos em conjunto com os líderes tribais", disso uma autoridade da coalizão no Iraque, que pediu para não ser identificada. "Isso significa que a coalizão precisa criar uma milícia tribal e, acima de tudo, distribuir dinheiro".

Acredita-se que o Iraque possua múltiplas tribos, segundo o Conselho de Relações Internacionais em Nova York. Elas estão fragmentadas em confederações, clãs, casas e famílias.

Muitos iraquianos são capazes de vincular as suas ancestralidades a uma das nove confederações tribais, ou qabilas, que surgiram no Iraque no século 17. A influência tribal diminuiu após a retirada dos britânicos em 1928, à medida que um número cada vez maior de iraquianos se mudava para as cidades - 75% das tribos do país vivem agora em áreas urbanas -, mas, segundo especialistas, Saddam Hussein fortaleceu essa influência nos últimos anos, pagando as tribos para que garantissem o controle político, a fim de prevenir rebeliões.

O estudo concluiu que a adoção de uma nova estratégia tribal por parte das autoridades é extremamente necessária.

"O grande trunfo que pode ser explorado pelos insurgentes é a incapacidade da coalizão em entender a cultura local e em se comunicar com a população rural. Assim, a resistência reforça a idéia de que as políticas das forças de ocupação se constituem em ataques contra as normas culturais, a honra e o estilo de vida iraquianos. "Uma política forte e sincronizada de aproximação das tribos é um meio mais efetivo para que se alcancem objetivos estratégicos".

O relatório de 42 páginas, juntamente com vários anexos quer trazem análises detalhadas, recomenda "uma estratégia de aproximação dos líderes tribais no curto prazo para proporcionar segurança nas suas respectivas áreas, a fim de conter a importação de armas, de combatentes estrangeiros, e de membros leais ao antigo regime, com ênfase particular no Triângulo Sunita".

Mas os autores do relatório e outros especialistas advertiram sobre o perigo representado pelo fortalecimento excessivo da estrutura tribal, alegando que as tradições familiares e de clãs e as suas histórias de corrupção e interesses paroquiais não ajudariam a criação do tipo de sociedade moderna e democrática que o governo Bush procura implantar no país.

"Parece que estamos retrocedendo àquele estágio em que concluímos que, já que existem tribos no país, é com elas apenas que temos que fazer negócios", critica Phebe Marr, especialista em Oriente Médio que visitou o Iraque no ano passado. Ela diz que, cortejar as tribos pode ajudar a melhorar o quadro da segurança no curto prazo. "No entanto, não devemos fortalecer essas tribos, e sim as formas mais modernas de existência sociais que já estão presentes no Iraque".

"Como estratégia para ganhar tempo, durante uns três ou quatro anos, isso pode funcionar", disse Mohammed Abu Nimer, professor de resolução de conflitos da American University, em Washington, D.C. "Mas, como modelo, essa não é a abordagem mais efetiva". Ele recomenda o fortalecimento das organizações não governamentais para a reconstrução de escolas, de instalações médicas e da economia, para fortalecer a classe média.

bender@globe.com Danilo Fonseca

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