Empresas de tecnologia mostram recuperação, mas não é uma volta aos anos 90

Robert Weisman

Os bons tempos estão voltando ao castigado setor de tecnologia. No entanto, até agora, a festa é mais restrita do que o carnaval da Internet do final dos anos 90, e nem todos foram convidados. Depois de três anos magros e vários falsos recomeços, as empresas de tecnologia estão testemunhando um salto nas encomendas de hardware e software, e seus funcionários estão recebendo ofertas de emprego. Os lucros e os preços das ações estão crescendo.

Os economistas estão dizendo que a recuperação da indústria de tecnologia, finalmente, está chegando, até mesmo para o Estado de Massachusetts, que foi mais debilitado e está demorando mais que o resto da nação a ganhar fôlego. "Foi uma surpresa: um programador que trabalhava para nós aceitou um emprego em outra companhia. Isso não acontecia há anos", disse Paul Egerman, diretor executivo da eScription Corp, uma firma de Needham, que desenvolve programas de reconhecimento de fala para médicos. A atual recuperação, entretanto, está assumindo um formato diferente das anteriores, quando a indústria de alta-tecnologia era um motor de atividade econômica, de empregos e excitação. Desta vez, o setor não está se concentrando em apenas um produto ou tecnologia, como computadores ou Internet.

De fato, alguns setores da tecnologia estão voltando com muita força,
enquanto outros ainda estão lentos. A maioria das empresas está resistindo em gastar dinheiro e aumentar suas folhas de pagamento. E
muitos veteranos da indústria duvidam que a exuberância dos anos 90
voltará.

Um teste importante para a indústria será a oferta pública inicial
(IPO) da empresa de busca pela Internet Google Inc. Se for um sucesso,
como foi a oferta inicial da Netscape, em 1995, muitos acham que poderá reacender o entusiasmo e animar essa recuperação apagada. Por enquanto, o reforço está vindo, em grande parte, de encomendas de hardware, software e serviços relacionados, assim como a venda de uma nova geração de produtos de consumo. Outros setores, desde redes e telecomunicações até o processamento de dados e serviços de Internet, continuam fracos. Além disso, com a intensificação da competição global, talvez seja mais difícil para os vendedores fazerem dinheiro que no passado.

"A recuperação é mais localizada. Se a compararmos com o que vimos nos
anos 90, quando todos os mercados eram quentes, não é ampla. O setor
de computação está forte, mas o de telecomunicações não vai melhorar
antes do ano que vem. E será improvável um crescimento na área de
provedores de Internet, portais e processamento de dados", disse Mark
Zandi, economista da firma de consultoria Economy.com, de West
Chester, Pensilvânia.

Mesmo assim, os sinais de recuperação estão em toda parte. O índice
Nasdaq, carregado de tecnologia, subiu 50% no ano passado, ultrapassando o limite de 2.000 pontos, depois de um hiato de dois anos. Na sexta-feira (16/1), todas as 14 empresas de tecnologia que apresentaram seus resultados do quarto trimestre, inclusive líderes como a Intel Corp. e IBM Corp., registraram aumento, em média, de 54% em relação ao ano anterior, de acordo com a firma de pesquisa Thomson First Call.

Gartner Inc., outra empresa de pesquisa, disse que, no mundo todo, o
número de computadores entregues cresceu em 10,9%, para 168,9 milhões
de unidades em 2003. Algumas empresas voltaram a contratar, com a
fornecedora de armazenagem de dados EMC Corp., de Hopkinton, que criou
várias centenas de empregos, inclusive mais de 100 em Massachusetts. Depois de três anos de inatividade, o mercado de IPOs está voltando.
Das 25 empresas que lançaram seus papéis no mercado em dezembro, cinco
eram de tecnologia. Este foi o maior total em um mês, desde outubro de
2000, segundo o banco de investimento America's Growth Capital.

Os consumidores não pararam de gastar e, agora, estão sendo compensados com uma geração de novos produtos, desde o aparelho de som digital portátil da Apple, iPod, até os multimídia iPAC da Hewlett- Packard, que associam a computação com o entretenimento. "As dificuldades dos últimos anos fizeram as empresas concentrarem-se em como agregar valor para os consumidores", disse Arun Inam, diretor da Mercer Management Consulting e sócio da Signal Lake Ventures em Boston.

Em termos de investimento de capital, Cathy E. Minehan, presidente do
Federal Reserve Bank of Boston, disse à reunião anual do Conselho de
Massachusetts de Programas de Computador, na semana passada, que a
seca terminara. Vários membros do conselho disseram ter observado um
aumento de encomendas ou expressões de interesse de possíveis
compradores.

Stephen Turcotte é fundador e presidente da Backbone Media Inc.,
empresa de Waltham que fornece serviços de marketing para mecanismos
de busca. Ele disse que teve que recusar nove pedidos de propostas em
janeiro, sendo que, no último ano, não recebia mais que dois ou três
por mês.

No entanto, um ritmo de contratação mais lento que o esperado lança
uma sombra sobre a recuperação, especialmente em Massachusetts. Em
grande parte por causa de sua dependência em tecnologia, o Estado perdeu 5,5% de seus empregos desde janeiro de 2001. A média nacional foi de 1,8%. Alguns dos setores de alta-tecnologia, como equipamentos de comunicação, perderam metade de seus empregos. Enquanto a nação testemunhou um crescimento modesto, porém constante, nos últimos meses, o aumento de vagas em Massachusetts foi irregular. "Massachusetts saiu-se consideravelmente pior do que a média nacional, porque se concentra nas indústrias mais afetadas", disse Yolanda Kodrzycki, vice-presidente e economista do Boston Fed. Ainda assim, ela disse que acha que a economia do Estado e suas empresas de tecnologia vão crescer este ano. Na medida em que a recuperação ganhar força, disse Kodrzycki, a geração de empregos no Estado deve se alinhar mais com o resto do país.

Uma medida de cautela é a terceirização de programação e de outros serviços de tecnologia, que são enviados para países como Índia e Rússia. A tendência, muitas vezes, é citada como forma de cortar custos. Entretanto, é também uma forma de proteger as empresas ainda não convencidas de uma recuperação sustentada. "A economia ainda está hesitante, então muitas empresas nos procuram", disse Slave Lerner,
diretor de relacionamento com o cliente da Auriga Inc., empresa de
Amherst, New Hampshire, que conecta empresas americanas com programadores russos. "É mais fácil demitir no exterior, se o ritmo
cair, porque não são nossos parentes."

O ambiente mais sóbrio e o ritmo de investimento menos frenético são
citados por muitos na indústria como marcas de uma nova era de tecnologia.

"Será que os anos 90 voltarão? Não, não vamos ver esse tipo de
exuberância novamente, nas próximas duas décadas", disse Bob Davis,
sócio da firma de capital de risco Highland Capital Partners e ex- presidente da Lycos Inc. Deborah Weinberg

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