Plano espacial de Bush se volta para instituições de pesquisa

Bryan Bender
EM WASHINGTON

Quando o presidente Bush precisava saber se era possível criar uma base permanente na Lua, como primeiro passo para enviar seres humanos para Marte, membros do governo procuraram uma instituição que tem um longo histórico junto ao programa espacial: o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Pesquisadores e membros do governo dizem que o papel do MIT e de outras universidades que enfatizam a pesquisa científica devem ser expandindos, se os obstáculos políticos e financeiros ao projeto do presidente forem ultrapassados.

Uma grande dificuldade diante do projeto é o número decrescente de pessoas na Nasa que têm o talento e o conhecimento necessários para a realização do sonho. Os EUA precisariam criar novos veículos espaciais e ultrapassar os desafios biológicos de enviar homens e mulheres para o espaço por longos períodos.

De fato, alguns especialistas disseram que parte do ímpeto da nova e audaciosa estratégia do presidente é justamente compensar a erosão constante, das três ultimas décadas, do know-how da área. Desde o final das primeiras missões à Lua, em 1972, que não se treina habilidades como desenvolvimento de foguetes para transporte de seres humanos fora da órbita da Terra e a manutenção de astronautas saudáveis em longas jornadas. Como ponto inicial para ajudar a reforçar a pesquisa e inspirar uma nova geração de cientistas e engenheiros, Bush investiria US$ 12 bilhões (cerca de R$ 34 bilhões) em pesquisa e desenvolvimento nos próximos cinco anos. Parte significativa desse montante seria desembolsada na forma de bolsas de pesquisa ao MIT e outras instituições similares, de desenvolvimento de projetos de espaçonaves, foguetes, sondas e biologia espacial.

"Queremos reunir toda a capacidade do país e do mundo", disse o marechal aposentado Craig E. Steidle, diretor do novo Escritório de Exploração Espacial da Nasa, dizendo que vai estabelecer uma relação "aberta" com universidades como o MIT para ajudar a resolver muitos dos enormes desafios do programa. Há muito que o MIT é um importante parceiro no programa, inclusive ajudou a desenvolver o carro-robô Spirit, que está atualmente estudando a superfície marciana. No último ano, algumas análises importantes foram conduzidas em Cambridge. O instituto avaliou se era possível executar a idéia do presidente de voltar à Lua até 2020 e estabelecer uma base para futuras missões a Marte e além. Os pesquisadores explicaram como essas missões poderiam ser planejadas, fizeram diferentes modelos de espaçonaves e descreveram os fatores
fisiológicos que teriam que ser vencidos.

"O presidente não faz um anúncio desse tipo sem estudo prévio. Passamos parte do ano passado fazendo uma análise detalhada", disse Ed Crawley, professor de aeronáutica e astronáutica do MIT. O plano de Bush foi recebido com forte dose de cepticismo pelo Congresso, onde alguns questionaram se há fundos para custeá-lo e se terá suficiente apoio do público. No entanto, a Nasa tem outro desafio a sua frente: já fazem mais de 30 anos desde que os americanos foram à Lua e muito da capacidade e conhecimento institucional da Nasa de como chegar até lá se perderam. De acordo com astronautas, membros da Nasa e especialistas, a questão de formação e treinamento de pessoal para viajar até a Lua e ainda alcançar outros mundos será determinante da possibilidade de execução do projeto, talvez mais do que qualquer outro fator. "O fato de não termos uma força de trabalho suficientemente preparada impõe grandes problemas em sua execução", disse Lori Garver, ex- administradora da Nasa de projetos e política. "Os que trabalharam no tempo do Apollo se foram. O conhecimento, desde então, foi abandonado." Sean O'Keefe, administrador da Nasa, disse que 25% de sua força de trabalho, de quase 18.000 pessoas, aposentar-se-á em breve. A agência, disse O'Keefe, deve recrutar "novos funcionários em escolas de pós- graduação em engenharia e campos relacionados da ciência". "Temos que entender que a reconstituição de nossa base de tecnologia é um dos principais motores da política", disse Garver, ex-funcionária da Nasa. "É um dos benefícios gerados. A Nasa espera criar um atrativo para estudantes universitários que queiram fazer algo excepcional." A força de trabalho "é uma questão gigantesca para a Nasa, mas também uma oportunidade. Se você tem um projeto de longo prazo, tem que ter muitos jovens envolvidos", disse Claude Canizares, vice-reitor do MIT e cientista espacial que trabalhou 10 anos no Conselho Assessor da Nasa.

Segundo os especialistas, serão necessários novos técnicos em lançamento espacial e transporte de veículos e em biologia espacial, que diga como os seres humanos podem sobreviver no espaço por períodos de tempo muito mais longos do que já foi feito. Uma viagem de ida de volta a Marte levaria pelo menos um ano.

"Já faz quase 30 anos desde que construímos um sistema de lançamento", disse Crawley, do MIT. "Existe uma diferença enorme entre os talentos que a nação possuía durante a época do Apollo e hoje. Atualmente, a Nasa tem uma geração de funcionários que nunca construiu um foguete". Há também muitas incógnitas no plano de Bush. Apesar de já se saber muito sobre os efeitos no corpo humano da ausência de gravidade, ainda não se sabe muitas coisas sobre o impacto de longas estadias na Lua ou de uma viagem a Marte. Os astronautas da Estação Espacial Internacional ficaram no espaço por períodos de, no máximo, seis meses. Os cientistas também não sabem que impacto terá nos astronautas a longa exposição à radiação, especialmente fora dos chamados cinturões Van Allen -que protegem a Terra da radiação espacial.

A resposta a esses desafios científicos determinará a vitória ou o fracasso do novo programa espacial, concordaram os especialistas. "A Nasa se diversificou muito", disse Eugene Cernan, último homem a pisar na Lua, como comandante do Apollo 17. Para ele, o presidente está se referindo aos universitários que estão ingressando hoje no mercado de trabalho e os próximos. Ele acha que "haverá muitos jovens na faculdade estudando matemática e ciências".

O MIT já está preparado. "Estamos trabalhando nisso há um tempo", disse Crawley. "Estamos formando pessoas para trabalhar na Nasa, dirigir esses programas e resolver esses problemas." Deborah Weinberg

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