Equilíbrio entre vida e carreira leva mãe a Marte

Jack Thomas
EM CAMBRIDGE, Massachusetts

Pela forma como ela caminha pelo restaurante Harvest, com celular na mão e expressão séria no rosto, você pode dizer que Maria Zuber está com a agenda apertada, e não é de estranhar.

Como chefe do Departamento de Terra, Atmosfera e Ciências Planetárias, ela é a primeira mulher a comandar um departamento no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT); como cientista pesquisadora sênior do Laboratório de Física Terrestre da Nasa, ela ajudou a mapear Marte e fez quatro viagens no mês passado ao laboratório de Propulsão a Jato em Pasadena, Califórnia, para auxiliar a equipe encarregada dos pousos da sondas gêmeas em Marte.

E tem mais. Ela está preparando o lançamento em maio de um satélite com instrumentos de medição por laser para fazer o primeiro mapa de Mercúrio, e está equilibrando as responsabilidades de esposa e mãe de dois filhos, com 14 e 11 anos de idade, na casa da família em Lexington. Na sexta-feira, ela foi nomeada para a Comissão Presidencial para Implementação da Visão de Exploração Espacial dos Estados Unidos. E nem tente falar com ela hoje, porque ela está voando para Pasadena para monitorar a segunda sonda enquanto ela explora uma região da superfície marciana conhecida como Meridiani Planum.

Por um momento outro dia, Zuber voltou à Terra por tempo suficiente para um almoço com frango com molho curry e chá gelado no Harvest, e falou ardorosamente sobre maternidade e galáxias, a existência de Deus e sua afeição pela música das Hissyfits.

"É um privilégio ser uma exploradora", disse ela. "Há momentos em minha vida, como dois em janeiro, em que você vê algo que ninguém viu antes, e a emoção da descoberta e de saber algo que ninguém mais sabe, mesmo que por um breve período -bem, não há risco no que fazemos, então não dá para fazer comparações, mas deve ser o que Colombo sentiu. As pessoas perguntam se me considero mais como Galileu ou Magalhães, e eu digo que nenhum. Eu sou só uma pequena nerd que trabalha o tempo todo."

Os cientistas esperam que a segunda sonda percorrerá maiores distâncias porque -como Zuber previu em suas experiências orbitais- o local está livre de grandes rochas.

"Uma experimento com laser que tenho em órbita em Marte mede o quão acidentada é a superfície", ela explicou. "Nós medimos a temperatura dia e noite, e com base em quão rapidamente ela esfria, você pode dizer se é rocha. Eu fui capaz de dizer que não veremos rochas neste local, como ocorreu no outro, e as pessoas disseram: 'Ok, a especialista disse sem rochas'. Mas quando ela pousou e não havia rochas, eu disse: 'Legal. Acertamos esta'."

Zuber, 45 anos, cresceu em Summit Hill, Pensilvânia, e aos 10 anos construiu seu próprio telescópio, produzindo suas próprias lentes, e permanecendo acordada até tarde para observar tudo sobre a caminhada de Neil Armstrong na Lua.

No colégio, ela sonhou com uma carreira como cientista espacial, e após o pouso da primeira nave Viking, o pai dela lhe mostrou um jornal com uma foto colorida e disse: "Bem, nós já estivemos em Marte; e então, o que você vai fazer?" "Eu disse para ele: 'Aguarde!'"

Pela Universidade Brown, Zuber tem um doutorado (1986) e um mestrado (1983) em geofísica, e pela Universidade da Pensilvânia, um grau incompleto em astrofísica (1980). A lista de seus trabalhos publicados tem seis páginas, em espaço simples, e inclui coisas obscuras como "O papel da viscosidade dependente de temperatura e placas de superfície em modelos de conchas esféricas da convexidade do manto".

De certa forma, ela está mais em casa em Marte, a 48 milhões de quilômetros de distância, do que na Terra. "Em Marte, nós medimos alturas em 10 centímetros, de forma que consigo navegar em Marte", disse Zuber. "Em Boston, tantas ruas são de mão única que acabo me perdendo, mas me saio bem em Marte."

A camada de rochas em Marte levanta a possibilidade de sedimentação, e conseqüentemente água, disse ela. Mas será que água em Marte representa vida?

"Não, mas na Terra, em todo lugar onde você tem água em estado líquido, você tem vida, então o fato de existir água em estado líquido em Marte eleva as chances. Há trinta anos acreditava-se que a vida só ocorria com a temperatura certa e luz do Sol. Agora conhecemos micróbios que vivem na base de reatores nucleares e que se alimentam do lixo nuclear. Nós achávamos que não poderia existir vida em Marte porque a atmosfera era muito fina e a radiação ultravioleta fritaria tudo. Mas pode existir vida que se alimente de radiação ultravioleta."

Após anos de estudo e experimentação, ela espera encontrar vida em Marte?

"Não", disse ela, bebendo o chá gelado, "porque sou conservadora. Ao longo de toda a história humana, nós acreditamos que éramos especiais. Foi um milagre que estabeleceu as condições que permitiram o desenvolvimento da vida na Terra? Eu não sei. Nosso Sol é especial para nós, mas comparando a todas as galáxias, ele é apenas mediano. Assim, se a vida se desenvolve na Terra e também no vizinho Marte, então provavelmente as condições para que aconteça não sejam tão especiais. E se você olhar para todas as estrelas e se apenas uma fração minúscula tiver planetas na distância certa, então há muita vida, e talvez nós não sejamos tão importantes quanto imaginávamos".

Para Zuber, uma católica romana, o equilíbrio entre ciência e religião é delicado. "Havia uma tendência de olhar para a descoberta científica e dizer que apenas Deus poderia fazer uma flor, mas agora ela é feita com genes. Você não precisa de Deus para fazer uma flor; o aluno de doutorado no final do corredor pode fazê-la. E é fácil olhar para cada descoberta e dizer que é mais uma coisa que remove a necessidade de Deus. Mas a visão oposta é que o Universo é mais criativo do que qualquer um poderia ter concebido, e apenas o fato de você entender como as coisas funcionam não significa que não haja algo que tenha pensado em tudo."

Então, Deus existe?

"Eu não sei. Quero dizer, eu só não sei, porque não sei o que Deus é. Eu não posso tocar Deus. Eu acredito firmemente na necessidade de moralidade, ética e bondade no mundo, e a ponto de existir algo que faça as pessoas quererem ser boas em vez de quererem ser más, eu não sei se é uma entidade ou apenas algo atraente, mas seja o que for, está lá."

Ao ser perguntada se há um conflito entre sua fé e sua ciência, ela responde firmemente.

"Não. Eu estou mais interessada em questões morais e éticas do que em regras estabelecidas por um sujeito em Roma que é um humano como eu. Mas então, se você é um cientista, você não segue direito as regras. As pessoas que se tornam bons cientistas são o tipo de pessoa que sempre se pergunta por quê, e eu não tenho paciência com ninguém que me diga para não perguntar por quê."

Um indício da vida agitada de Zuber é a quantidade de milhas que ela voa -130 mil no ano passado. E nem todo dia é um sucesso.

"Eu já perdi experimentos no espaço. Ocorreram noites em que recebi telefonemas com alguém dizendo: 'Nós achamos que perdemos sua espaçonave'. Geralmente você consegue recuperar a nave, mas nada disto me perturba. Para que eu me irrite, é preciso mais do que a perda de uma espaçonave a caminho de Marte."

Ao ser alertada que mulheres -e homens também- poderiam invejar sua capacidade de equilibrar carreira e vida pessoal, ela dá de ombros.

"Eu tenho um marido fantástico que dá muito apoio, um executivo financeiro da Fidelity. De vez em quando eu sei quando as coisas foram longe demais. Eu fiquei fora por três fins de semana em janeiro, e quando eu voltei para casa as calças do meu filho adolescente estavam todas pequenas demais. Eu já perguntei para meus filhos se prefeririam que eu permanecesse em casa, e meu filho mais velho disse: 'Não, você é a única mãe na minha classe que dispara lasers no espaço'. Assim, não é uma desvantagem total."

Zuber nunca buscou a nomeação que a tornou a primeira mulher a chefiar um departamento no MIT. Enquanto estava em licença no ano passado em Harvard, ela ouviu rumores e enviou um e-mail para o reitor: "Caso eu esteja sendo considerada, me permita facilitar sua vida e dizer que não quero fazer isto, porque estou envolvida na minha ciência".

O MIT respondeu dizendo que ela era a primeira opção e que a universidade estava disposta a acertar um arranjo para que ela pudesse continuar sua pesquisa.

Zuber não corre mais 100 quilômetros por semana, mas se mantém em forma remando dentro de casa, indo de bicicleta de casa até o MIT, e dando voltas de 50 quilômetros por uma trilha de bicicletas em Lexington.

Para descansar, a mulher que conquistou o Prêmio de Realização em Grupo da Nasa pelo sucesso da sonda espacial Near (encontro com o asteróide próximo da Terra) no Asteróide 253 Mathilde, gosta de tirar os sapatos na manhã de sábado para curtir desenhos animados na televisão, especialmente o "Laboratório de Dexter" e "Johnny Bravo".

Mas o trabalho nunca fica distante, nem o sonho de ver um ser humano em Marte.

"Eu espero que seja alguém que eu tenha treinado", disse ela, "mas como uma exploradora, o que nunca esqueço é quão afortunada eu sou por ter nascido na época certa e no local certo, que é a América, onde não importa se você é rico ou pobre. Se você for a uma escola e trabalhar duro, você pode ser o que quiser, e há locais na Terra onde você não pode fazer isto". George El Khouri Andolfato

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