No calor de Mojave, tropas simulam combates no Iraque

Bryan Bender
FORT IRWIN, Califórnia

O tenente-coronel Robert Akam passou grande parte de sua carreira no Exército preparando-se para uma colossal batalha de tanques. Ele patrulhou a fronteira entre a Alemanha Oriental e Ocidental nos últimos dias da Guerra Fria e hoje comanda um esquadrão blindado. No entanto, recentemente, o tenente-coronel, que tem 40 anos e nasceu em Methuen, teve um papel diferente: de líder de um clã em uma aldeia que parecia iraquiana.

As tropas americanas estão há 10 meses no Iraque e é provável que fiquem outros anos. Para preparar seus homens, o exército americano construiu seu próprio Iraque no meio do deserto do Mojave. As construções envolvem uma série de aldeias falsas, espalhadas pelo vasto complexo e completas, com cafés, casas de adoração, bordéis, mercearias, residências. A força de oposição guerrilheira esconde-se nas esquinas e planta bombas na beira das estradas. Atiradores miram dos telhados. Caminhões-bomba atacam postos policiais.

No Centro Nacional de Treinamento -o maior do exército, com 3.000 km quadrados- há centenas de homens representando papéis para treinar as tropas para o Iraque, Afeganistão e algumas outras operações militares que podem apresentar uma mistura mortífera de guerrilheiros e terroristas suicidas, sem pudores de usar civis como escudos.

A simulação faz parte de uma expansão dramática do treinamento militar: Neste verão, o exército vai começar a construir centenas de estruturas imitando o Iraque, inclusive uma cidade com túneis e linhas de trem.

"O velho paradigma, onde você derrotava formações militares organizadas do inimigo, não se encaixa mais. Hoje, há civis no campo de batalha e todas as fases da guerra acontecendo simultaneamente", como um tiroteio contra insurgentes enquanto soldados, ali perto, reconstroem uma escola, disse, em visita a base no mês passado, o general John Vines, que serviu como oficial americano no Afeganistão.

As dezenas de milhares de soldados que receberão treinamento aqui neste ano serão empregadas na ocupação de aldeias e expulsão de combatentes inimigos de complexos de cavernas. O objetivo é derrotar o inimigo, evitando prejudicar os civis cujos corações e mentes devem ser vencidos no mundo real.

"Esse é exatamente o tipo de coisa que estamos enfrentando hoje no Iraque", disse Vines.

O custo humano dessas missões, inclusive as mortes de civis e de americanos, foi exposto vividamente durante os dois dias de exercícios de treinamento no Fort Irwin, no final do mês passado.

Os comandantes dizem que o treinamento é o mais forte que uma unidade do exército já enfrentou, que faz os soldados a adaptarem-se a inúmeras variáveis que forçam o corpo -e a mente- até o seu limite. Para alguns soldados mais experientes, esse é o tipo de batalha onde decisões de segundos têm alto preço -baixas americanas e de civis e prejuízo da imagem americana para a população local.

Akam, no centro de Red Pass Ranch, cidade da nação fictícia de Colusa, estava fazendo o papel de Oscar Campos, 85, ancião da aldeia e herói de guerra local. Andando com um cajado, ele conversava com o tenente David Soutter, 25, de Harrison, Maine, que fazia o papel do xerife da cidade, Jose Duran.

Duran, de acordo com o roteiro preparado para ajudá-lo a tornar seu papel convincente, é um "homem agradável, de boa natureza, querido pela população" e um elo com as forças de ocupação americanas -neste caso, soldados da Terceira Divisão de Infantaria.

"Se eles entrarem na cidade e cumprirem nossas demandas, seremos amigáveis", disse Soutter. "Se eles entrarem e não corresponderem as nossas necessidades, ou não respeitarem nossos costumes, poderemos nos tornar hostis."

No dia 23 de janeiro, a cidade parecia um caldeirão de raiva. Quinta-feira, as tropas americanas entraram na cidade para seqüestrar um suspeito líder guerrilheiro. Mas a operação deu errado. Assustados, os soldados abriram fogo e mataram 14 civis. Agora, Hector Olvera, o empresário mais respeitado da aldeia -representado pelo Sargento Russ Williams, 37- está gritando com os soldados americanos.

"Já me cansei de suas promessas", grita. "Vocês disseram que iam nos trazer combustível e água. Vocês mataram nossos filhos!" Os americanos tentam acalmá-lo, imploram por outra chance e prometem trazer mantimentos para a comunidade. Mas os soldados aturam uma fúria de ataques verbais dos moradores do lugar, que dizem ter recebido os americanos como libertadores, mas agora querem que saiam.

Os dois lados, por fim, concordam em fazer outra reunião no final do dia, entre o mais alto oficial americano na região -um coronel- e o ancião Campos. No entanto, há uma surpresa: "Vamos tentar matar o coronel com um ataque suicida", sussurra um dos habitantes da cidade ao repórter.

Desempenhando os papéis estão membros do 11o Regimento de Cavalaria Blindada, que ainda usam tanques e outras armas pesadas para treinar os homens para batalhas mais convencionais. Há décadas que a força de oposição desenvolve esse tipo de exercício. No entanto, atualmente, durante metade do treinamento de campo, os soldados do regimento fazem guerrilha, usam roupas civis, colocam cintos de explosivos falsos e fingem-se de transeuntes inocentes.

"Talvez seja mais difícil aqui do que em qualquer outro lugar", disse Williams, o aldeão rico Olvera. "Nós os provocamos... nós os forçamos a errar, para que não o façam no Iraque."

Naquela noite, mais erros. A vários quilômetros de distância, forças paramilitares, armadas com um único tanque, entrincheiraram-se na aldeia de Eastgate e usaram o povo do lugar como escudo humano. A Terceira Divisão de Infantaria, com base em informações incompletas, lançou foguetes indiscriminados contra o veículo blindado inimigo. Uma série de residências foi atingida. Muitos civis morreram ou ficaram feridos.



"Eles atiraram com o Sistema de Foguete de Lançamento Múltiplo", disse o coronel Joe Moore, comandante da Força de Oposição. "Violaram suas instruções. Eles tinham criado uma área livre de tiros, mas esqueceram de colocá-la no computador."

No dia seguinte, 24 de janeiro, as tropas americanas estão prontas para ocupar a aldeia. Elas tentam novamente derrubar o tanque inimigo, desta vez com uma bomba de precisão. O tanque e seus tripulantes são destruídos. No entanto, com eles, 16 civis, inclusive dois jornalistas.

Quando os americanos, finalmente, entram na aldeia, o episódio fica mais sangrento. Enquanto um veículo Bradley desce pela rua principal, atiradores agachados atrás dos muros atiram contra a escotilha aberta. Outro guerrilheiro joga uma granada no veículo. Os soldados americanos saem correndo e separam-se pelas vielas, em uma busca de casa em casa pelo inimigo. Um grupo de insurgentes, atirando de um prédio, é particularmente perturbador.

Um dos Bradleys vira seu principal rifle para o prédio. Uma luz começa a piscar em outro veículo americano, do outro lado do prédio, assinalando que foi atingido. Na confusão da guerra, a primeira equipe atingiu um de seus próprios veículos.

Subindo a rua, civis estão escondidos em uma sala. Soldados americanos aproximam-se devagar, e um deles abre a porta com um chute. Ele morre, assim como seus colegas. A porta estava ligada a um fio que conectava a um mecanismo explosivo improvisado. Um morteiro, escondido sob o piso, explode. Mais civis morrem.

"Aquele soldado, provavelmente, não fará o mesmo erro novamente", disse o controlador do exercício, capitão Brant Hoskins, referindo-se ao jovem sargento que forçou a porta.

Os soldados da Terceira Divisão de Infantaria aqui treinados estão entre os mais experientes do exército. Três quartos deles serviram no Iraque no ano passado, e a unidade pode retornar neste outono.

No final do mês, a 81a Brigada de Infantaria, unidade de soldados da Guarda Nacional do Estado de Washington, chegará ao Fort Irwin. Pela primeira vez, enfrentará combate de casa a casa, com guerrilheiros, suicidas e armadilhas explosivas.

Depois, irão diretamente do deserto do Mojave para as areias do Iraque.

bender@globe.com Deborah Weinberg

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