Economia cria raízes no Iraque devastado pela guerra

Stephen J. Glain
EM WASHINGTON

Com crescente ansiedade à medida que o Iraque se lança rumo a um governo próprio, o novo sistema financeiro do país está provando ser surpreendentemente resistente, e investidores estrangeiros continuam ávidos por uma participação no país devastado pela guerra.

A decisão americana de transferir a soberania sobre o Iraque para um governo local em 1º de julho, mais cedo do que autoridades de ocupação esperavam poucos meses atrás, provocou temores de um vácuo político que poderia desestabilizar o país. Mas a moeda do Iraque, o dinar, já está estável frente ao dólar, e as empresas estrangeiras parecem impávidas diante do alto risco político e enorme dívida do país.

O advento de bancos estrangeiros no Iraque, sinalizado nesta semana com a seleção pelo banco central iraquiano de três bancos aptos a abrirem filiais em Bagdá, deverá ajudar a aliviar um sério aperto de capital, disseram autoridades americanas. Os três bancos -Grupo HSBC, Standard Chartered Bank e National Bank of Kuwait- são os primeiros qualificados para a licença de fornecimento de serviços financeiros plenos no país.

"Nenhuma economia vai a lugar algum sem um setor bancário, já que é o primeiro lugar onde investir seu dinheiro", disse Bill Barron, diretor administrativo e chefe de pesquisa global de ações do Deutsche Asset Management Ltd. "O HSBC e o Standard Chartered têm experiência e uma rede no Oriente Médio, de forma que não surpreende o fato de terem entrado. Eu estou surpreso com a ausência de bancos americanos, mas é apenas uma questão de tempo até que o Citibank e outros plantem suas bandeiras lá."

O Iraque está envolvido em um choque político entre a ocupação liderada pelos Estados Unidos e a poderosa elite xiita do país em torno de como escolher o primeiro governo soberano do país desde a queda de Saddam Hussein. Enquanto os Estados Unidos são a favor de uma série complexa de escolhas indiretas, a maioria xiita prefere eleições diretas -um processo que lhes daria uma maior influência sobre as características e políticas do novo governo. As tensões que cercam as negociações e um aumento das tensões étnicas e sectárias tem gerado a preocupação de que o abreviamento da transição poderá terminar em uma disputa violenta pelo poder.

Apesar de tais temores, o povo iraquiano -ao não trocar dinares por dólares, a moeda preferida em tempos incertos- está dando um voto implícito de confiança no futuro. Uma equipe do Tesouro dos Estados Unidos e autoridades do setor bancário iraquiano elaboraram no verão passado, em Bagdá, uma reforma ambiciosa do sistema financeiro do país, que parece estar suportando firmemente. Eles estabeleceram um banco central independente, uma troca de moeda que substituiu as antigas cédulas iraquianas, uma lei de investimento estrangeiro que permite que não-iraquianos sejam donos de 100% da maioria das empresas e bancos, códigos tributários para indivíduos e corporações e tarifas alfandegárias.

O dinar estável é uma das histórias de sucesso da coalizão e um atrativo altamente necessário para investidores estrangeiros. Desde a queda de Bagdá, o dinar já sofreu valorização, com o dólar caindo de 1.200 para 900 dinares no mês passado, antes de voltar aos 1.200. Nesta semana, o banco central iraquiano anunciou que removerá os controles sobre as taxas de juros, um sinal de crescente confiança na capacidade da economia de se desenvolver sem intervenção do governo.

"De forma geral, a aceleração do cronograma tem tido um impacto positivo", disse John Taylor, o subsecretário do Tesouro americano para questões internacionais.

Mas não haverá tempo suficiente, disse Taylor, para lidar com a reforma econômica do Iraque mais desafiadora politicamente: o desmonte dos subsídios aos preços de alimentos e energia. Sob Hussein, subsídios generosos para tudo, do pão ao ensino superior, ajudaram o regime a manter a população às vezes inquieta do Iraque na linha; a remoção destes subsídios antes de uma transferência de poder poderia resultar em uma inflação desestabilizadora, disseram os economistas.

Quando os representantes do Tesouro chegaram a Bagdá no ano passado, eles receberam um relatório do Banco Mundial sobre a liberalização das 24 ex-economias soviéticas, que concluiu que quanto mais rápido a economia ser ver livre dos subsídios, menos dolorosa será a recessão que se seguirá. Em grande parte por motivos políticos, tanto as autoridades americanas quanto iraquianas decidiram manter os subsídios de preço mais sensíveis.

"Do ponto de vista de um economista, você espera agir rapidamente" contra os subsídios, disse Peter McPherson, reitor da Universidade Estadual de Michigan e líder da equipe do Tesouro americano em Bagdá. "Mas há trocas. Eu entendo a pressão a qual estão sendo submetidos."

glain@globe.com. George El Khouri Andolfato

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