Na guerra contra a gordura, médicos têm poucas armas

Por Scott Allen

Apesar da obesidade atualmente ser a segunda principal causa de mortes evitáveis nos EUA, os médicos enfrentam um problema na luta contra o excesso de peso: para a maior parte dos pacientes, eles não têm muito a oferecer, senão dietas e exercícios.

As únicas duas drogas aprovadas pelo Departamento de Alimentos e Drogas dos EUA (FDA) para perda de peso em geral ajudam os pacientes a perderem 7kg ou menos; uma delas, orlistat, pode causar severa indigestão.

O problema, dizem os pesquisadores, é que, durante décadas, a obesidade foi tratada como problema estético, e não uma crise de saúde. Isso fez com que questões científicas básicas sobre o emagrecimento ainda não tenham sido solucionadas. Como resultado, a busca por uma dieta potente tem sido dispersa e, às vezes, trágica, como as anfetaminas receitadas nos anos 30, que causavam o vício, até as pílulas populares fen-phen, dos anos 90, que causavam problemas no coração.

"Sem querer rebaixar ninguém, por muitos anos esse ramo da ciência ficou parado", disse Dr. Allen Spiegel, co-diretor da Força Tarefa de Pesquisa em Obesidade dos Institutos Nacionais de Saúde (NHI), que gastarão 12 vezes mais em estudos sobre o câncer do que em obesidade neste ano.

Entretanto, 64% dos americanos estão acima do peso e 400.000 morrem por ano de causas relacionadas à obesidade, como enfarte. Assim, a atenção está começando a se voltar à ciência da obesidade.

"Somos simplesmente gordos demais", declarou o secretário de serviços humanos e da saúde, Tommy G. Thompson, no mês passado, exortando os americanos a perderem peso. Para ajudar na campanha, o grupo de Spiegel está desenvolvendo um programa de pesquisa para compreender melhor a obesidade; o governo Bush propôs um reforço de 10% no orçamento do NIH para pesquisa em obesidade, que poderá chegar a US$ 440,3 milhões (cerca de R$ 1,32 bilhão) em 2005.

O ritmo das pesquisas aumentou desde uma década atrás, quando poucos pesquisadores dedicavam-se aos estudos de obesidade, de acordo com Russell Ellison, diretor de medicina da empresa farmacêutica francesa Sanofi-Synthelabo. Hoje, há ao menos 10 tratamentos contra a obesidade sendo testados em seres humanos, inclusive o rimonabant, da Sanofi, que pode ajudar o paciente a perder peso e parar de fumar, bloqueando o mesmo sistema molecular que causa a vontade de comer nos fumantes de maconha.

A maior parte dos americanos não procura um médico para perder peso, mas sim métodos suspeitos, como pílulas não testadas ou dietas controversas. Segundo uma pesquisa recente da Harris Interactive, 32 milhões de americanos estão em uma dieta de baixo carboidratos, como a de Atkins ou de South Beach, que muitos nutricionistas dizem que pode ser eficaz, ao menos no curto prazo, mas talvez não sejam saudáveis.

O outro método de perda de peso que está ficando popular é a cirurgia de redução do estômago, geralmente reservada para pessoas com, pelo menos, 45 kg de excesso de peso, porque o procedimento envolve sério risco de saúde ou complicações. Mesmo assim, o número de pacientes com obesidade mórbida submetendo-se ao procedimento triplicou desde 2000 e chegou a 103.200 no ano passado, de acordo com a Sociedade Americana de Cirurgia Gástrica.

A venda de medicamentos para perda de peso caiu mais de 30% desde seu pico, no ano de 2001, de acordo com estatísticas compiladas pela IMS Health, empresa de consultoria de saúde na Pensilvânia. As pílulas à venda sem receita médica venderam quatro vezes mais no ano passado.
Os médicos dizem que as drogas atualmente disponíveis podem ter um papel limitado nos programas de perda de peso, mas alguns dizem que não valem o sacrifício. "As pessoas que tomam (as drogas) podem perder peso, mas a perda é modesta -de 2 a 5 kg- e sabemos que, se param de tomar a droga, podem recuperar o peso", disse Mitch Gitkind, diretor do Centro de Peso do Centro Médico Memorial da Universidade de Massachusetts em Worcester.

Segundo os especialistas, a falta de boas opções médicas reflete o fato de muitos profissionais continuarem considerando a obesidade como resultado de falta de força de vontade, em vez de uma condição médica como a pressão alta e colesterol excessivo.

Mesmo hoje, as empresas de seguro relutam tanto em cobrir drogas para perda de peso que seus fabricantes tendem a enfatizar condições relacionadas à obesidade, em vez de perda de peso. Por exemplo, a droga contra epilepsia da Ortho-McNeil, Topamax, parece também ajudar as pessoas a perderem peso, mas a empresa diz que a está testando somente para ajudar a tratar um distúrbio psiquiátrico de quem come o tempo todo, que aflige uma minoria dos obesos.

O Dr. George Blackburn, diretor da Divisão de Nutrição da Faculdade de Medicina de Harvard, argumenta que a fiscalização das drogas de emagrecimento é bem mais rígida do que de outras, porque a obesidade não é considerada uma doença verdadeira. Por exemplo, o FDA emitiu uma declaração sobre a segurança da combinação de duas pílulas fen-phen em 1997, depois que 43 mulheres que tomavam a droga tiveram problemas de válvula cardíaca. Blackburn pediu permissão para testar a combinação em dose menor, mas o FDA, em vez disso, proibiu o uso de fenfluramina, a "fen" do "fen-phen".

"Se o Tylenol fosse um medicamento para perda de peso, de forma alguma estaria no mercado, com o número de mortes e doenças de fígado que causou. Quando o tema é perda de peso, você precisa ser tão virtuoso quanto à mulher de César, porque a parcialidade é grande", disse Blackburn.

Dr. David G. Orloff, diretor da divisão de produtos metabólicos e endócrinos do FDA, diz que os medicamentos de emagrecimento são sujeitos aos mesmos padrões que os outros. No entanto, ele diz que a agência é muito estrita com a segurança de produtos que serão tomados por longos períodos de tempo, e quase todos medicamentos para perda de peso caem nessa categoria.

O maior problema do setor, nos últimos anos, tem sido a falta de novos medicamentos em geral. Apesar da indústria farmacêutica falar de 10 ou mais drogas em algum estágio do ensaio em seres humanos, ninguém pediu aos comissários do FDA aprovação final desde 1999.

"O FDA não está segurando nem negou nenhum processo", disse Orloff.
Uma droga, pelo menos, pode entrar com pedido de aprovação nos próximos anos. O rimonabant, da Sanofi-Synthelabo, está na fase 3 de ensaios humanos, a última, antes da empresa pedir aprovação para vender o comprimido. As pessoas que tomaram rimonabant por um ano antes do estudo perderam, em média, 8,5 kg.

Mas houve tantos desapontamentos na busca por uma droga eficaz de emagrecimento que muitos pesquisadores preferem não se concentrar em uma proposta, mas ressaltar que o campo avançou muito em pouco tempo. Para eles, a modernidade começou em 1995, quando Dr. Jeffrey Friedman, da Universidade Rockefeller, isolou o gene de leptina, proteína que parece impedir as células de gordura de serem armazenadas.

"A importância da leptina não é de tratamento, mas de abrir um campo de estudo, ao provar que as células de gordura estão tentando enviar uma mensagem ao cérebro sobre quanta gordura é armazenada", diz Louis J. Aronne, diretor do Centro de Perda de Peso global da Faculdade de Medicina Weill, na Universidade de Cornell, em Nova York. Em obesos, essas mensagens químicas perdem sua eficácia, tornando mais fácil ganhar peso do que perdê-lo, descobriram os pesquisadores,.

Desde a descoberta da leptina, os pesquisadores encontraram muitas pistas intrigantes para o funcionamento do metabolismo, inclusive uma proteína chamada adiponectina, cuja concentração tende a ser baixa em crianças com excesso de peso. Compreender como essas e outras partes do metabolismo humano funcionam juntas é chave para o desenvolvimento de drogas.

A outra grande fronteira é o papel de genes na estruturação física, disse Osama Hamdy, residente do Centro de Diabetes Joslin. "O comportamento alimentar e a resposta à comida são uma situação muito, muito complexa", disse Hamdy. "A genética ainda precisa ser descoberta".

Scott Allen pode ser encontrado em allen@globe.com Deborah Weinberg

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