Cheney lança nova ofensiva contra Kerry

Anne E. Kornblut
Fulton, Missouri

Após gastarem US$ 50 milhões em um único mês para colocar no ar uma série de propagandas políticas negativas contra John F. Kerry, os assessores da campanha de Bush voltaram a utilizar uma arma familiar na segunda-feira (26/04): o vice-presidente Dick Cheney, que lançou uma nova rodada de ataques coordenados contra o passado do senador referente à questão da segurança nacional.

Cheney fez as suas observações no seu estilo tipicamente contido, lendo em uma voz monótona um texto preparado com antecedência. Apenas umas poucas das suas acusações são novas. Por exemplo, a de que Kerry teria votado contra certos sistemas de armamentos em 1984, uma mensagem refletida em uma série de propagandas eleitorais lançadas na segunda-feira por Bush em 18 Estados.

Mas foi o discurso de Cheney que dominou o debate político - estimulando os democratas a responderem antes mesmo que ele falasse - e que contrastou bastante com a fala decididamente menos partidária do presidente Bush em Minnesota, a respeito de uma faixa ampla de tributação e da tecnologia de células de hidrogênio.

"Para além do seu esforço para marcar uma posição quanto à questão do Iraque, a história do senador Kerry gera sérias dúvidas quanto à sua compreensão da luta maior contra o terrorismo, da qual o Iraque é apenas uma frente", disse Cheney à audiência presente na Faculdade Westminster.

Ele disse que o senador por Massachusetts "tem ainda que apresentar um plano sério para vencer a guerra contra o terrorismo", acusou-o de "inconsistências e de argumentações mutáveis", e disse que Kerry "nos deu sérios motivos para duvidarmos do raciocínio e do comportamento que ele tende a exibir com relação a questões vitais de segurança nacional".

O discurso foi saudado com aplausos generalizados. Mas, após a fala de Cheney, o presidente da Faculdade Westminster, Fletcher M. Lamkin, enviou um e-mail à comunidade acadêmica, expressando a sua insatisfação com o tom partidário do discurso, a respeito do qual ele não foi avisado com antecedência.

"Francamente, tenho que admitir que fiquei surpreso e desapontado com o fato de o senhor Cheney ter escolhido deixar de lado o alto nível e recorrer a ataques pessoais a Kerry durante grande parte do seu discurso", disse Lamkin no e-mail. "O teor e o tom do discurso não foram submetidos à nossa avaliação antes do evento - só nos disseram que ele falaria sobre política externa, incluindo questões relativas ao Iraque".

Um anúncio no site da faculdade sobre a visita de Cheney diz que Lamkin teria dito que o vice-presidente lhe deu um telefonema não solicitado alguns dias antes, pedindo para fazer o discurso.

Os democratas, indignados, lembraram as numerosas vezes em que Cheney propôs a redução dos gastos com a defesa, incluindo os comentários do então deputado Cheney, em 1984, afirmando que o presidente Reagan deveria reduzir os gastos com o setor bélico porque o déficit orçamentário havia aumentado demasiadamente.

"Hoje, Dick Cheney elevou a audácia a um novo nível, ao condenar John Kerry por posturas que o próprio Cheney assumiu", criticou Phil Singer, um porta-voz de Kerry. "As vergonhosas insinuações do vice-presidente a respeito de um herói de guerra como John, que arriscou a sua vida tentando salvar as vidas de outros, deixa claro que a campanha de Bush não vê problemas em pisotear a verdade".

Antes de Cheney discursar, o diretor do Comitê Nacional Democrata, Terry McAuliffe, comandou o seu próprio evento, exigindo que Cheney "recolhesse os cães de ataque republicanos", e rotulando o vice-presidente de "cão de ataque em chefe".

Os assessores de campanha de Bush não pareceram ter-se perturbado com a resposta rápida dos democratas; o objetivo deles era colocar os democratas na defensiva e falar sobre segurança nacional, um assunto que acreditam ser favorável ao presidente.

Cheney foi por diversas vezes lançado no cenário público, quando o governo passou por dificuldades e desejou desviar as atenções da figura do presidente - algo que deve ocorrer novamente nesta semana, quando Cheney e Bush se defrontarem com a comissão de investigação das questões de inteligência sobre o 11 de setembro e Bush tiver que encarar o primeiro aniversário do seu discurso "Missão Cumprida", de 1º de maio do ano passado, anunciando o fim das grandes operações de combate no Iraque.

Sob esse ponto de vista, o dia foi um sucesso, já que Bush permaneceu quase invisível.

Ao mesmo tempo, a aparição de Cheney expôs uma lacuna pessoal, embora temporária, na operação conduzida por Kerry: a inexistência de uma figura de peso, capaz de se destacar, como faz o vice-presidente, quando o nível desta campanha, marcada por golpes baixos, piora demais. Embora Kerry possua alguns representantes para desempenhar tal papel, incluindo o senador Edward M. Kennedy, de Massachusetts, e a ex-governadora Jeanne Shaheen, de New Hampshire, os seus assessores falaram em indicar com antecedência o candidato à vice-presidência, a fim de obterem um substituto.

No centro da polêmica da segunda-feira estava a questão de qual equipe presidencial estaria mais apta para lidar com o problema da segurança nacional, com base nos históricos de obtenção de votos e declarações públicas.

Cheney leu várias citações de Kerry que aparentavam contradizer umas às outras, e apresentou diversos programas de armamentos, do míssil MX ao Veículo de Combate Bradley, projetos que, segundo ele, contaram com voto contrário do senador democrata. Ele contestou a crença de Kerry de que o combate ao terrorismo é tanto um projeto de inteligência e policial quanto militar. Cheney condenou de forma especialmente áspera a crítica feita por Kerry ao tamanho da coalizão internacional no Iraque, que o senador disse que aumentará se for eleito presidente.

"Não conheço nenhum caso em que um candidato à presidência dos Estados Unidos tenha se referido com tal desdém aos aliados combatentes ativos dos Estados Unidos em tempos de guerra", disse Cheney. "O desprezo do senador Kerry por nossos bons aliados é uma ingratidão para com as nações que enfrentaram perigos, dificuldades e insultos por ficarem ao lado dos Estados Unidos na luta pela causa da liberdade".

Mas Cheney também chamou atenção para a forma como Kerry abordou a questão da diplomacia internacional - especialmente os esforços do candidato democrata para esclarecer a alegação de que líderes estrangeiros não identificados estariam torcendo, discretamente, para que Bush perdesse a eleição.

"Certo dia, no 'Meet the Press', ele disse a Tim Russert: 'O que quero dizer é que você pode ir à cidade de Nova York, entrar em um restaurante e encontrar um líder estrangeiro'", disse Cheney, arrancando gargalhadas da platéia. "Quem sabe da próxima vez ele seja um pouco mais específico? Talvez nos diga o nome do restaurante. Ou do líder estrangeiro". Vice-presidente atua como um "cão de guerra" para preservar Bush Danilo Fonseca

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