Ex-comandantes de Kerry são contra sua candidatura

Michael Kranish
Em Washington

Um grupo de ex-oficiais que comandaram John F. Kerry no Vietnã, há mais de três décadas, declararam nesta terça-feira (04/05) que são contra sua candidatura à presidência, desafiando-o a divulgar mais de seu histórico médico e militar. Eles também disseram que a Casa Branca deveria ser negada a Kerry por causa de suas alegações de 1971, quando o democrata afirmou que alguns de seus superiores cometeram "crimes de guerra".

Kerry já disse que sua acusação de crimes de guerra e atrocidades foi dura demais, mas muitos de seus ex-comandantes argumentaram na terça que acreditam que as alegações eram voltadas contra eles.

"Eu não acredito que John Kerry esteja apto a ser comandante-em-chefe", disse o contra-almirante aposentado Roy Hoffman, que ajudou a organizar a coletiva de imprensa e supervisionou todas as lanchas no Vietnã na época que Kerry comandou uma delas. "Esta não é uma questão política; é uma questão de seu julgamento, honestidade, confiabilidade e lealdade -todos princípios básicos de comando."

A campanha de Kerry, buscando controlar os estragos políticos em um dia em que chegava ao ar uma nova série de propagandas políticas biográficas explorando o serviço militar do senador, fez com que dois companheiros de Kerry aparecessem em uma coletiva de imprensa posterior e declarassem que Kerry foi um grande líder, que enfrentou balas e investiu agressivamente contra o inimigo. A campanha de Kerry também apresentou documentos que segundo ela mostravam que a coletiva de imprensa foi preparada por uma empresa de relações públicas com laços com o Partido Republicano e o presidente Bush.

Um dos companheiros de guerra de Kerry, Wade Sanders, defendeu o senador e comparou as declarações dos comandantes de Kerry às investigações de suspeitos de serem comunistas pelo senador Joseph McCarthy nos anos 50, dizendo que deveria ser questionado aos comandantes: "Vocês não têm decência?"

A campanha do senador tem enfrentado críticas de alguns veteranos do Vietnã sobre as ações de Kerry naquele conflito e como líder antiguerra, mas o evento desta terça foi sem precedente, porque incluiu quase todos os seus oficiais de comando. Dois destes oficiais, o ex-capitão-de-corveta George Elliott e o ex-capitão da Guarda Costeira, Adrian Lonsdale, se mantiveram ao lado de Kerry quando dúvidas foram levantadas durante a campanha de 1996 para o Senado, sobre se Kerry merecia a medalha Estrela de Prata.

O tenente-coronel aposentado Jim Zumwalt -filho do falecido almirante Elmo Zumwalt da Marinha, que também apareceu ao lado do senador em 1996- expressou igualmente sua oposição a Kerry.

Há oito anos, Elliott, que recomendou a Estrela de Prata para Kerry, rebateu as sugestões de que Kerry atirou nas costas de um inimigo que recuava, fornecendo apoio crucial nos últimos dias da dura disputa pela cadeira no Senado entre Kerry e o então governador William F. Weld. Mas, na terça-feira, Elliott se juntou a outros comandantes dizendo que era contra Kerry para presidente com base de que o senador era um líder antiguerra que alegou que atrocidades foram cometidas no Vietnã.

Elliott defendeu sua atual posição, dizendo que era consistente apoiar o senador quando foi acusado falsamente em 1996 de um crime de guerra, mas que se opõe a ele agora porque Kerry acusou superiores erroneamente de serem criminosos de guerra.

"Eu acho duas coisas irônicas. Eu estive ao lado de Kerry juntamente com o almirante Zumwalt e Adrian Lonsdale em 1996 para defendê-lo da falsa acusação de -adivinhem?- atrocidades e crimes de guerra", disse Elliott. "Aquilo não era verdade; foi o motivo de ter ficado ao lado dele. A segunda ironia é que, em 1971 (...) ele alegou que 500 mil homens em combate no Vietnã eram todos vilões. Não havia heróis. Em 2004, um herói da Guerra do Vietnã apareceu concorrendo para presidente dos Estados Unidos."

"Isto faz uma pessoa pensar", disse Elliott.

Lonsdale, que recordou de longas discussões com Kerry quando serviram juntos, disse: "Eu nunca ouvi o senador Kerry dizer algo sobre atrocidades".

Além disso, um dos oficiais de comando de Kerry, o capitão-de-corveta aposentado Grant Hibbard, disse que questionou fortemente se o senador merecia seu primeiro Coração Púrpura (uma medalha). Elaborando sobre um relato publicado pelo "The Boston Globe" no mês passado, Hibbard disse que recebeu o relatório após o evento de 2 de dezembro de 1968, pelo qual Kerry recebeu um Coração Púrpura.

"O relatório de alguns membros da tripulação na manhã seguinte revelou que eles não receberam fogo inimigo", disse Hibbard. "Mas o tenente Kerry me informou um ferimento, mostrou um arranhão em seu braço e um pedaço de estilhaço em sua mão, que parecia ser de uma de nossas próprias M-79. Foi posteriormente relatado que o tenente Kerry disparou uma M-79 e que ela explodiu no litoral adjacente. Eu não lembro de ter sido informado sobre qualquer tratamento médico e provavelmente disse algo como: 'Deixa pra lá'."

"Ele recebeu posteriormente um Coração Púrpura por aquele arranhão, eu não sei como", disse Hibbard. Separadamente, o dr. Louis Letson disse na segunda-feira que removeu o estilhaço de Kerry, confirmando que ele recebeu tratamento, mas Letson disse que também foi informado por outros marinheiros que eles não receberam fogo inimigo. Mas dois companheiros de Kerry disseram ao "Globe" neste ano que consideravam que Kerry foi atingido por fogo inimigo.

Chamando a si mesmos de Swift Veterans for Truth (veteranos rápidos pela verdade), os oficiais que criticaram Kerry na terça-feira pediram sua autorização para que o Departamento de Defesa libere todo o seu histórico médico e militar.

A meta de tal pedido parecia ser concentrar em questões como a levantada por Hibbard sobre o primeiro Coração Púrpura. Os veteranos disseram que queriam os registros divulgados pela Marinha, não pela campanha, para assegurar que o público possa ver tudo no arquivo de Kerry. Michael Meehan, o porta-voz de Kerry, disse que a campanha divulgou tudo o que estava contido no arquivo da Marinha.

Meehan disse que os comandantes foram motivados por política partidária e notou que o principal organizador, John O'Neill, tem ligações com o Partido Republicano que vêm desde a Casa Branca de Nixon. A campanha de Kerry mostrou aos repórteres uma foto de O'Neill se encontrando com o presidente Nixon, em 1971, e cópias de avaliações favoráveis a Kerry por Elliott e Hibbard.

Mas a campanha de Kerry disse em uma declaração que uma das organizadoras, Merrie Spaeth, estava "ligada às táticas baixas da campanha de Bush para manchar a reputação de John McCain na primária presidencial republicana de 2000". A campanha de Kerry disse que Spaeth é viúva de Harold Lezar, que concorreu com Bush em 1994 para vice-governador. Spaeth foi diretora de relações com a mídia do presidente Reagan.

Em uma entrevista por telefone, Spaeth disse que sua firma não teve nenhuma ligação com os ataques contra McCain, e ela disse que seu falecido marido perdeu a disputa para vice-governador e não foi apoiado por Bush. Ela disse que foi escrupulosa em não ter nenhum contato com membros do Partido Republicano na organização da coletiva de imprensa de terça-feira.

Diferente dos comandantes, todos, com exceção de um, dos cerca de 15 homens que serviram sob o comando de Kerry o elogiaram enormemente, e muitos disseram que eventualmente entenderam sua oposição à Guerra no Vietnã. "John Kerry nunca recuou", disse o companheiro Del Sandusky na terça-feira. "Sua filosofia era: 'Atacar, atacar, atacar'." Militares supostamente ligados aos republicanos criticam ação do democrata no Vietnã George El Khouri Andolfato

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