Entrevista sobre tortura faz Bush parecer um grande teimoso

Peter S. Canellos
Em Washington

Quando o presidente Bush foi ao ar nas estações de televisão árabes Al Harra e Al Arabyia, na quarta-feira (05/05), ele tinha dois alvos em vista: a opinião mundial, e especialmente a do Oriente Médio, e o eleitorado que votará na eleição presidencial norte-americana.

As entrevistas consistiram no episódio em que Bush esteve mais próximo de admitir que foi cometido um erro ou uma falha sob a sua administração. Ele chamou o abuso de prisioneiros iraquianos de "repulsivo". Porém, mais do que as suas tentativas de se distanciar do abuso cometido, a sua decisão de falar como quem vai pedir desculpas para, no último momento, recuar, pareceu revelar mais detalhes sobre a personalidade do presidente.

Bush tem bons motivos políticos para não assumir responsabilidade pessoal pelos erros cometidos: nas pesquisas, incluindo uma feita pela NBC, que foi divulgada na noite da quarta-feira, os norte-americanos continuam a expressar aprovação pelo estilo agressivo da liderança do presidente, ainda que o apoio às suas políticas esteja em baixa. Na verdade, o seu índice de aprovação subiu um pouco após a entrevista coletiva à imprensa do dia 13 de abril, quando ele declarou não ser capaz de se lembrar de ter cometido qualquer erro como presidente.

Mas, embora Bush, em quase todas as suas discussões envolvendo o Iraque, faça referências a permanecer firme e a manter a rota, o seu governo tem caminhado em zigue-zague.

Em Fallujah, as forças armadas dos Estados Unidos deram início a uma campanha de bombardeios aéreos, para, logo a seguir, se retirarem e devolverem a cidade a forças iraquianas lideradas por um ex-general do exército de Saddam Hussein. Em Najaf, o governo jurou prender o clérigo radical Moqtada al-Sadr, mas não demonstrou pressa em fazê-lo, tendo implorado aos líderes xiitas que negociassem um cessar-fogo.

Essas demonstrações de comedimento, combinadas com a decisão de Bush de aparecer nas redes de TV árabes, indicam que o governo reconhece cada vez mais que o apoio árabe - e do resto do mundo - é fundamental para a promoção da estabilidade no Iraque.

Os líderes do Pentágono, quase que certamente sob ordens de Bush, determinaram que novas mortes em Fallujah e Najaf podem contribuir mais para provocar ataques por parte dos insurgentes do que para suprimi-los. Da mesma forma, a decisão do governo em permitir que ex-líderes do regime de Saddam Hussein retornassem a posições de poder vai contra a política de "desbaathificação" que o administrador designado por Bush para o Iraque, Paul Bremer, defendia como sendo um sucesso ainda no mês passado.

E, ainda assim, nos compromissos de campanha e na Casa Branca, Bush fala como se a administração jamais tivesse sido pega de surpresa ou com a guarda abaixada. Ele responde a perguntas sobre mudanças nas suas políticas reafirmando as suas intenções - que continuam sendo puras -, e não as suas políticas, que oscilam.

Assim, Bush transmite uma mensagem de consistência e determinação, e não de percalços e ajustes. Ao elogiar o seu principal aliado, o primeiro-ministro britânico Tony Blair, Bush disse em 13 de abril, "Ele entende, como eu, que não podemos ceder a essa altura; que precisamos permanecer firmes e fortes; que a intenção do inimigo é abalar a nossa vontade. É isso o que eles querem fazer. Eles querem que partamos. E não vamos partir. Vamos fazer o nosso trabalho".

Duas semanas depois, Bush ordenou uma retirada de Fallujah. Toda essa determinação no campo da retórica firmou a sua reputação como a de um homem de crenças fortes e fixas. Mesmo assim, ainda não se sabe se os eleitores interpretarão o fato de Bush não ter se desculpado diretamente - ao invés de tê-lo feito por meio de representantes - pelo abuso cometido contra os prisioneiros, como uma demonstração de força ou de teimosia.

O abuso praticado contra prisioneiros de guerra, documentado em várias fotos de homens nus sendo obrigados a simular a prática de atos sexuais, é diferente, no seu teor, de uma reversão no campo de batalha ou de uma mudança de política: parece haver pouco a ganhar com a recusa em aceitar as críticas.

Mesmo assim, na sua aparição na Al Arabyia, Bush não pôde resistir à tentação de aproveitar a oportunidade para se gabar do estilo norte-americano: "Um ditador não estaria respondendo a perguntas como esta. Um ditador não estaria dizendo que o sistema será investigado e que o mundo verá os resultados da investigação. Um ditador não admitiria que é necessário que se façam reformas".

A disposição de Bush de chegar às raias da rudeza ao proclamar a grandeza dos Estados Unidos é uma vantagem política que se transformou em um ponto de tensão para o mundo. No entanto, o presidente parece saber exatamente qual é a audiência que precisa impressionar, e ele está contando com o apoio dessa audiência em novembro. Ele age como alguém consciente de sua culpa mas que se recusa a reconhecâ-la Danilo Fonseca

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