Fim da crise na Nigéria pode acabar com pólio na África

Por John Donnelly
Em Pretória, África do Sul

Nesta segunda-feira (17/05), funcionários de diversas organizações internacionais da Saúde se disseram otimistas diante da possibilidade de erradicar a poliomelite até o final deste ano, mesmo que sejam niciadas apenas em setembro as campanhas de vacinação programadas para as derradeiras áreas do planeta onde este vírus, capaz de deixar as pessoas paralisadas, ainda pode ser encontrado.

Numa reunião a portas fechadas em Genebra, o ministro da Saúde da Nigéria, Eyitayo Lambo, informou aos especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e aos ministros da Saúde dos cinco outros países nos quais a pólio ainda vem sendo transmitida, que a região problemática do norte da Nigéria será objeto de três campanhas intensivas de vacinação no final deste ano. Ele se disse confiante de que este objetivo será cumprido.

O enfoque específico na Nigéria vem do fato de que foram obtidos importantes sucessos em quatro outros países na meta de erradicar a transmissão da pólio. Os progressos foram particularmente notáveis na Índia, que virtualmente decretou o fim da transmissão da pólio no seu território neste ano. Ainda recentemente, em 2002, a Índia contava 1.600 casos de pólio.

"O que é mais animador agora é que a Índia recenseou apenas oito casos de pólio, por enquanto, neste ano - um número de um só dígito num país de 1 bilhão de habitantes pode ser considerado como um verdadeiro sucesso", declarou, logo após a reunião, Bruce Aylward, o dirigente da OMS responsável pela luta contra a pólio.

"Nós temos apenas 12 casos no Paquistão, mas a questão não se limita a dizer que nós só temos esses 12 casos; é preciso acrescentar que este país tem um presidente, [Pervez] Musharraf, que está afirmando: 'Eu não vou desistir desta luta até que tudo esteja terminado".

Até a semana passada, 169 casos de pólio foram confirmados globalmente neste ano, dos quais 119 foram registrados na Nigéria e 12 no seu vizinho, o Niger. Estas duas nações oeste-africanas respondem por 77% do total dos casos registrados em todo o mundo.

Outros 21 países da África do oeste e central, inclusive o Senegal e a República Democrática do Congo, concordaram em promover campanhas sincronizadas de imunização contra a pólio, pelas quais dezenas de milhões de crianças deverão ser beneficiadas até o final deste ano, ou no início de 2005. Estes compromissos permitem esperar que a doença seja definitivamente erradicada e que não haja mais nenhum caso de infecção pela poliomelite a partir do ano que vem.

Bruce Alyward, junto com outros dirigentes da luta pela erradicação da pólio, afirmou que o vírus poderia ser detido até meados de setembro na Índia, no Paquistão, no Afeganistão e no Egito, o que deixaria a Nigéria e o Niger como sendo os únicos países onde a transmissão ocorre localmente.

Mas o perigo, que poderia pôr para perder mais de 20 anos de esforços e mais de US$ 3 bilhões (R$ 9 bilhões) em investimentos, mora no fato de que se o vírus não for detido agora no norte da Nigéria, ele poderá voltar a se espalhar facilmente em populações da África inteira e de países periféricos.

Além disso, uma vez que muitos países suspenderam as vacinações contra a pólio, dezenas de milhões de crianças estão agora vulneráveis. Já neste ano, o vírus da pólio que foi registrado no norte da Nigéria espalhou-se por quatro países vizinhos, inclusive o Botsuana, que fica a 4.800 quilômetros de distância da área afetada.

O problema está concentrado no Estado de Kano e de sua região, onde o governo e líderes religiosos andaram questionando a segurança da vacina contra a pólio. Algumas autoridades chegaram a afirmar que estas vacinas haviam sido contaminadas pela Agência Central de Inteligência (CIA), com objetivo de tornar as crianças muçulmanas inférteis; outras declararam que elas se oporiam a toda e qualquer campanha de saúde financiada por fundos norte-americanos por causa das guerras que os Estados Unidos vêm travando contra as nações muçulmanas do Afeganistão e do Iraque.

No entanto, muitos funcionários federais nigerianos acreditam que a motivação que leva muitos dirigentes a interferirem nas campanhas de vacinação contra a pólio está enraizada nos problemas de política interna do país. Com efeito, os líderes do norte querem ao mesmo tempo receber mais fundos do governo federal e criar problemas ao presidente Olusegun Obasanjo, um homem do sul.

Eyitayo Lambo, o ministro da Saúde da Nigéria, disse aos funcionários dos serviços de saúde, durante um intervalo entre as reuniões da Assembléia Mundial da Saúde, que se reúne anualmente e que acontece em Pretoria, na África do Sul, que ele havia assinado um acordo com os líderes de Kano, no qual ficaram estipuladas as condições que permitem a retomada da vacinação contra a pólio. Ele acrescentou que uma delegação de Kano estava visitando atualmente a Indonésia, o único país muçulmano que fabrica a vacina contra a pólio.

Uma missão de inquérito que havia sido enviada anteriormente por companhias produtoras da vacina da Indonésia e da Índia concluíra que os lotes de vacinas cuja qualidade havia sido contestada eram de fato seguros. Lambo não foi encontrado pela reportagem para comentar esta notícia depois da reunião.

"O governo do Estado de Kano será admitido em breve na nossa organização", declarou Jonathan Majiyagbe, um nigeriano que é presidente do Rotary International. O Rotary instituiu a erradicação da pólio como a sua prioridade máxima em nível global; ao longo das últimas duas décadas, esta organização doou cerca de US$ 600 milhões (R$ 1,8 bilhão) para contribuir para esta luta, enquanto os seus membros ajudaram a vacinar milhões de crianças.

Majiyagbe acrescentou que os funcionários da saúde em Kano, uma área que não tem vacinado nenhuma criança contra a pólio durante um ano, irá precisar de alguns meses para planejar de maneira adequada as próximas campanhas de imunização em toda a região. "Mas é muito provável que até o final de 2004, nós possamos dizer adeus à pólio", concluiu.

Julie Gerberding, a diretora dos Centros Americanos pelo Controle das Doenças, qualificou os progressos que foram obtidos neste ano de "extremamente impressionantes". Além disso, ela também reconheceu que a situação atual na Nigéria estava "ficando mais calma".

Conflitos recentes entre cristãos e muçulmanos em Kano e no centro da Nigéria, que causaram provavelmente a morte de centenas de pessoas, também poderiam ter por conseqüência colateral de complicar as futuras campanhas de imunização, relataram alguns funcionários.

Mas Bruce Aylward acredita que o problema mais difícil de resolver em Kano e nos países fronteiriços da Nigéria será de promover campanhas de vacinação da melhor qualidade possível.

"As autoridades de Kano também estão dizendo agora que elas querem resolver esta situação o mais rápido possível", disse Aylward numa entrevista. "Eles têm registrado cerca de 100 casos de crianças paralisadas pela pólio... Eles acabaram se dando conta das conseqüências que a sua posição provocou em relação à pólio". Organização Mundial da Saúde prevê erradicação da doença até o início de 2005 Jean-Yves Neufville

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