Parentes de vítimas de 11/9 criticam ação do ex-prefeito de NY

Charlie Savage
Em Nova York

A comissão que investiga o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 em Nova York queria se concentrar nesta quarta-feira (19/05) nas discussões sobre lições que pudessem melhorar a resposta a um futuro ataque. No entanto, parentes dos mortos na destruição do World Trade Center queriam que ela falasse mais sobre o que deu errado há 2,5 anos.

No segundo dia de audiências relativas à resposta de emergência aos ataques, a comissão disse que 85% da infra-estrutura crítica do país é controlada pelo setor privado. Ela propôs padrões de prontidão de emergência voluntários para as empresas planejarem evacuações, comunicações e como voltar às operações depois de um grande ataque.

Mas as sugestões foram encobertas por expressões emotivas de parentes na platéia, que interromperam o depoimento do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani para acusar a comissão de perder tempo demais elogiando-o, em vez de fazer as duras perguntas sobre o que deu errado no dia dos ataques.

"Três mil pessoas assassinadas -isso não significa grande liderança... deixe-me fazer as perguntas de verdade!" gritou um homem, antes de ser retirado da sala. Outros gritaram: "falem dos rádios!" -uma referência aos bombeiros que morreram na segunda torre, aparentemente por não terem ouvido a ordem de evacuar.

"Acho que muitas perguntas não foram abordadas hoje", disse após a audiência Maureen Bosco, cujo filho, Richard Bosco, estava entre as quase 3.000 pessoas mortas no colapso das torres gêmeas.

De fato, o tom da comissão em audiências anteriores, que avaliaram o desempenho da Administração Federal de Aviação, do FBI e da CIA, foi de duro interrogatório. Desta vez, ao avaliar os líderes da cidade e departamentos de polícia e de bombeiros, que perderam 403 homens em seu esforço de resgate, a comissão foi comparativamente gentil.

Nenhum dos membros da comissão perguntou a Giuliani porque resolvera colocar o centro de operações de emergência de Nova York no 23º andar de um prédio perto das torres gêmeas, em vez de longe de qualquer possível alvo, questão levantada no dia anterior. O centro teve que ser evacuado logo no início da crise e foi inútil durante o esforço de resgate.

Além disso, o relatório da comissão evitou julgar o desempenho do pessoal de resposta de emergência da cidade.

A comissão, inadvertidamente, distribuiu um relatório provisório a alguns repórteres de manhã, revelando que tinha decidido retirar muitos comentários críticos que pretendia fazer. Por exemplo, foi retirado um comentário que observava que os chefes dos departamentos de polícia e bombeiros, rivais históricos, não se comunicaram durante a crise.

O relatório final, entretanto, promoveu a noção de que a cidade precisa reformar seu planejamento de emergência de forma a integrar o sistema de comando das duas agências, para que possam trocar informações sobre a situação, em vez de trabalhar de quartéis-generais separados.

Giuliani contou em seu depoimento o que viu e o que fez na manhã dos ataques. Parentes indignados interromperam quando ele sugeriu que alguns bombeiros heróicos ficaram na torre depois da evacuação para ajudar os civis. Depois dos berros, o ex-prefeito olhou para baixo e murmurou que essas reações eram "compreensíveis. Quando a pessoa sofre uma perda, isso é muito compreensível."

Depois da audiência, o diretor da comissão, Thomas Kean, observou que o prefeito já tinha sido interrogado a portas fechadas.

"O que as pessoas esquecem é que nos reunimos com cada uma dessas testemunhas por horas, e todas as questões já foram colocadas", disse ele. "Fomos acusados, no passado, de ser duros demais com as testemunhas... fazemos o melhor que podemos."

Giuliani disse que autoridades federais nunca lhe informaram das conversas interceptadas da Al Qaeda sobre um ataque iminente, mas disse que talvez isso não fizesse diferença, porque a cidade estava em alerta para o terrorismo há anos.

"Honestamente, não posso dizer se teríamos feito algo diferente", disse ele. "Estávamos fazendo tudo que podíamos pensar na época para proteger a cidade -respeitando a necessidade de movimentação."

O atual prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, foi duro contra as críticas aos funcionários de emergência da cidade, dizendo que foi incrível o bom funcionamento do resgate.

Cerca de 25.000 civis que estavam nas torres chegaram à segurança naquela manhã, e a maior parte dos que morreram tinha ficado presa nos andares acima dos incêndios, onde nada poderia ter sido feito.

"Depois do acontecido, aqueles que se dizem especialistas vão sempre dizer que poderíamos ter feito as coisas de forma diferente. Mas, no mundo real, você fica no meio de uma nuvem, com sirenes tocando, sistemas de comunicação em colapso e toda espécie de boatos", disse Bloomberg.

Bloomberg instou a comissão a pressionar o Congresso para mudar a forma que distribui seus fundos de segurança da pátria, que ele chamou de "política da pior espécie" e disse que resultou em Nova York recebendo US$ 5,40 (cerca de R$ 16,20) por pessoa enquanto Wyoming (Estado do interior dos EUA de população minúscula) recebeu US$ 38,50 (aproximadamente R$ 115,50) por pessoa, no orçamento federal de 2004.

Ele observou que o governo Bush mudou a fórmula para dedicar mais fundos a sete áreas de risco do país, em sua proposta para o orçamento de 2005, mas o Congresso acrescentou outras 73 áreas à lista, o que diluiu a parte de Nova York, apesar de, junto com Washington D.C., ser um alvo muito mais provável de ataques, de acordo com a comissão. Pendengas políticas teriam impedido eficácia de polícia e bombeiros durante atentados Deborah Weinberg

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