EUA repetem no Iraque os erros do Vietnã, dizem especialistas

Bryan Bender
Em Washington

O senador Edward M. Kennedy chamou o Iraque de "o Vietnã do presidente Bush". E na semana passada o ex-Beatle e ativista contra a guerra, Paul McCartney, disse que "a atual situação lembra bastante o Vietnã".

Embora os críticos de Bush estejam usando a derrota dos Estados Unidos por uma força militar mais fraca nas selvas do sudeste asiático como uma metáfora para aquilo que eles consideram uma política fracassada no Iraque, os dois conflitos têm muito mais diferenças do que semelhanças, segundo oficiais militares, estrategistas privados, e um novo estudo realizado pela Faculdade de Guerra do Exército.

No entanto, disseram eles, duas lições permanentes aprendidas no Vietnã não estão sendo suficientemente aplicadas no Iraque: a necessidade de conquistar a simpatia da população, e não simplesmente de vencer o inimigo, e a importância de garantir o apoio da população nos Estados Unidos às estratégias e objetivos da guerra.

"O Vietnã e o Iraque são coisas inteiramente diferentes", afirma o coronel do Exército Paul Hughes, ex-diretor de planejamento estratégico da coalizão liderada pelos Estados Unidos no Iraque, e atualmente consultor militar da Universidade Nacional de Defesa, em Washington.

"O Iraque não é uma guerra civil e os insurgentes não possuem refúgios ou apoio externos. Mas vejo paralelos com o Vietnã porque não sabemos o que queremos fazer. E não dá para ganhar apenas porque se derrotou o inimigo. Quem quiser apenas subjugar uma nação, sem analisar como trazê-la de volta ao grupo de membros respeitados da comunidade internacional, está demonstrando ter uma visão muito curta", disse Hughes.

Aparentemente, os dois conflitos não poderiam ser mais diferentes. Os comunistas norte-vietnamitas travaram uma clássica guerra de guerrilha contra as forças dos Estados Unidos e do Vietnã do Sul, que culminou com uma vitória militar convencional.

No Iraque a situação é oposta: a insurgência começou com uma vitória militar convencional dos Estados Unidos, com a derrubada de Saddam Hussein, no ano passado, antes de se transformar em uma guerra de guerrilha.

Bem organizadas e numerosas, as forças vietcongues contaram com o reconhecimento internacional e o apoio militar de aliados poderosos como a China. Até o momento, os insurgentes iraquianos são poucos e não parecem contar com um patrocinador estrangeiro, e tampouco seguir uma estrutura militar organizada.

Os comunistas vietnamitas tinham uma agenda política, econômica e social. Os insurgentes iraquianos - que se acredita serem uma mistura de ex-forças governamentais e terroristas estrangeiros - não oferecem uma ideologia aparente ou uma visão para um futuro Iraque.

Mas os especialistas dizem que se preocupam com a possibilidade de os Estados Unidos terem subestimado a importância de conquistar os corações e as mentes dos iraquianos e que o governo Bush, ao dar a impressão de modificar freqüentemente a sua estratégia geral, não conseguiu garantir o apoio da população em casa. Esses dois fatores acabaram levando a uma derrota no Vietnã.

Por exemplo, nos últimos dias, os comandantes norte-americanos no Iraque se gabaram da ofensiva de sete semanas contra a milícia combatente leal ao clérigo xiita radical Moqtada al-Sadr, chegando até mesmo a divulgar a contagem diária de corpos de forças inimigas, que chegaram a cem em um único dia. O general Mark Kimmitt, o principal porta-voz militar no Iraque, disse aos jornalistas na semana passada que a segurança no Iraque acabaria sendo garantida pela derrota dos remanescentes do Partido Baath, das milícias renegadas e dos terroristas estrangeiros.

"Quando o país vai se sentir seguro?", perguntou ele, retoricamente. "Este país vai se sentir seguro quando conduzirmos a situação a um nível relativo de estabilidade. E isso é definido como o momento em que acabarmos com aquelas pessoas que estamos combatendo".

Mas o sucesso não pode ser medido em termos de inimigos mortos porque o centro de gravidade de qualquer insurgência é a população local, que em última instância determina se os guerrilheiros são capazes de se multiplicar e de continuar lutando, ainda que sofram baixas substanciais, segundo o tenente-coronel Andrew Krepinevich, especialista em contra-insurgência e ex-chefe do Departamento de Avaliações Gerais do Pentágono.

"Despendemos muita energia na caça aos insurgentes e pouca na conquista dos corações e mentes do povo", disse ele. "Será que tivemos uma vitória em Najaf, se matamos algumas centenas de insurgentes? Pode-se vencer várias batalhas e ainda assim perder a guerra. Nós ganhamos praticamente todas as batalhas que travamos no Vietnã e acabamos perdendo".

Ele diz acreditar que mais esforços são necessários para convencer os iraquianos de que os norte-americanos acabarão triunfando, conquistando assim as suas mentes, e convencendo-os de que uma vitória dos Estados Unidos melhorará as suas vidas, garantindo desta forma a conquista dos seus corações.

O relatório da Faculdade de Guerra do Exército, divulgado no mês passado, manifestou preocupações similares. No Vietnã, o número de inimigos mortos "não significou nada como medida de sucesso estratégico, enquanto os mortos eram substituíveis", afirma o estudo, intitulado "Iraque e Vietnã: Diferenças, Similaridades e Percepções". O documento foi escrito pelo tenente-coronel W. Andrew Terril, um ex-negociador de paz no Oriente Médio, e pelo pesquisador Jeffrey Record, que trabalhou como assessor na região do Delta do Mekong, durante a Guerra do Vietnã.

Eles acrescentaram: "Desprezar os insurgentes iraquianos, chamando-os de 'terroristas' e 'encurralados" é uma atitude que não leva em conta as conseqüências políticas potencialmente perigosas. A capacidade da insurgência pode se alterar drasticamente caso segmentos significativos da maioria xiita iraquiana passem a apoiar elementos radicais na comunidade e peguem em armas contra as forças dos Estados Unidos".

Ainda segundo os especialistas, enquanto isso a guerra precisa também ser travada de forma mais agressiva no terreno da opinião pública norte-americana.

"No Vietnã nós não levamos em consideração o apoio do povo e não procuramos estimular tal apoio", explica Hughes. "O povo norte-americano está apoiando as tropas no Iraque, mas não estou certo de que a população entende qual deve ser a nossa política naquele país. As pessoas podem acordar certo dia e dizer que estamos sofrendo um número excessivo de baixas".

"É aí que a liderança entra em cena", acrescenta Hughes. "Não podemos fracassar no Iraque e precisamos fazer com que a nossa missão dê certo. Mas isso vai exigir bem mais recursos e muita paciência e, o mais importante, bastante vontade".

As baixas norte-americanas na Guerra do Vietnã foram, em média, de 7.000 por ano. Já os norte-americanos mortos no Iraque até o momento somaram um pouco mais de 800. Mas o relatório da Faculdade de Guerra alerta que o apoio político doméstico não deve ser tido como certo.

"No momento em que este relatório é escrito, as forças dos Estados Unidos entraram no seu segundo ano no Iraque", diz o documento. "Se fôssemos seguir a analogia com o Vietnã, estaríamos na primavera de 1966...quase sete anos antes da retirada final das forças armadas norte-americanas".

Mas, ao contrário daquela época, quando os estrategistas tinham como certos os níveis sustentáveis de apoio público, os tomadores de decisões de hoje - e a população - têm atrás de si a experiência da Guerra do Vietnã, que faz com que se exerça cautela. Americanos estão perdendo apoio doméstico à guerra e são mal vistos por iraquianos Danilo Fonseca

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