Serviço militar prolongado pode criar "exército oco", diz Kerry

Patrick Healy
Em Independence, Missouri

John F. Kerry disse nesta quinta-feira (03/06) que o governo Bush tinha imposto uma "convocação pelos fundos", ao estender o tempo de serviço de milhares de soldados no Iraque e no Afeganistão, cujo prazo estava terminando. Ele também pediu que fosse dobrado o número de forças especiais de elite americanas, que têm sido particularmente ativas nessas zonas de guerra.

Kerry advertiu que os EUA estavam "correndo o risco de criar outro exército vazio", como resultado das políticas do presidente Bush. A expressão era usada nos anos 70 para descrever forças armadas sem homens suficientes para preencher suas unidades de combate. Kerry também falou das medidas que acredita serem necessárias para combater o terrorismo e outras ameaças do "século 21".

O candidato democrata à presidência acusou seu rival republicano de miopia, apesar de seu discurso duro. Kerry acusou Bush de estar "obcecado" com estratégias anteriores a 11 de setembro, como sistemas de mísseis caros, que visam "guerras convencionais clássicas" com outras nações. Por outro lado, o democrata se descreve como um líder de visão ampla, que transferiria bilhões dos gastos do Pentágono para a contratação de mais soldados e desenvolvimento de tecnologias inovadoras, para combater a Al Qaeda e outros terroristas que se dão o "direito de executar inocentes".

"Eles apresentam um desafio de segurança nacional central de nossa geração, mas são diferentes de qualquer adversário que nossa nação tenha enfrentado", disse Kerry, em um discurso de 35 minutos na Biblioteca Presidencial Harry S. Truman.

Ele comparou os atuais desafios à transformação militar desenvolvida por Truman no pós-guerra, para combater o comunismo. "Eles não têm presidente, capital, território, exército ou identidade nacional. Não estamos absolutamente certos como são organizados ou quantos agentes têm. Mas conhecemos a destruição que podem provocar."

"Uma retórica dura não é suficiente para nos deixar seguros", prosseguiu Kerry. "Precisamos de decisões duras para fortalecer o exército americano, para que possamos encontrar e pegar esses terroristas, antes que nos peguem."

As novas unidades de forças especiais seriam parte de uma expansão de 40.000 recrutas, proposta por Kerry no ano passado. Para tanto, seria desenvolvida uma campanha de recrutamento mais agressiva, mas não haveria novos incentivos financeiros para ajudar a preencher as fileiras.

O propósito da expansão não seria enviar maior número de forças ao Iraque ou ao Afeganistão, disse Kerry, mas substituir soldados, reservistas e guardas que vêm servindo por tempo prolongado. Há atualmente 49.000 soldados da ativa, da reserva e guardas das forças de operações especiais.

O assessor de política externa de Kerry, Rand Beers, disse que a expansão custaria entre US$ 5 e US$ 8 bilhões (entre R$ 15 e R$ 24 bilhões) anualmente. Ela seria financiada com cortes nos programas de defesa de mísseis do governo Bush e com a simplificação de alguns programas de armas. Neste ano, os projetos de defesa de mísseis utilizarão US$ 3,7 bilhões (aproximadamente R$ 11,1 bilhões) e US$ 53 bilhões (em torno de R$ 153 bilhões) nos próximos cinco anos.

O secretário de defesa Donald H. Rumsfeld já autorizou a nomeação de 30.000 recrutas. Na quarta-feira, o exército anunciou uma nova política requerendo que os membros do serviço permanecessem nas zonas de guerra até que suas unidades voltassem à base, prolongando o período de atividade de milhares de soldados. Kerry disse que cerca de 30.000 homens seriam afetados, mas uma autoridade do Pentágono disse, na quinta-feira, que a política do exército de manter o pessoal em serviço não estava ligada ao projeto de Rumsfeld para novos soldados.

O comitê de Bush, na quinta-feira, atacou as propostas de segurança nacional de Kerry, recusando-se a dar-lhe qualquer participação em uma questão que muitos eleitores dizem que influenciará sua escolha no dia da eleição.

O senador Mitch McConnell, republicano de Kentucky, falando em uma conferência telefônica organizada pela equipe de Bush, disse que via uma "quantidade impressionante de 'eu também'" nas propostas de Kerry, e citou a autorização do Pentágono de acrescentar soldados. Ele também criticou Kerry por ficar afastado, em campanha, enquanto o Senado, na quarta-feira, aprovava a destinação de US$ 25 bilhões (aproximadamente R$ 75 milhões) para operações no Iraque e no Afeganistão; Kerry disse que apoiava esse uso dos fundos e que sempre volta ao Senado se os votos estão divididos. A medida de US$ 25 bilhões foi aprovada por 95 votos a zero.

Colocando de lado o decoro tradicional do Senado, McConnell acrescentou: "Kerry gosta de dizer que o governo não tem nenhum plano no Iraque, mas ele também não mostra o seu. É esse o Kerry que conhecemos, que está aqui há 20 anos."

O gerente de campanha de Bush, Ken Mehlman, ridicularizou as idéias do senador como "vazias", uma palavra que usou duas vezes. "A estratégia de Kerry é: 'Eu queria fazer o que ele está fazendo'", disse Mehlman.

A proposta de Kerry de "novas forças armadas para uma nova era" procurou atender tanto os militares quanto suas famílias. Em certa altura, ele observou que -em profundo contraste com seus dias de tenente da marinha no Vietnã- mais da metade dos soldados são casados. Enquanto muitos militares se dizem republicanos, de acordo com pesquisas e estudos acadêmicos, essas famílias são consideradas um bloco indefinido e Kerry vem usando suas credenciais de herói de guerra e suas amizades com veteranos para ganhar terreno, particularmente em Estados disputados, como o Missouri.

Descrevendo a "incrível pressão" que as famílias militares sofrem, Kerry observou que mais de 800 homens de Missouri agora terão que enfrentar tempos de serviço mais longos do que fora programado no Iraque. Cerca de 165.000 guardas e reservistas agora estão na ativa; 40% das forças americanas no Iraque são da reserva e da Guarda.

"Nossos soldados estão espalhados demais", disse Kerry. "A resposta do governo tem sido de colocar um Band-Aid no problema. Eles usaram uma política de manter o pessoal em serviço como um recrutamento pela porta dos fundos. Estenderam os turnos em serviço, adiaram aposentadorias, impediram pessoal alistado de deixar o serviço... quando se soma tudo, estamos correndo o perigo de criar outro exército vazio -uma preocupação grave que ouvi repetidamente nos últimos meses, não de políticos, mas de militares que estão servindo hoje."

Kerry também propôs dar à Guarda Nacional uma nova "missão básica", em operações de segurança interna. A Guarda seria chamada para ajudar na resposta de emergência a ataques terroristas, assim como às vezes é chamada após um desastre natural, como um terremoto ou tornado. Ele disse que ia criar uma "força tarefa conjunta", comandada por um general da Guarda, para trabalhar com os Estados e o governo federal em um plano de segurança nacional.

"Forte liderança exige mais do que a disposição de usar a força", disse Kerry. "Significa usar os instrumentos certos na hora certa com o propósito certo e a causa justa." Candidato democrata critica a extensão do prazo de serviço dos soldados americanos Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos