Pesquisadores se aprofundam nos mistérios da metástase

Raja Mishra

Atualmente, sabe-se muito sobre tumores cancerígenos, mas pouco sobre a ameaça que corre pelo corpo de Susan de Vries.

Os médicos trataram seu câncer de mama. Mas ela teve metástase para o resto do peito. A medicina moderna consegue lidar com a maior parte dos tumores isolados. Mas as metástases -até recentemente- eram quase impossíveis de tratar ou até de compreender.

Depois da metástase, o prognóstico de Susan, 39, passou de uma quase "cura" para sair para comprar uma câmera de vídeo e gravar conselhos para seus três filhos -os quais ela provavelmente não poderá dar ao vivo.

"Vou falar sobre menstruação, sobre sexo. Estou tentando estar presente, mesmo quando não estiver mais aqui", disse ela. "Quero que se lembrem de mim feliz e saudável e com cabelo -com um ar jovial."

Ela comprou a câmera. Mas, até agora, não conseguiu gravar nada.

A pesquisa em câncer está passando por uma fase otimista, com dezenas de novas drogas que permitem aos pacientes viverem mais do que nunca. Mas são as metástases, e não os tumores isolados, que matam 90% dos pacientes. Há muito que esse processo foge à compreensão dos cientistas e de seus tratamentos.

Agora, finalmente, a metástase está começando a ceder aos instrumentos de alta tecnologia e técnicas que estão impulsionando a pesquisa em tumores. Jovens cientistas estão sendo atraídos pelo campo promissor. Um modelo biológico do processo letal está surgindo, criando esperanças de que em breve haverá drogas disponíveis para serem testadas.

O caso em questão: um estudo publicado na semana passada salienta o progresso que está sendo feito, apesar de apresentar apenas um pequeno passo. Pesquisadores do Instituto Whitehead de Pesquisa Biomédica, afiliado ao MIT, descobriram que uma proteína dormente é ativada, de alguma forma, pelas células cancerosas. Ela permite que elas destaquem-se de seus tumores e viagem para novas regiões no corpo.

"Estamos em uma época de grande fermentação. Muitos dos conceitos só agora estão sendo explicados", disse o professor Robert A. Weinberg, influente pesquisador em câncer e principal autor do estudo da semana passada, que foi publicado na revista Cell.

Nos últimos anos, pesquisadores descobriram oito genes envolvidos em metástases, desenvolveram marcadores genéticos que podem prever as possibilidades de metástase e desenvolveram um modelo biológico para o desenvolvimento do processo complexo. O câncer de metástase mata por atingir múltiplos órgãos simultaneamente -como pulmão, fígado ou cérebro.

Recentes revelações sobre o genoma humano junto com instrumentos de pesquisa genética computadorizados levaram um novo quadro de cientistas -muitos deles em Boston- a estudar um problema que antes parecia intratável. Agora que formularam um modelo geral para o funcionamento da metástase, estão buscando formas de intervir.

"Na medida em que aprendermos mais sobre suas causas, acho que seremos capazes de desenvolver drogas para prevenção de metástase", disse Dr. J. Dirk Iglehart, professor de Câncer de Mulher na Escola de Medicina de Harvard.

Para Susan de Vries, que mora em Marblehead, o progresso poderá chegar tarde demais. Há três anos, seus dois seios foram cirurgicamente removidos, em uma medida agressiva preventiva contra um câncer pouco maligno, confinado a seus dutos de amamentação. Ela não queria assumir riscos com três filhos pequenos, Haley, hoje com 8 anos; Kendall, de 6; e Dylan, com 3.

"Seis meses depois, certa noite, perto das 22h, lembro-me bem, eu estava conversando com a minha irmã ao telefone", contou Susan, "e senti um caroço em uma das minhas cicatrizes. Eu sabia que era alguma coisa, eu sabia."

Em uma semana, seu câncer, que era considerado quase curado, foi rebaixado para estágio IV de câncer de mama. Sua expectativa de vida caiu de décadas para anos. "Agora está no osso esterno, em todo meu peito, nos gânglios linfáticos", disse ela. "Meu maior medo é que atinja um lugar mais distante. Se chegar ao fígado, rim ou cérebro, será realmente difícil de tratar."

Atualmente, os médicos têm poucas opções concretas para deter metástases. Susan de Vries tomou várias drogas e submeteu-se a quimioterapias para atacar câncer de mama e para combater tumores existentes, em vez de prevenir novos.

A metástase é a linha clara que demarca o fracasso e o sucesso no tratamento de câncer: quando o câncer começa a se espalhar, pacientes como Susan enfrentam um futuro negro, na medida em que seus novos tumores se tornam tão numerosos e agressivos que os tratamentos não conseguem acompanhar. Mesmo os pacientes cujos tumores desaparecem devem permanecer de guarda durante anos contra seu ressurgimento.

A metástase é um processo de cinco etapas, segundo as pesquisas: primeiro, as células de câncer viram tumores em tecido normal. Depois, algumas escapam para o sangue ou vasos linfáticos e viajam para pontos distantes no corpo. Assim, estabelecem-se em novos tecidos e órgãos. Finalmente, tornam-se novos tumores -um processo chamado de "colonização".

Essa última etapa é crucial. É relativamente fácil para as células migrarem de tumores locais para novos pontos. Mas apenas uma em um milhão consegue colonizar novos tecidos -ou seja, fazer brotar novos tumores. A maior parte das células cancerosas soltas na corrente sangüínea morre nos novos tecidos.

Artigos recentes mostraram que uma série extraordinária de gatilhos genéticos permite às células cancerosas se destacarem e encontrarem novos lares.

As células de câncer, desde o princípio, são erros genéticos: elas contêm mutações no DNA que as fazem proliferar loucamente e virarem tumores. Mas certas células nos limites dos tumores, em contato com tecido saudável, de alguma forma, desenvolvem mais mutações que as permitem migrar, e depois outras que as permitem colonizar.

Nos últimos anos, oito genes supressores de metástase foram descobertos -as células cancerosas que desligam esses genes ganham a habilidade de se disseminar. Patrícia Steeg, do Instituto Nacional do Câncer, descobriu o primeiro, chamado NM23, e espera ajudar a formular drogas para religar esses genes.

"Estão aí os alvos terapêuticos, acredito", disse ela.

O que move o salto na pesquisa em metástase é a tecnologia. Foram desenvolvidos métodos computadorizados para estudar centenas de genes simultaneamente. O processo pode apontar os poucos genes perigosos em meio a milhares de inofensivos. Os pesquisadores agora podem concentrar sua análise nesses genes, em vez de terem que especular como antes.

"Antigamente, tínhamos que, basicamente, adivinhar qual gene era importante na metástase e testá-lo", disse Iglehart. "Hoje, podemos pesquisar milhares de genes ao mesmo tempo e escolher os importantes."

A equipe de Whitehead por trás da publicação da semana passada tirou vantagem dessa nova tecnologia e chegou ao que pode se tornar um importante desdobramento na compreensão do processo de metástase. Examinando camundongos, os pesquisadores viram que células de câncer de mama reativaram -por meios ainda não compreendidos- uma proteína especial, apelidada de Twist. Esta proteína ajuda as células de embriões a se moverem de uma parte do embrião a outra, enquanto os tecidos do corpo estão se formando, no útero. Depois, ela adormece. De alguma forma, o câncer a reativa, usando-a para se espalhar para além da mama.

Apesar de significativa, a descoberta é apenas um aspecto de um processo assustadoramente complexo. Muitos pesquisadores mantêm um otimismo contido que seus segredos serão compreendidos em um futuro próximo.

Michael Rosenblatt, diretor da Escola de Medicina da Universidade Tufts e pesquisador de metástase, disse: "Acho que estamos obtendo novas descobertas com rapidez... eu diria que precisamos de cinco a 10 anos para termos drogas prontas para teste".

Susan espera que essas descobertas aconteçam cedo o suficiente para ajudá-la. "Obviamente, não serei curada se não descobrirem algo novo." Objetivo é elaborar estratégia para curar o câncer quando ele já se espalhou pelo corpo Deborah Weinberg

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