Kerry diz que vai dobrar número de espiões dos Estados Unidos

Patrick Healy e Bryan Bender
Em Washington

O candidato à Presidência dos EUA pelo Partido Democrata, John Forbes Kerry, propôs nesta sexta-feira (16/07) que se dobre o número de espiões como parte da reforma dos serviços de inteligência do país, poucos dias antes de uma comissão federal de investigação divulgar seu relatório final sobre os ataques terroristas de 11 de setembro e apresentar recomendações para melhoria da coleta de inteligência.

Com o relatório esperado para segunda-feira, Kerry também condenou o "clima" de trabalho imposto aos analistas de inteligência e outros funcionários pelo governo Bush, argumentando que eles precisavam ser protegidos da pressão de apresentar seus relatórios para fins políticos ou outros interesses.

Os democratas têm afirmado há meses, sem evidências concretas, que os alertas da CIA sobre a capacidade militar do Iraque foram falhos devido à pressão da Casa Branca de Bush, ansiosa em ir à guerra. Kerry sugeriu na sexta-feira que os republicanos usaram a inteligência de forma indevida, o que custou vidas de soldados americanos.

"Minha meta não é encontrar um meio de ir à guerra -minha meta é encontrar um meio de impedir que jovens tenham que morrer, pois fizemos o trabalho preventivo apropriado", disse Kerry em uma coletiva de imprensa em seu quartel-general de campanha. "Minha meta não será criar um clima de pressão onde as pessoas se sintam compelidas a seguir em uma certa direção -minha meta será encontrar a verdade."

"Nós aprendemos com esta experiência que qualquer coisa que não seja uma inteligência que compartilhe a verdade com o mundo é inadequada para a tarefa", ele acrescentou.

Os comentários de Kerry visam explorar vários desdobramentos separados, disseram conselheiros. O futuro relatório sobre 11 de setembro; o recente relatório do Comitê de Inteligência do Senado sobre o armamento e as forças armadas pré-guerra do Iraque; as discussões da Casa Branca sobre a nomeação de um diretor permanente da CIA para substituir George Tenet, que renunciou neste mês; a confissão de responsabilidade nesta semana do primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, pelos erros nos relatórios de inteligência que argumentavam que o Iraque estava desenvolvendo armas de destruição em massa.

"O mais importante é que Kerry deseja fazer algo a respeito do problema (da inteligência)", disse o general de exército aposentado William Odom, ex-chefe da super-secreta Agência de Segurança Nacional e autor do recentemente publicado "Fixing Intelligence" (Consertando a Inteligência). "Ele quer fazer algumas mudanças. Ninguém de tal nível disse isso antes."

Kerry, argumentando que Bush "perdeu tempo, trapaceou e fez corpo mole" em sua abordagem de melhoria da segurança interna, disse que o presidente devia ter feito o mesmo que Blair e adotado o que Kerry invocou como o padrão do presidente democrata Harry Truman (1945-1952): "A responsabilidade final está aqui".

"Esta é a minha crença sobre a presidência, evidentemente é a crença de Tony Blair sobre o cargo de primeiro-ministro da Grã-Bretanha", disse Kerry.

Steve Schmidt, um porta-voz da campanha de Bush, acusou Kerry de carecer de credibilidade sobre reforma da inteligência porque, uma década atrás, ele propôs cortes profundos nos orçamentos da inteligência americana.

"O presidente Bush e o primeiro-ministro Blair tinham ambos muito claros que, mesmo sabendo o que sabem agora, a remoção de Saddam Hussein do poder foi a coisa certa a ser feita, e o presidente defende sua política", disse Schmidt.

Kerry também pediu novos links eletrônicos e de comunicações entre os analistas da CIA, FBI, Pentágono e outras agências de coleta de inteligência para permitir que colaborem melhor, e pressionou novamente por um diretor nacional de inteligência de nível de Gabinete (o equivalente americano a Ministério no Brasil). O órgão supervisionaria os orçamentos e agendas da CIA, da divisão de inteligência do FBI e outras agências.

Kerry disse pela primeira vez que permitiria que as operações de inteligência domésticas continuassem aos cuidados do FBI, que tem sido criticado por ter fracassado em identificar alguns dos seqüestradores de 11 de setembro, que estavam freqüentando escolas de pilotagem e tramando os ataques com meses de antecedência.

Conselheiros de campanha disseram que as reformas não envolveriam a criação de um sistema de inteligência sob os cuidados do diretor de inteligência do Gabinete, semelhante ao MI-5 da Grã-Bretanha, como já sugeriu John Edwards, o companheiro de chapa de Kerry. Um conselheiro de política externa de Kerry disse que Edwards esteve envolvido na elaboração dos novos planos.

O senador de Massachusetts disse que agirá agressivamente para capturar terroristas nos Estados Unidos e no exterior, mas alegou que Bush alienou tanto as capitais estrangeiras com seu estilo de liderança que não poderá contar com o apoio automático delas aos Estados Unidos.

A proposta de Kerry de criar uma autoridade de nível de Gabinete para administrar todas as 15 agências americanas de inteligência, assim como seu orçamento anual coletivo de US$ 40 bilhões, tem sido recomendada há anos, mas nunca foi implementada.

Isto foi sugerido mais recentemente por Brent Scowcroft, conselheiro de segurança nacional do primeiro presidente Bush, em um estudo de 2001 realizado para o atual governo Bush. A comissão de 11 de setembro também deverá fazer recomendações semelhantes quando divulgar seu relatório final na próxima semana.

Segundo a lei federal, o diretor da CIA também incorpora o papel adicional de diretor central de inteligência -o chefe de todas as agências. Mas esta autoridade tem pouco poder prático sobre o que muitas delas fazem. O Departamento de Defesa controla cerca de 85% do orçamento da inteligência.

O resultado tem sido um foco exagerado em atender às prioridades de inteligência das forças armadas, e não nas ameaças atuais não ligadas a Estados como a rede terrorista Al Qaeda.

"Alguém tem que administrar esta operação de US$ 40 bilhões por ano com 15 agências", disse Stansfield Turner, o chefe da CIA durante o governo Carter. "Alguém tem que exigir que compartilhem informação e diga 'é nisto que vamos nos concentrar'. Na Guerra Fria estava correto as forças armadas controlarem grande parte da inteligência. Hoje, se o terrorismo é realmente o principal problema, então tem ser a prioridade na agenda da inteligência, e nunca será assim se o Departamento de Defesa tiver tanto controle quanto tem hoje."

Turner, que ocupou o posto de diretor da CIA e de diretor central de inteligência e tem apoiado a candidatura de Kerry, disse que a soma de ambos os cargos é demais para uma só pessoa. "Você precisa ter objetividade e não uma inclinação favorável à CIA", disse ele. Democrata defende que inteligência se concentre em grupos terroristas; não em países George El Khouri Andolfato

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