Simpatizantes de Bush vaiam Kerry em comício

Patrick Healy
Em Sedalia, Missouri

Harry Truman os repreendeu quando fez sua parada de campanha em Sedalia, em 1948, mas foi o povo desta cidade pró-Bush que tornou difícil a vida de John F. Kerry, John Edwards e suas esposas pouco antes da meia-noite de quinta-feira (5/8).

Em uma demonstração explícita dos riscos políticos da viagem de Kerry pelo interior, os candidatos democratas foram implacavelmente importunados em Sedalia enquanto defendiam planos de saúde mais baratos e empregos mais bem remunerados da plataforma traseira de seu trem de 15 vagões.

Apesar de manifestantes anti-Kerry não serem incomuns em seus comícios, a visita a Sedalia expôs a determinação de Kerry de levar sua mensagem ao coração do território de Bush e forçou os democratas a às vezes enfrentarem adversários hostis.

Assessores de campanha disseram que assumiram um risco calculado, esperando difundir a mensagem de Kerry no território de Bush, mas argumentando que esta é uma apresentação mais ousada do que os eventos apenas para convidados aos quais o presidente comparece. Mas também incluiu alguns dos momentos mais reveladores até o momento de como a chapa democrata reage quando pega de guarda baixa e sob fogo.

O sorriso característico de Edwards às vezes se transformava nos holofotes em um olhar inexpressivo, enquanto simpatizantes de Bush acenavam cartazes com mensagens como "Dê a descarga nos Johns", e ele tentava repreendê-los dizendo que seus filhos estavam no trem.

Enquanto isso, Teresa Heinz Kerry iniciou seus comentários argumentando que os democratas do Missouri tratariam Laura Bush melhor do que republicanos locais a estavam tratando. Teresa, que se orgulha de "dizer o que pensa", falou de forma hesitante em meio aos gritos de "Vá para casa".

O quarteto se esforçou ao longo da parada de 20 minutos em Sedalia em relativo bom humor, a segunda parada da viagem -sem contar as breves reduções de velocidade do trem, quando os dois casais, acompanhados por vários de seus filhos, acenavam e saudavam pequenos grupos de simpatizantes, alguns dos quais saindo correndo atrás do trem.

A viagem de cinco dias reflete a tentativa de Kerry de abraçar "os principais valores interioranos". No Missouri -um Estado indefinido em 2004 que possui 11 votos eleitorais, assim como um indicador de vitórias presidenciais onde Bush venceu por margem estreita em 2000, quando a maioria das cidades pequenas votou a favor do republicano- a presença de Kerry irritou alguns eleitores, que foram encorajados pelos líderes republicanos locais a manifestarem seu apoio a Bush durante a passagem do oponente.

Os simpatizantes de Kerry eram superiores em número, mas as poucas dezenas de opositores defenderem sua posição com maior empenho, em alguns casos de forma chocante.

Enquanto o democrata acenava para cerca de 500 simpatizantes em Warrensburg, na noite de quinta-feira, uma mulher o xingou e então acrescentou: "Eu odeio você!" Kerry deu de ombros, comentando internamente: "Ela estava tão bêbada. Vocês viram o quanto ela estava bêbada?"

A sexta-feira marcou o segundo dia da viagem de Saint Louis até o Arizona a bordo do trem, que inclui vagões reservados para o Serviço Secreto, deques de observação cobertos, carros-restaurante formais, e o vagão Pullman Nº 403, construído em 1913 e utilizado pelos presidentes democratas Harry Truman, Jimmy Carter e Bill Clinton.

Kerry dormiu na sexta-feira no vagão "Georgia 300" -que conduziu Franklin D. Roosevelt para seu retiro em Warm Springs, Geórgia- enquanto Edwards ficou no 403 revestido de madeira escura.

O trem dos democratas tem um apito na traseira, que o filho de 4 anos de Edwards, Jack, gostou de acionar enquanto Kerry o segurava. E em uma concessão às campanhas modernas, há um poderoso sistema de som que tocou o recente sucesso de Bruce Springsteen, "The Rising", na maioria das paradas.

Foi a parada das 22h30 em Sedalia que atraiu o maior público, mais de 1.000 simpatizantes entusiasmados de Kerry e cerca de 100 simpatizantes de Bush, criando um legítimo teatro político.

A princípio Edwards brincou com os opositores por vaiarem o plano democrata de criação de empregos -"Vocês estão realmente vaiando? (...) Isto é surpreendente"- e então tentou repreendê-los a se comportarem melhor.

"Eu gostaria de dizer para aqueles que não querem nos ouvir que meus filhos estão neste trem", disse o senador da Carolina do Norte. "Mostrem a eles um pouco dos bons modos do Missouri, se não se importam."

Teresa Kerry, que pareceu um pouco chocada com a recepção, ofereceu um alô ao Missouri e então disse: "Se Laura Bush estivesse aqui, eu diria alô educadamente para ela, e acho que todos os democratas fariam o mesmo (...) Em um país livre e democrático, nós temos nossas opiniões, mas respeitamos a posição dos outros. Assim, desfrutem de sua democracia".

Ela fez algumas pausas durante os gritos de "mais quatro anos" e "Bush, Bush, Bush" -que algumas vezes foram abafados pela base maior de Kerry, mas em outras não- e pediu para que as pessoas se concentrassem nas idéias na disputa de 2004. Enquanto os cantos de Bush continuavam, Teresa disse: "Com licença... vamos aproveitar o momento e dar às boas-vindas a John, meu marido".

Kerry então anunciou que a (empresa ferroviária) Amtrak tinha acabado de informar que a parada democrata estava atrasando outro trem. Ainda assim, ele fez um discurso abreviado em meio às vaias.

"Quando escuto algumas pessoas dizendo mais quatro anos, eu digo a mim mesmo, mais quatro anos de aumento de déficit e dívidas para as crianças de nosso país?" Kerry disse sob aplausos de seus simpatizantes.

"Harry Truman passou por aqui, em 1948. E enquanto Harry falava, as pessoas costumavam dizer: 'Manda bronca, Harry'. E Harry dizia: 'Eu apenas digo a verdade, e eles acham que é bronca'."

Enquanto o candidato fazia menção a todas as crianças pequenas que ficaram acordadas até tarde para recebê-lo, a multidão se dividiu em coros de "Queremos Bush" e "Kerry!"

Kerry então disse: "Tudo bem. Podem deixá-los cantar, senhoras e senhores, porque eles só têm mais três meses para cantar. Eles não querem ouvir a verdade! (...) Mas John Edwards e eu vamos dizer a verdade para a América".

Mas mesmo o senador de Massachusetts por quatro mandatos pareceu um pouco desnorteado, fazendo uma promessa estranha de que "uma escola de doutorado" estaria lá algum dia para as crianças que ficaram acordadas naquela noite para ver o homem que seria eleito presidente. Democrata faz campanha no interior dos EUA, reduto do presidente George El Khouri Andolfato

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