Kerry não esclarece sua posição sobre a guerra

Patrick Healy
Grand Canyon, Arizona

John F. Kerry disse pela primeira vez, nesta segunda-feira (9/8), que teria aprovado a autorização ao presidente Bush para entrar em Guerra contra o Iraque, mesmo que soubesse, em outubro de 2002, que os dados de inteligência eram fracos, que o Iraque não tinha armas de destruição em massa e que não havia conexão entre Saddam Hussein e os ataques terroristas de 11 de setembro.

Bush, cujo governo citou as armas e ligações com os terroristas para justificar a guerra, desafiou o candidato Democrata, em um comício na última sexta-feira (6) em Stratham, no Estado de New Hampshire, a dizer aos eleitores se as revelações de inteligência desde a invasão do Iraque em março de 2003 teriam alterado sua posição sobre a guerra.

"Meu oponente não respondeu a pergunta se, sabendo o que sabemos hoje, teria apoiado a guerra no Iraque", disse Bush. "O povo americano merece uma resposta clara, sim ou não."

Como resposta, Kerry, fez uma distinção entre invadir o Iraque e autorizar a ação. Ele disse: "Sim, eu teria votado a favor de dar a autoridade. Acredito que era correto o presidente ter a autoridade." Kerry sempre disse que a decisão de invadir era do presidente.

Então, em seu desafio mais direto ao presidente Bush sobre a guerra, Kerry formulou quatro questões ao presidente. Ele perguntou sobre os dados de inteligência anteriores à guerra, o planejamento do pós-guerra, a falta de esforços para a participação de outras nações na guerra como aliadas e por que se falou aos americanos sobre armas de destruição em massa quando não havia nenhuma.

Diferentemente de Bush, que não mencionou Kerry pelo nome durante sua parada em New Hampshire, o senador de Massachusetts disse:

"Minha pergunta ao presidente Bush é: Por que correr tanto para entrar em guerra, sem um plano para conquistar a paz? Por que a pressa, por que usar dados falhos de inteligência e não fazer o trabalho duro necessário para dar aos EUA a verdade? Por que ele enganou os EUA sobre como ia entrar em guerra? Por que ele não trouxe outros países para a mesa, para apoiar as tropas americanas na forma que merecemos e aliviar a pressão sobre o povo americano?"

"Essas são quatro perguntas não hipotéticas -como a do presidente. São perguntas reais, que importam aos americanos, e espero que tenham as respostas a essas questões, porque o povo americano merece", disse Kerry.

O porta-voz da campanha de Bush, Steve Schmidt, disse nesta segunda-feira que a reafirmação de Kerry de seu voto de 2002 não esclarecia se o senador teria entrado em guerra.

"John Kerry ainda não respondeu a pergunta central do presidente se, como comandante das forças armadas, ele teria removido Saddam do poder", disse Schmidt. "Ele se recusa a dar uma resposta direta em questões centrais relacionadas à guerra ao terror e no Iraque. Ele disse que ia trazer os soldados de volta em seis meses, mas dias atrás ele disse que o número das tropas deve ser decidido pelos comandantes militares. John Kerry está fazendo jogo político sobre segurança nacional maior do que qualquer candidato à presidência já fez."

As observações de Kerry nesta segunda-feira vieram depois de uma série de declarações sobre o Iraque. Kerry dissera anteriormente que os presidentes americanos mereciam ter o poder militar contra o inimigo, mas que Bush usou mal a autoridade dada a ele pelo Senado em 2002.

Ele acusou Bush de enganar o Congresso sobre armas de destruição em massa para vencer a votação. Quando pressionado por repórteres, Kerry recusou-se a chamar de erro seu voto em 2002 ou o conflito subseqüente, e disse que teria feito a guerra de forma diferente.

Ele também disse que tinha votado corretamente, dadas as informações disponíveis aos membros do Congresso na época. E, na semana passada, Kerry disse que, se fosse o presidente no ano passado, talvez também tivesse entrado em guerra contra o Iraque.

O senador de Massachusetts também procurou esclarecer um conflito na retórica da sua campanha sobre a retirada parcial das tropas americanas do Iraque. Kerry disse durante o ano que, ao final de seu primeiro mandato, em 2008, esperava substituir alguns soldados americanos com novos complementos militares de nações européias e muçulmanas.

Em entrevista na Rádio Pública Nacional, na última sexta-feira, entretanto, ele disse que ia tentar alcançar esse objetivo já no próximo verão. O tempo todo, porém, Kerry disse que ia atender as recomendações dos comandantes americanos sobre o número de soldados no exterior.

Novamente, na segunda-feira, ele disse que esperava que as tropas estivessem em casa dentro de um ano.

"Temos que responder ao que pedem os comandantes", disse Kerry. "Meu objetivo, entretanto, minha diplomacia é reduzir nossas tropas... em determinado prazo. Obviamente, temos que acompanhar os desdobramentos."

Ele disse que suas condições para reduzir as tropas no Iraque seriam a estabilidade do país, o "treinamento e transformação" da força de segurança nacional do Iraque e a habilidade de Bagdá de convocar eleições.

Os repórteres perguntaram a Kerry se tinha recebido garantias verbais ou escritas de líderes estrangeiros sobre o envio de tropas ao Iraque. Ele respondeu que perguntassem aos colegas no Senado, como Joe Biden de Delaware e Carl Levin, de Michigan, que se reuniram com autoridades estrangeiras.

Ele reiterou sua opinião de que países árabes talvez mudassem de idéia diante do argumento que um Iraque instável não seria de seu interesse.

"Os presidentes americanos não deviam enviar forças americanas para a guerra sem um plano de paz. Esse presidente não tinha um plano para conquistar a paz, e as evidências ainda são de que estão tendo dificuldades para encontrar uma forma de fazê-lo", disse Kerry.

Nenhum líder estrangeiro ou altos diplomatas ofereceram abertamente ajudar Kerry a fazer a retirada parcial. O "Los Angeles Times", em uma pesquisa com autoridades de vários países aliados, divulgou na segunda-feira que o plano de Kerry era tido como irrealista e que o baixo apoio público em seus países pela guerra no Iraque tornava improvável que mudassem de curso caso Kerry fosse eleito.

No último outono, Kerry votou contra a liberação de US$ 87 bilhões (em torno de R$ 261 bilhões) para fundos de emergência para tropas americanas no Iraque e Afeganistão. Esse voto e o que deu a autoridade a Bush têm sido pontos de desconforto na campanha. A crítica diária de Republicanos levou o senador John McCain e o general Tommy Franks, comandante americano aposentado da guerra no Iraque, a endossarem voluntariamente sua capacidade como comandante.

Kerry passou a manhã de segunda-feira com sua mulher, Teresa, e filha, Vanessa, em um helicóptero Augusta 109, de dois motores, sobre o noroeste do Arizona a caminho do Grande Canyon. Em certa altura, o helicóptero fez um desvio para ver um pequeno fogo na floresta.

Pousando na margem sul do Grand Canyon, Kerry fez uma caminhada de 30 minutos com as duas mulheres e seu enteado André. Ele deixou a trilha em Powell's Point, onde um monumento marca uma expedição de 1869. O candidato saudou os visitantes e conversou com os repórteres.

Ele prometeu aumentar os gastos em parques nacionais em US$ 600 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão) em cinco anos, criticando o governo Bush por cortar os serviços e não fazer o suficiente pela segurança nesses pontos turísticos. Democrata dá declarações desencontradas acerca do Iraque Deborah Weinberg

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