Série "The Office" ri do cotidiano com crueldade

Matthew Gilbert
Em Boston

Assistindo a "The Office", a pessoa sente o poder da comédia do tipo metralhadora de piadas. Ela compreende como há um excesso de atividade e tiradas engraçadinhas. E finalmente entende a verdadeira razão para os cenários de desenho animado, com portas que se abrem tão facilmente que os vizinhos malucos podem fazer entradas fabulosas. No Brasil, a primeira temporada da série está sendo exibida às segundas-feiras (com reprise aos sábados), às 22h30, no canal pago People & Arts.

E é por isso, é claro, que "The Office" não contém nenhuma dessas artimanhas das séries cômicas populares. O pseudo-documentário britânico, que terminará com o especial da noite desta quinta-feira (21/10) nos EUA, é uma rejeição de tudo aquilo que o público de televisão americano supostamente acha engraçado.

Em vez de empregar piadas escapistas otimistas, vê humor na banalidade fria do escritório e seus funcionários. Não tem gargalhadas enlatadas ou cenários do Pottery Barn, mas somente o bege e cinza do escritório Wernham Hogg, perto de Londres, onde os funcionários anestesiados ouvem seu chefe falastrão, David Brent, representado pelo inesquecível Ricky Gervais. É sobre como a monotonia é engraçada --mas não é um engraçado tipo gargalhada.

"The Office" é uma grande série cômica de televisão, assim como "The Blair Witch Project" é um grande programa de horror. Documentários falsos com um jeito de cinema, são antíteses do que aprendemos a esperar do gênero. Em vez de se aprofundarem em elencos petrificados e reduzidos, eles usam um realismo nu, de vídeo.

No episódio de duas horas da noite de quinta-feira, "The Office Special", a série continua altamente diferente das comédias de televisão, simplesmente por ser excelente. É difícil imaginar outra série cômica com um final tão adequado.

Normalmente, quando os elencos se reúnem uma última vez para fazer o epílogo de alguma série --como no recente "Dick Van Dyke Show Revisited"-- o resultado é uma pá de cal em boas lembranças. Mas o "Office Special", que foi ao ar em duas partes no Reino Unido no ano passado, é tão afiado quanto os primeiros 12 episódios.

É tensamente engraçado, inteligente e inesperadamente comovente, provando que merecia os dois Golden Globes que conquistou neste ano, de melhor comédia e melhor ator cômico (Gervais).

"The Office Special" faz de conta que se passaram três anos desde a segunda e última temporada. Brent foi demitido; "The Office" já foi ao ar na televisão britânica e Brent agora está ganhando a vida vendendo produtos de limpeza de porta em porta e fazendo aparições em boates como 'o chefe' no programa 'The Office'.

Em uma seqüência terrivelmente cômica, ele vai a um programa de namoro como "O Chefe do Inferno", vestindo uma roupa de Austin Powers, e acaba em uma briga de mulher com a solteira. O 16º minuto de fama de qualquer ex-participante de programa de realidade nunca é muito bonito; para Brent, é grotesco.

Parece impossível, mas "The Office Special" explora ainda mais a vida de David Brent do que a série. Descobrimos que, depois que foi demitido, ele processou a Wernham Hogg por sua "redundância" e ganhou uma bolada.

Entretanto, ele investiu todo o dinheiro na produção de um CD dele mesmo cantando "If You Don't Know Me by Now", que vendeu apenas 150 cópias.

Vemos uma porção do vídeo, que é um espetáculo dolorosamente vaidoso de Brent fazendo o papel de um amante atormentado. A vida de Brent não chegou a lugar algum, apesar de ele tentar convencer a todos que tudo está saindo de acordo com o planejado.

Vemo-no dirigindo sozinho, de visita a visita, vendendo seus produtos e saindo em encontros às escuras com mulheres indicadas por um serviço de namoro. Sua risada é ligeiramente mais aguda que antes, enquanto tenta cada vez mais colocar uma cara de alegre em seus fracassos.

Em sua solidão, ele faz visitas regulares à Wernham Hogg, apesar da indiferença de seus ex-empregados. O fuinha Gareth (Mackenzie Crook) virou chefe, e o irônico Tim (Martin Freeman) ainda está revirando os olhos para sua colega de sala, desta vez uma mulher grávida que o enche de detalhes sobre suas posições sexuais favoritas.

Leal ao tom da série, quase nada mudou em três anos. Talvez algo mudará, agora que a ex-recepcionista Dawn (Lucy Davis) está em visita da Flórida, onde mora com seu noivo, Lee (Joel Beckett). Qual será a reação de Tim, que foi tão apaixonado por ela, ao vê-la?

As atuações continuam impecáveis. Brent é um grande vazio, tropeçando em si mesmo com mentiras e insultando todas as pessoas com quem entra em contato. Ele é irritante e ridículo. Mesmo assim, Gervais o torna fascinante de assistir, em suas violentas auto-contradições.

No último episódio, David tem a oportunidade de mostrar mais amplitude; Dawn avalia honestamente sua vida nos EUA e Crook é sempre engraçado, como o homem-menino que não sabe nada de nada e encara seu trabalho como um jogo de soldadinhos.

Todos os atores fazem um trabalho notável, tornando seus personagens transparentes, de forma que você vê o que estão realmente sentindo, mesmo quando dizem o oposto.

Como acontece com as crianças, a crueza de suas ilusões pode ser encantadora. "The Office" e "The Office Special" certamente às vezes são cruéis, mas sempre há um pouco de coração esperando para romper sua superfície fria. Humor vem de situações rídiculas com que o público se identifica Deborah Weinberg

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