Bush e Kerry fazem trégua e repudiam Bin Laden

Anne E. Kornblut e Patrick Healy*
De Washington

A última mensagem gravada em vídeo de Osama Bin Laden motivou rápidas manifestações de repúdio dos dois principais candidatos à presidência na última sexta-feira - e fez com que os assessores das campanhas buscassem freneticamente a melhor maneira de falar sobre a ressurgência do líder terrorista ao final da disputa eleitoral.

O presidente Bush denunciou Bin Laden como "um inimigo do nosso país", prometendo que nenhum norte-americano seria influenciado pelas novas ameaças. O senador John F. Kerry garantiu que o país está "unido" contra o terrorismo. Tanto Bush quanto Kerry tomaram cuidado em evitar que parecessem estar explorando a fita para obter ganhos políticos.

Mas enquanto os candidatos faziam uma pausa em suas campanhas para responder à mensagem do líder da Al Qaeda, por trás dos bastidores os seus assessores avaliaram rapidamente o impacto da fita de Bin Laden. Os republicanos especularam que ela faria com que os eleitores se lembrassem dos perigos do terrorismo, um ponto forte para Bush, enquanto os democratas afirmaram que a gravação ajudaria Kerry, ao lembrar ao povo que Bush fracassou na missão de capturar o mentor dos ataques de 11 de setembro de 2001.

"Infelizmente, o mais importante é que Osama Bin Laden continua vivo e parece estar muito bem", disse o ex-embaixador na ONU e assessor de política externa de Kerry, Richard Holbrooke, em uma entrevista à rede de televisão CNN. Ele disse que a fita trouxe à tona uma questão importante: "Como é que esse grotesco assassino de massas continua aparecendo nas redes internacionais de televisão mais de três anos após o 11 de setembro?".

Esse, basicamente, tem sido o argumento usado há meses por Kerry, quando o candidato ataca a guerra no Iraque, afirmando que esta distrai a atenção que deveria estar voltada para a luta contra a Al Qaeda.

Os assessores de Bush afirmaram que qualquer debate sobre o terrorismo consiste em um trunfo automático para o presidente, cujo momento de maior popularidade ocorreu imediatamente após o 11 de setembro. E Bush usou a divulgação da nova fita como oportunidade para assumir a sua postura caracteristicamente enérgica contra o terrorismo - embora tenha optado por não mencionar Bin Laden, indivíduo que ele prometeu, no passado, citando-o pelo nome, capturar "vivo ou morto".

"Quero deixar isso bem claro: os norte-americanos não serão intimidados ou influenciados por um inimigo do nosso país", disse Bush, falando durante uma escala na campanha aos jornalistas reunidos nas proximidades do avião presidencial Air Force One, estacionado na pista do Aeroporto Toledo Express, em Toledo, Ohio. "Estou certo de que o senador Kerry concorda com isso. Quero dizer também ao povo norte-americano que estamos em guerra com esses terroristas, e estou certo de que triunfaremos".

Quase que simultaneamente, Kerry interrompeu a sua agenda de campanha para dar uma declaração. "Quero que isso fique totalmente claro: como norte-americanos, estamos completamente unidos na nossa determinação de caçar e destruir Osama Bin Laden e os terroristas", disse Kerry. "Eles são bárbaros, e nada vai me impedir de caçar, capturar ou matar os terroristas onde quer que estejam, custe o que custar, ponto".

Em uma outra aparição pública, em uma entrevista à estação de televisão WISNB-TV, em Milwaukee, Kerry voltou a falar sobre o assunto. "Acredito ser mais capaz do que George Bush de realizar uma guerra efetiva contra o terrorismo". Kerry prosseguiu, repetindo que "lamenta" que Bush não capturou ou matou Bin Laden quando acreditava que este estaria encurralado nas montanhas afegãs ao final de 2001. "Ele terceirizou o trabalho", criticou Kerry na sexta-feira, repetindo a acusação de que Bush confiou em tropas afegãs despreparadas para perseguir Bin Laden, ao invés de enviar um número suficiente de soldados dos Estados Unidos.

Bush disse que é "especialmente vergonhoso" que Kerry continuasse a fazer tal acusação no dia em que a fita surgiu. "Esse é o pior tipo de conversa fiada", disse bush em Columbus, Ohio, em um comício ao qual compareceram 20 mil partidários. "E isso é especialmente vergonhoso quando surge a nova fita de um inimigo dos Estados Unidos".

Bush foi informado sobre o conteúdo da fita na manhã de sexta-feira pela sua assessora de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, que viajou com o presidente no Air Force One para participar de vários comícios. O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, confirmou que os serviços de inteligência acreditam que a fita seja autêntica, mas evitou questionar se Bin Laden está procurando influenciar o resultado da campanha. Por hora o nível de alerta de terrorismo continua "amarelo", ou elevado, em todo o país.

Kerry ficou sabendo da existência da fita por Rand Beers, um dos seus assessores políticos, que foi avisado sobre o fato por membros do governo Bush na sexta-feira. A seguir, Kerry se reuniu com os seus principais assessores no aeroporto de West Palm Beach, Flórida, saindo da reunião para dar uma breve declaração aos jornalistas.

Bin Laden, um cuidadoso estudante da cultura norte-americana, pareceu estar bem consciente dos detalhes da campanha presidencial, tendo se referido a "Kerry ou Bush" e chegando até a refutar o argumento freqüente de Bush, segundo a qual os terroristas atacaram em 11 de setembro porque se opõem à liberdade. "Se Bush diz que nós odiamos a liberdade, deixem que ele nos diga por que não atacamos a Suécia, por exemplo", disse Bin Laden. "Nós lutamos contra vocês porque somos livres...e queremos reconquistar a liberdade para nossas nações. Assim como vocês minam a nossa segurança, nós minamos a de vocês".

Um assessor graduado de Kerry, que viaja com o candidato, disse que a fita não vai mudar nenhum aspecto da estratégia democrata, discursos ou planos de campanha nos próximos quatro dias.

"Quem sabe como isso afetará a disputa? Quem sabe?", disse o assessor. "O que eu sei é que o fato não modificará nada que seja dito ou feito por John Kerry até o fechamento das urnas no dia das eleições".

Modificando os seus planos, Bush escolheu a sexta-feira passada para romper momentaneamente com o seu roteiro de comícios e aparecer ao lado de vítimas do 11 de setembro em New Hampshire. Em um evento da campanha em Manchester, Bush revelou um discurso revisado de campanha que foi o primeiro em meses a não fazer referências a Kerry, nem direta nem indiretamente. Em vez disso, Bush falou sobre a sua visão de liberdade e democracia ampla, e apresentou parentes daqueles que morreram nos ataques terroristas do 11 de setembro.

"Durante o meu período como presidente, conheci homens e mulheres excepcionais", disse Bush. "Pude presenciar sua força e seu sacrifício, e os seus exemplos confirmaram que não há limites à grandeza dos Estados Unidos".

"Existe esperança para além das cinzas do 11 de setembro, e ninguém pode tirar isso de nós", disse Bush. "Enquanto eu for o seu presidente, serei determinado e decidido, e manteremos os terroristas em fuga".

Karen Hughes, uma alta assessora de Bush, disse que a fala do presidente foi "um tipo de discurso diferente", que tinha como objetivo ressaltar as histórias pessoais que refletem a visão de Bush.

"Esse discurso reconhece que a história de um presidente é a história de pessoas, e ele quis falar sobre pessoas que conheceu ao longo do percurso", disse Hughes.

Bush citou vários familiares de vítimas do 11 de setembro durante o seu discurso, e muitos deles estavam atrás do presidente, em Manchester, enquanto ele falava. Correspondências de campanha enviadas pelo Comitê Nacional Republicano aos eleitores da Pensilvânia incluíam imagens das torres gêmeas em chamas e descreviam Kerry como frágil no que se refere à questão da defesa nacional.

Kerry, que fez campanha na última sexta-feira (29) em três cidades da Flórida, não se referiu diretamente ao videoteipe da Al Qaeda no palanque. Mas, antes da fita ser divulgada ao público, eles se referiu a Bin Laden enquanto apresentava o seu argumento final para que o eleitor o escolha no dia da eleição.

"Os erros e avaliações equivocadas de Bush prejudicaram as nossas tropas, colocaram os nossos soldados em grande risco, ampliaram demasiadamente as frentes de combate das forças armadas dos Estados Unidos, afastaram os nossos aliados, desviaram a nossa atenção que estava focada sobre Osama Bin Laden e sobre a guerra real contra o terrorismo", disse Kerry em um discurso em Orlando, na manhã de sexta-feira, várias horas antes do vídeo da Al Qaeda ir ao ar.

*Kornblut escreveu de Washington, D.C. Healy da rota de campanha de Bush. Rick Klein, viajando com Bush, também contribuiu. Candidatos suspendem ataques para protesto conjunto do terrorista Danilo Fonseca

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