Pesquisas não cumpriram sua função em 2004

Raja Mishra
Em Boston

Ao final da eleição presidencial mais saturada de pesquisas na história americana, os resultados das principais pesquisas de opinião convergiram para um retrato de uma disputa cabeça a cabeça após semanas de resultados freqüentemente contraditórios, que levaram a um escrutínio sem precedente dos métodos de pesquisa modernos --e dos próprios pesquisadores.

Dez pesquisas diferentes de prováveis eleitores foram divulgadas no fim de semana: o presidente Bush liderava em cinco, o senador John Kerry liderava em três e os candidatos estavam empatados em duas. Mas as vantagens não eram reais: estatisticamente, todas as 10 pesquisas estavam empatadas.

Nas últimas horas antes da eleição, as pesquisas nacionais sugerem um quadro ainda mais confuso, com pesquisas realizadas nos mesmos dias freqüentemente apontando resultados muito diferentes --apesar de novamente quase todas estarem dentro da margem de erro.

Mas as pesquisas de causar perplexidade foram mais comuns nos Estados indefinidos, onde amostragens menores e orçamentos limitados levaram a um trabalho de baixa qualidade e não confiável, disseram especialistas em pesquisa.

Os candidatos há muito estão cientes do efeito das pesquisas sobre eleitores potenciais: uma grande vantagem do rival, por exemplo, pode desencorajar os eleitores de se darem ao trabalho de votar.

Como resultado, os pesquisadores, antes considerados interpretadores de números imparciais, passaram a ser atacados por membros de ambos os partidos, seus motivos passaram a ser questionados, sua competência contestada.

Por exemplo, na semana passada o grupo liberal MoveOn.org publicou um anúncio de página inteira no "New York Times" para acusar a venerável Pesquisa Gallup de ser manipulada por um membro cristão conservador da família Gallup, apesar de o membro da família não ter nenhum papel na operação de pesquisa eleitoral do Gallup.

Os pesquisadores também se viram envolvidos em um debate acalorado sobre os métodos de pesquisa, com cada lado buscando confirmação nos resultados eleitorais desta terça-feira (02/11).

Mas os especialistas em pesquisa disseram que o debate --sobre como medir quem de fato comparecerá para votar na eleição e como pesar a afiliação partidária-- continuará depois da noite de terça-feira em uma série de encontros acadêmicos e profissionais.

"Nós temos visto a politização de tudo. Astros do rock, do cinema, atletas, o pastor da sua igreja. Logo, é claro que você também pode politizar os pesquisadores", disse Tobe Berkovitz, reitor associado da faculdade de comunicação da Universidade de Boston e consultor político veterano.

O debate da comunidade de pesquisa se concentra em adivinhar quem votará. Os pesquisadores rotulam as pessoas como "eleitores prováveis" e "eleitores registrados". O último é mais fácil de medir, mas não há garantia de que alguém de fato votará.

Assim, os pesquisadores fazem mais perguntas --você sabe onde votar? você votou da última vez?-- para tentar identificar aqueles que provavelmente votarão.

Mas a técnica varia. Algumas organizações de pesquisa fazem apenas uma ou duas destas perguntas, enquanto outras fazem mais. Alguns pesquisadores descartam eleitores registrados com menos de 30 anos, seguindo a teoria de que eles não são confiáveis. Outros argumentam que isto não dá o devido peso ao voto jovem.

O professor de governo de Harvard, Roger Porter, que não é afiliado a nenhuma empresa de pesquisa, disse que não há muita margem para melhoria na determinação dos eleitores prováveis.

"Eu acho que os métodos são os mais confiáveis possíveis. Eu de fato estou bastante impressionado com a qualidade das pesquisas que temos", disse ele, acrescentando que considera infundadas as acusações das pesquisas serem tendenciosas. "Eu acho que a maioria das pessoas tenta fazê-las corretamente. As pessoas que fazem as pesquisas querem que acertem."

A outra questão no centro do debate da pesquisa é como pesar a afiliação partidária, um aspecto ligeiramente mais técnico porém enormemente importante da pesquisa eleitoral. Em pesquisas aleatórias, os pesquisadores podem obter respostas desequilibradas com base em quantas pessoas de cada partido entrevistem.

Apesar de estudos terem mostrado que cerca do 39% do eleitorado recente era democrata e 35% republicano, as pesquisas podem acabar com amostras que pendem mais para um partido. A pergunta que perturba os pesquisadores: o que fazer?

As pesquisas Zogby e ABC-Washington Post usam solução técnicas, dando peso extra a alguns entrevistados para que suas amostras representem mais fielmente o eleitorado. Robert Blendon, um professor de Harvard que realiza pesquisas para a ABC-Washington Post, defende esta abordagem. Ele disse que os eleitores filiados aos partidos nas últimas três eleições variaram tão pouco que é seguro assumir que o número será o mesmo desta vez.

Mas as pesquisas Pew, Gallup e CNN-USA descartaram estas soluções, dizendo que elas não registram mudanças partidárias no eleitorado.

Blendon disse que tais questões serão debatidas pela comunidade de pesquisa por muito tempo após terça-feira. "Você tem uma comunidade de pesquisa altamente dividida."

Outra questão diz respeito aos celulares: os democratas têm argumentado que alguns eleitores jovens que têm preferência por Kerry usam exclusivamente celulares e não são considerados pelas pesquisas, que apenas utilizam telefones fixos domésticos. Mas alguns especialistas dizem que este argumento é exagerado.

"Há oito anos foram os números não listados, quatro anos atrás foram as dificuldades para contatar as famílias trabalhadoras... sempre há algo", disse Berkovitz.

Apesar do debate acalorado entre os pesquisadores, diferente de muitas outras disputas partidárias, em breve haverá como comparar o valor de cada pesquisa com o verdadeiro resultado eleitoral.

"Daqui três dias, tudo vai girar em torno do direito de se gabar entre os pesquisadores", disse Berkovitz. Levantamentos não apontaram com precisão tendências da disputa George El Khouri Andolfato

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