América Latina espera retornar à agenda de Bush

Indira A.R. Lakshmanan*
Em Porto Príncipe, Haiti

Uma semana após a reeleição do presidente Bush, os vizinhos mais próximos dos Estados Unidos buscam sinais que indiquem se os próximos quatro anos trarão melhores parcerias econômicas e políticas, ou ampliarão aquilo que é tido como um abismo existente entre Washington e uma região que é uma exportadora significante de petróleo, imigrantes e drogas ilegais.

As nações da América Latina e do Caribe reclamam de que os países localizados no "quintal" dos Estados Unidos saíram da agenda da administração Bush após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Muitos esperavam que uma vitória do senador John F. Kerry estimulasse a criação de uma equipe de política externa que prestasse mais atenção à região, enquanto que a vitória de Bush é vista --bem ou mal-- como uma continuidade da situação atual.

"A América Latina e o Caribe foram vítimas do ataque de 11 de setembro. Até mesmo o presidente mexicano Vicente Fox, que era um bom amigo de Bush, e o primeiro líder estrangeiro com o qual Bush se encontrou após tomar posse, deixou de receber atenção", diz Kesner Pharel, economista e comentarista político haitiano. "Os Estados Unidos esqueceram da América Latina, e não sei se um outro mandato de Bush implicará qualquer mudança".

Observadores em Washington dizem que no seu segundo mandato Bush provavelmente recompensará os países latino-americanos que apoiaram a guerra no Iraque ou os acordos de livre comércio --como México, Colômbia e Chile-- e manterá relações cordiais, mas distantes, com os oponentes da guerra, os governos esquerdistas e aqueles que questionaram as iniciativas dos Estados Unidos para a promoção do livre comércio.

Acredita-se que Bush adotará um embargo rigoroso contra Cuba, enquanto outras nações caribenhas problemáticas, como o Haiti, esperam contar com maior assistência econômica e militar.

Washington pode esperar uma maior oposição à sua política externa, especialmente nas nações sul-americanas que deram uma guinada para a esquerda: Argentina, Brasil, Venezuela e Uruguai. Mas muitos que se opõem à política externa dos Estados Unidos ainda desejam ter maior acesso aos mercados norte-americanos para os seus produtos de exportação, e as conversações sobre comércio podem progredir.

Mas se os governos têm uma idéia do que esperar de Bush, muitos cidadãos parecem não estar entusiasmados quanto ao estado das relações com a superpotência vizinha. Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Maryland e pela GlobeScan de Toronto indicou que 42,5% dos entrevistados em nove países latino-americanos desejavam que Kerry vencesse, e 19% apoiavam Bush.

Esses resultados são condizentes com um estudo de longo prazo feito pela empresa chilena de pesquisas Latinobarometro, que indicou que o sentimento negativo com relação aos Estados Unidos na América Latina cresceu consideravelmente. Deixando de lado a Colômbia e as nações da América Central, onde a aversão aos Estados Unidos é menos intensa, quase 60% dos latino-americanos ouvidos têm uma visão negativa dos Estados Unidos, comparados aos 40% de seis anos atrás.

Até mesma na Colômbia --a única nação latino-americana que continuou a receber atenção e ajuda dos Estados Unidos, devido ao tráfico de drogas e à insurgência armada-- o principal jornal diário de circulação nacional, "El Tiempo", ecoou a frustração generalizada na região.

"Nem em dezenas de discursos e pronunciamentos...[durante a campanha] nem em milhões de dólares gastos em propagandas... houve qualquer menção a uma região que vê os Estados Unidos como o seu principal parceiro comercial e aliado natural", disse o jornal na semana passada.

"Dessa forma, poucos são os que esperam que muita coisa mude", continuou o artigo. "O que está claro é o desinteresse dos Estados Unidos pelos seus vizinhos, e que isso gera efeitos concretos".

Tanto Bush quanto Kerry prometeram manter o multibilionário "Plano Colômbia", um pacote composto de treinamento militar, equipamentos e assistência social. Mas só Kerry enfatizou que o exército colombiano deveria romper os laços com os grupos direitistas paramilitares acusados de cometerem a maior parte das violações aos direitos humanos.

Ann C. Mason, diretora do Instituto de Ciências Políticas da Universidad de los Andes, em Bogotá, diz suspeitar que com Kerry as condições para a continuidade do fornecimento do auxílio à Colômbia aumentariam, enquanto que com Bush o apoio complementar é bem menor.

No Haiti, a paupérrima nação caribenha flagelada pela violência política, a vitória de Bush foi motivo de alívio para muita gente que temia que Kerry trouxesse de volta ao poder o polêmico ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, que foi deposto durante uma violenta rebelião em fevereiro.

Aristide, um enérgico populista que foi eleito e deposto duas vezes desde 1990, foi conduzido de volta ao poder por uma força militar liderada pelos Estados Unidos durante o primeiro mandato do presidente Clinton em 1994.

"Temíamos que Kerry pudesse possivelmente trazer de volta Aristide", diz Emmanuel Nerva, 28, estudante universitário. "Talvez Bush traga estabilidade para a região... mas ele precisa modificar suas políticas e se concentrar mais nos problemas sociais e em países pobres".

Em uma entrevista The Boston Globe, o primeiro-ministro interino Gerard Latortue disse: "Acredito que a reeleição de Bush foi muito boa para a estabilidade no Haiti porque creio que estamos na mesma sintonia".

Philippe Armand, presidente da Câmara Americana de Comércio no Haiti, diz que a vitória de Bush só pode ser um fato positivo. "Isso porque estamos em meio a uma transição, e a mudança de direção em Washington poderia não ser algo de bom... Não queremos ter que começar tudo de novo".

*Colaborou a correspondente de The Boston Globe, Karla Miliani, de Bogotá. Maioria da população da região torceu pela vitória de John Kerry Danilo Fonseca

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