Crescem teorias de que fraudes reelegeram Bush

Rick Klein
Em Washington

À medida que ricocheteiam por todo o país pela Internet, os detalhes parecem sob medida para levantar as sobrancelhas dos democratas desconfiados.

O presidente Bush obteve 4.258 votos contra 260 do senador John Kerry em um subúrbio de Columbus, Ohio, onde apenas 638 votos foram depositados. Por todo o Estado de Ohio, cerca de 76 mil cartões perfurados não registraram voto para presidente, e as autoridades estão apenas começando a contar os 155.428 votos provisórios.

Em Holmes County, Flórida, apesar de quase três quartos dos eleitores registrados serem democratas, Bush derrotou Kerry por 6.410 votos contra 1.810, em resultados que espelharam os de vários outros condados onde foram utilizadas cédulas de papel para leitura óptica. E em Broward County, na Flórida --um grande reduto democrata--, após os primeiros 32 mil votos em trânsito terem sido inseridos no computador, um defeito no software fez votos adicionais serem subtraídos da totalização, em vez de somados.

Uma semana após Kerry ter reconhecido a derrota e Bush declarado sua vitória, tais alegações e várias outras do Novo México até a Carolina do Norte mantiveram vivas as especulações de que a vitória de Bush não foi real e nem tão decisiva como parecia. Com as lembranças ainda frescas das irregularidades de 2000, e-mails e mensagens postadas na Internet acusam os republicanos de terem roubado a eleição.

Grande parte do tráfego é pouco mais que teorias de conspiração alimentadas pela Internet, e nenhum dos problemas na contagem de votos e anomalias que surgiram foram disseminadas o bastante para afetar o resultado final da eleição.

Membros da campanha de Kerry e uma série de especialistas em lei eleitoral concordam que apesar das máquinas terem cometido erros e as longas filas nos distritos democratas terem afugentado muitos eleitores, não há chance realista de Kerry realmente derrotar Bush.

"Ninguém estaria mais interessado do que eu em descobrir que realmente vencemos, mas este não é o caso", disse Jack Corrigan, um conselheiro veterano de Kerry que liderou a equipe democrata de 3.600 advogados, que se espalhou pelo país no dia da eleição para verificar irregularidades na votação.

"Eu entendo o motivo de as pessoas estarem frustradas, mas eles não roubaram esta eleição", disse Corrigan. "Ocorreram alguns poucos problemas aqui e acolá na eleição. Mas diferente de 2000, não há dúvida de que eles realmente conquistaram mais votos do que nós, e os conseguiram nos Estados que importavam."

Ainda assim, com relatos correndo pela Internet, seis democratas do Congresso pediram uma investigação pelo Government Accountability Office (GAO, a divisão de investigação do Congresso). Importantes acadêmicos também entraram na luta, dizendo que a integridade e o futuro do sistema de votação da nação exige que todas as alegações sejam respondidas.

"O que precisa acontecer é uma investigação total", disse Troy Duster, um professor da Universidade de Nova York e presidente da Associação Sociológica Americana. "Soa como fantasia paranóide, mas eu acho que os dados sugerem que, mesmo se Bush venceu, ele não venceu com as margens que foram divulgadas. Nós temos aqui uma potencial crise de legitimidade com tudo o que está sendo dito pela Internet, e a forma de lidar com isto é investigando."

Grande parte da atenção tem-se voltado para os resultados em Ohio e na Flórida, já que, se Kerry tivesse vencido em qualquer um destes Estados em vez de Bush, o senador de Massachusetts seria o presidente eleito. As pesquisas de boca-de-urna em ambos os Estados apontaram resultados favoráveis a Kerry, e em cada Estado foram informadas irregularidades de votação e apuração em vários locais.

"Ocorreu fraude na eleição de 2004", declarou a equipe da BlackBoxVoting.org, um site popular que está compilando os relatos de problemas eleitorais.

"Kerry venceu. Aqui estão os fatos", diz a manchete em um artigo de grande circulação, escrito pelo autor de um livro que ataca a família Bush.

Outro site sugere que Kerry está se recusando a contestar a eleição porque outros membros da sociedade secreta Skull and Bones de Yale o proibiram de fazê-lo.

Após um autor de e-mail ter sugerido erroneamente que o irmão de Kerry, Cameron, estava compilando os problemas eleitorais, a caixa de e-mail de Cameron Kerry foi inundada com centenas de mensagens, recebidas a um ritmo de muitas por minuto até terça-feira. Ele enviou uma resposta geral dizendo "nós não estamos ignorando" os relatos, ao mesmo tempo em que pedia educadamente que fossem passadas ao Comitê Nacional Democrata em vez de seu endereço de e-mail, em sua firma de advocacia em Boston.

Apesar de Corrigan ter dito que todas as alegações foram e continuarão sendo investigadas pela equipe legal democrata, ele acrescentou que está claro que 2004 não foi uma repetição de 2000. Naquele ano, uma recontagem abreviada na Flórida resultou em uma vitória por margem de 537 votos para Bush, e muitos democratas acreditam que uma recontagem plena e imparcial resultaria na vitória do democrata Al Gore.

Neste ano, a disputa não foi tão apertada nos Estados que estavam pendurados na balança. Segundo os resultados preliminares da eleição da semana passada, Bush venceu na Flórida por uma margem de cerca de 380 mil votos, e em Ohio, por aproximadamente 136 mil. Corrigan disse que os democratas não pressionarão por recontagens manuais neste ano já que não mudariam os resultados da eleição, um argumento apoiado pelos especialistas em eleição.

"Eu acho seguro dizer que nos votos dados em Ohio, Bush venceu", disse Dan Tokaji, um professor de Direito da Universidade Estadual de Ohio que está trabalhando com a União Americana das Liberdades Civis na contestação do uso dos cartões perfurados. "Se a margem fosse de 36 mil em vez de 136 mil, nós veríamos outra turbulência pós-eleitoral."

A aparente falha de computador que deu a Bush 3.893 votos adicionais em Gahanna, Ohio, foi rapidamente percebida e não constará nos números finais. Os 76 mil cartões perfurados em todo o Estado onde não foram registrados nenhum voto para presidente incluíam votos de pessoas que votaram em branco para presidente, assim como de pessoas que escolheram equivocadamente mais de um candidato. Tal grupo, é claro, inclui eleitores que pretendiam votar em Bush assim como eleitores que pretendiam votar em Kerry.

Como percentual do total, o número de votos brancos e nulos para presidente foi na verdade menor do que em eleições anteriores no Estado, notou Corrigan. Em relação aos votos provisórios, os democratas estão cuidando para que sejam contados, mas quase todos estes votos teriam que ir para Kerry para que pudessem mudar a eleição, e espera-se que muitos sejam considerados inválidos.

Na Flórida, os condados de inclinação democrata em que Bush venceu são na culturalmente conservadora Panhandle, onde o presidente derrotou Gore em 2000 e onde fez apelos particularmente intensos neste ano. A falha de software que iniciou a subtração dos votos em vez da adição afetou apenas poucas urnas, e foi percebida e corrigida.

Richard Hasen, um especialista em lei eleitoral da Loyola Law School em Los Angeles, notou que com a eleição sendo supervisionada por 13 mil jurisdições locais diferentes --muitas das quais empregando novas tecnologias no dia da eleição-- era inevitável a ocorrência de alguns problemas.

"Eu ficaria surpreso se não tivessem ocorrido problemas como estes", disse Hansen.

Quanto às pesquisas de boca-de-urna, elas continuam sujeitas a erros de amostragem e limitações na coleta de dados. As pesquisas patrocinadas por um consórcio de empresas de mídia apresentavam margens de erro de 3%, e em Estados altamente disputados apontados como tendo inclinação para Kerry, vitórias por margem estreita de Bush estavam dentro do esperado.

A margem na Flórida foi maior do que a esperada, mas os pesquisadores informaram problemas para chegar perto demais dos locais de votação para coletar amostras adequadas, e disseram temer que os eleitores de Bush não estavam tão dispostos a informar sua escolha quanto os eleitores de Kerry.

Heather Gerken, uma professora da Escola de Direito de Harvard, disse que o fato da eleição deste ano ter transcorrido tranqüilamente em comparação a 2000 não deve cegar os autores de políticas para os problemas ainda inerentes no sistema. Muitas jurisdições continuam usando equipamento ultrapassado, Estados estão atrasados na compilação de listas confiáveis de eleitores e as eleições ainda são dirigidas por autoridades partidárias, disse ela.

"Eu ainda não vi nada que me convença de que a eleição foi roubada, mas certamente acho que nós devemos tratar seriamente estas alegações para fazer justiça", disse ela. "Há claramente problemas com o sistema eleitoral. É crucial para a saúde deste país que tenhamos um sistema eleitoral no qual possamos confiar." Mas para democratas, não há prova suficiente para cancelar eleição George El Khouri Andolfato

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