Kerry pode se candidatar em 2008, diz seu irmão

Glen Johnson
Em Boston

Apesar de o senador democrata John F. Kerry estar "profundamente decepcionado" com a derrota na eleição presidencial americana na semana passada, é "possível" que ele volte a se candidatar daqui a quatro anos, disse seu irmão e confidente político, Cameron F. Kerry, nesta segunda-feira (8/11).

Enquanto isso, o ex-candidato democrata trabalhará no Senado e talvez por meio de um comitê de ação política recém-formado para assegurar que os democratas tenham uma mobilização superior em 2008, disse seu irmão mais novo.

"Ele está em uma posição de liderança nacional", disse Cameron Kerry a The Boston Globe. Um advogado de Boston, o Kerry mais novo disse que falou com seu irmão várias vezes pessoalmente e por telefone sobre o futuro político do senador desde que o candidato reconheceu a derrota na quarta-feira. "Ele exercerá tal papel e será uma voz para as 56 milhões de pessoas que votaram nele. A posição em que ele está lhe dá uma voz poderosa."

Ele acrescentou: "Uma das coisas que John leva desta campanha é o número imenso de pessoas que foram organizadas, e esta é uma base sobre a qual se deve construir".

Ao ser questionado se isto poderia incluir outra candidatura à presidência, o irmão mais novo respondeu: "É possível. (...) Eu não sei por que aquilo (a derrota da semana passada) deve necessariamente ser o fim. Eu acho que é cedo demais para avaliar. Mas acho que ele continuará lutando pelas questões, valores e ideais defendidos nesta campanha".

O senador não deu nenhuma entrevista desde que reconheceu a derrota para o presidente Bush. Ele esteve em Washington nesta segunda-feira, mas não apareceu publicamente.

O diretor de comunicações de Kerry no Senado, David Wade, disse: "John Kerry ficou sensibilizado com o enorme apoio e entusiasmo que recebeu em Massachusetts e por todo o país. Há milhões e milhões de americanos que querem a mesma mudança para nosso país que ele tem defendido, e ele tem uma voz no Senado e nacionalmente para defender estas causas".

Ex-assessores disseram ter recebido respostas conflitantes sobre se ele disputará outra eleição. Um, falando na condição de anonimato, disse que Kerry teria afirmado a um alto membro da campanha que não conseguia ver outra disputa. Mas o mesmo conselheiro foi à festa de despedida do pessoal de Kerry, na noite de sábado em Washington, e disse que Kerry afirmou às pessoas: "Sempre há outros quatro anos".

O comentário provocou uma explosão de vivas.

Isto poderia representar um dilema para Kerry: sua cadeira no Senado estará em disputa em 2008, e uma conversa sobre campanha presidencial poderia levar candidatos de ambos os partidos a forçarem o senador a decidir se buscará a reeleição ou disputará a Casa Branca.

Ele sem dúvida também enfrentará candidatos democratas pela indicação presidencial, incluindo possivelmente a senadora Hillary Rodham Clinton de Nova York, e seu recente companheiro de chapa, o senador John Edwards da Carolina do Norte.

Kerry também enfrentará os desafios da história e idade. Ele terá 64 anos em 2008, um ano mais jovem do que Ronald Reagan quando este concorreu à presidência em 1976. Reagan perdeu para Gerald Ford nas primárias republicanas daquele ano. Quatro anos depois, desafiou com sucesso Jimmy Carter pela presidência, em 1980.

O último candidato democrata à presidência a concorrer uma segunda vez consecutiva como porta-bandeira do partido foi Adlai Stevenson, que perdeu para Dwight D. Eisenhower em 1952. Stevenson foi reindicado em 1956 e foi mais uma vez derrotado pelo presidente Eisenhower na eleição geral.

O único candidato no século 20 a ser derrotado na disputa pela Casa Branca e depois concorrer com sucesso em uma futura eleição foi o republicano Richard M. Nixon, que foi derrotado por John F. Kennedy em 1960 e depois derrotou Hubert H. Humphrey em 1968. Humphrey concorreu novamente pela indicação democrata em 1972, mas retirou sua candidatura diante de sua enorme desvantagem na convenção do partido, que indicou George McGovern.

Enquanto isso, Kerry está pesando se abre um comitê de ação política para promover seus ideais. Ele utilizou um expediente semelhante, o Fundo do Soldado Cidadão, para apoiar candidatos democratas para cargos eletivos estaduais e operações em Iowa e New Hampshire antecipando sua disputa recém-concluída.

Bush venceu a eleição da semana passada por uma margem de 3,5 milhões de votos --59,6 milhões contra 56,1 milhões. Os totais foram os dois maiores já recebidos em uma eleição presidencial. O presidente em exercício conquistou 286 votos no Colégio Eleitoral contra 252 de Kerry. Bush declarou vitória após conquistar Ohio por uma margem de 136 mil votos.

Apesar das pesquisas de boca-de-urna terem indicado que Bush derrotou Kerry por ampla margem entre os eleitores que declararam que liderança e valores morais eram o mais importante para eles em um presidente, Karl Rove, o estrategista político chefe do presidente, disse no "Meet the Press", no domingo, que Bush venceu ao primeiro convencer os eleitores de que seria mais forte na guerra contra o terror e um melhor guardião da economia por meio do programa de cortes de impostos expandido.

A estratégia de Rove era obter mais votos da base do presidente, incluindo os cristãos conservadores, e os democratas disseram nos últimos dias que foi isso que deu a vitória a Bush em Ohio, um Estado com dificuldades econômicas que perdeu mais de 260 mil vagas de trabalho durante seu mandato.

O ex-assessor falou sobre os planos de Kerry de trabalhar estreitamente com o senador Harry Reid de Nevada, que deverá substituir Tom Daschle como líder dos democratas no Senado, para formar uma "oposição leal" a Bush.

Ele também planeja reformular seu pessoal e se reunirá nesta semana com ex-assessores de campanha e assessores no Senado para elaborar uma estratégia para uma nova ascensão política. O Senado voltará ao trabalho na próxima semana, e Kerry está determinado a ter uma agenda quando voltar à atenção pública.

Para isto, "ele tem telefonado feito louco", disse o assessor, e "está determinado a não permitir que os democratas sejam derrotados de novo na mobilização de pessoal".

Apesar de ter surgido alguma especulação de que Kerry poderia desafiar Reid pela liderança no Senado, dois dos principais assessores de Kerry disseram que ele já deu seu apoio a Reid.

Cameron F. Kerry disse que apesar dos resultados da semana passada terem deixado seu irmão "profundamente decepcionado", "eu acho que ele se sente bem por vários motivos. Eu acho que muitas pessoas estão contentes com sua atuação nesta disputa. Eu acho que ele sente que fez o que tinha que fazer. Mas eu acho que ele está olhando para frente --para os próximos passos-- e não remoendo o que poderia ter acontecido".

Ele disse que em suas conversas no fim de semana, John Kerry "falou sobre os próximos passos" e "como ser uma voz". Senador deverá disputar candidatura com Edwards e Hillary Clinton George El Khouri Andolfato

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