"Viagra feminino" deverá ser aprovado nos EUA

Carolyn Y. Johnson
Em Boston

Conselheiros de ciência do governo esperam decidir o quanto antes se recomendarão a aprovação do primeiro "Viagra feminino", um adesivo de hormônio que seus defensores dizem que reacenderá a vida sexual de milhões de mulheres. Mas os críticos temem que se for usado em excesso ele exporá as mulheres a efeitos colaterais não previstos a longo prazo.

O Intrinsa, o adesivo de testosterona da Procter and Gamble, é um entre cerca de uma dúzia de medicamentos que as empresas estão lutando para colocar no mercado após o sucesso do Viagra e outras drogas para disfunção sexual masculina, que os analistas estimam que arrecadarão US$ 1,8 bilhão neste ano.

Os defensores do Intrinsa dizem que a disfunção sexual, como muitos outros problemas de saúde das mulheres, tem sido há muito tempo negligenciada pela medicina e a droga atrairá uma atenção há muito necessária para um problema que a maioria das mulheres não sabe que é tratável.

"Esta é a bomba nuclear da saúde sexual das mulheres --não dá para ser maior que isto", disse o dr. Irwin Goldstein, diretor do Instituto para Medicina Sexual da Universidade de Boston, sobre o Intrinsa.

Ele disse que a droga poderá transformar a disfunção sexual feminina em uma desordem curável da mesma forma que os antibióticos mudaram o tratamento de doenças infecciosas. Goldstein tem atuado como consultor de várias empresas farmacêuticas, incluindo a Procter and Gamble, mas disse não estar envolvido em nenhum teste do Intrinsa.

Mas alguns médicos e terapeutas sexuais argumentam que a excitação é mais complicada nas mulheres do que nos homens, envolvendo uma mistura de psicologia, biologia evolutiva, equilíbrio hormonal e idade. Eles acreditam que os problemas sexuais das mulheres apresentam menor probabilidade de serem tratáveis com apenas um medicamento.

Além disso, eles dizem que o Intrinsa é o mais recente exemplo de empresas farmacêuticas tentando expandir seus mercados criando uma desordem e uma cura. Assim como fez com outros drogas de estilo de vida, como o tratamento Propecia para perda de cabelo, a indústria está tentando "medicalizar" a meia-idade, dizem os críticos.

"Uma mudança em como vemos a normalidade (...) será sutilmente imposta sobre o público por meio de propaganda", disse Leonore Tiefer, um psicólogo clínico da Universidade de Nova York. "Há algumas pessoas que estão sofrendo, mas há muito mais pessoas que são apenas curiosas."

A recomendação da comissão de aconselhamento científico será passada aos principais diretores da Food and Drug Administration (FDA), a agência americana responsável pela fiscalização e regulamentação de medicamentos e alimentos. A decisão será acompanhada atentamente devido às recentes preocupações com a capacidade da agência de monitorar a segurança dos medicamentos depois de terem sido aprovados.

A Merck recentemente tirou do mercado do antiinflamatório Vioxx após cinco anos, devido a um aumento no risco de ataques cardíacos em pacientes que tomavam o medicamento. Os críticos dizem que a FDA deve exigir estudos de longo prazo dos efeitos colaterais das drogas antes da aprovação e deve monitorar os medicamentos mais cuidadosamente depois que chegarem ao mercado.

Os críticos temem que o adesivo de testosterona, que é usado no abdome, pode ter efeitos colaterais negativos a longo prazo, como o aumento de risco de câncer de mama que foi descoberto anos depois da terapia de reposição de outro hormônio, o estrogênio, se tornou um tratamento popular para os efeitos colaterais da menopausa.

"As mulheres foram sujeitadas a horríveis experiências com hormônios por parte das companhias farmacêuticas. Eu espero que não tenhamos amnésia disto", disse Tiefer.

Estima-se que a disfunção sexual feminina, definida como uma diminuição do interesse em sexo e uma ausência de fantasias sexuais, afete 43% das mulheres adultas nos Estados Unidos, segundo um estudo muito citado, publicado em 1999.

A credibilidade de seus dados, no entanto, tem sido contestada por causa dos métodos usados e por um dos autores ter sido consultor de seis companhias farmacêuticas e outro ter ajudado a Pfizer durante o desenvolvimento do Viagra.

A Procter and Gamble está inicialmente buscando a aprovação do Intrinsa apenas para um pequeno percentual destas mulheres: aquelas que tiveram seus ovários removidos e estão recebendo estrogênio. Os ovários produzem testosterona, que é considerado como tendo um papel no desejo sexual da mulher.

Em estudos de mulheres que passaram por cirurgia de remoção do ovário ou estão na menopausa, as mulheres que usaram o Intrinsa por seis meses relataram que experimentaram em média a ocorrência de um episódio adicional de relação sexual, masturbação ou sexo oral em cada quatro semanas em comparação com as mulheres que receberam um adesivo inativo.

As mulheres que usavam o Intrinsa também relataram maior desejo sexual, com menos sensações desagradáveis. Efeitos colaterais como acne, crescimento de pêlos ou voz mais grave ocorreram em mulheres que usaram a droga, mas foram raros. Os estudos não foram publicados, mas foram informados em conferências médicas.

A dra. Alice Mark, uma obstetra e ginecologista do Brigham and Women's Hospital em Boston, que não esteve envolvida nos estudos do Intrinsa, disse que eles foram "bem feitos", mas notou um efeito interessante: "Mesmo as mulheres que estavam usando um adesivo placebo também apresentaram um aumento da atividade sexual, e provavelmente isto indica que qualquer um que esteja disposto a fazer algo para ter atividade sexual terá alguns resultados".

Se a FDA aprovar o Intrinsa para as mulheres sem ovários, os médicos seriam autorizados por lei a prescrever o medicamento para outros fins para qualquer paciente. Os críticos temem que a droga seria amplamente anunciada para os consumidores, e que as propagandas, explorando as inseguranças das mulheres em relação ao sexo, levariam milhões a buscarem uma prescrição.

Antes de prescrever o adesivo para mulheres com ovários funcionais, um grupo que não foi incluído nos estudos do Intrinsa, os médicos provavelmente usarão exames de sangue dos níveis hormonais e questionários sobre satisfação sexual para determinar quem poderia se beneficiar com a droga, como muitos pesquisadores como Goldstein já fazem em seus centros de pesquisa.

Mas Mark disse que é difícil dizer se as mulheres têm um nível baixo ou normal de testosterona, porque os testes são inexatos e não há normas estabelecidas. Sem um nível preciso de testosterona, ela disse que será difícil dizer se uma mulher é ou não uma boa candidata para o adesivo.

Os defensores da droga dizem que apreciariam uma ampla campanha de marketing, voltada tanto para os médicos quanto para os consumidores, como forma de educar ambos os grupos sobre a disfunção sexual feminina.

"Você verá esta propaganda durante as novelas", disse Goldstein. Os médicos que se virem diante de mulheres exigindo o tratamento "lembrarão que em seus quatro anos de escola de medicina, a disfunção sexual feminina não foi citada nenhuma vez" e procurarão a empresa para obter material informativo sobre o medicamento e a desordem.

Goldstein já trata algumas mulheres com disfunção sexual com adesivos de testosterona aprovados para os homens. Uma destas pacientes, Lillian Arleque, 58 anos, de Andover, está ansiosa para que o Intrinsa seja aprovado.

Após o nascimento de sua filha há 29 anos, o sexo sumiu da tela de radar de Arleque. "O desejo sumiu, o excitação sumiu, tudo simplesmente desapareceu." Dois anos e meio atrás, ela procurou Goldstein e iniciou a terapia com testosterona, e seis semanas depois algo estranho começou a acontecer, disse ela. "Eu estava percorrendo o corredor de enlatados no supermercado e comecei a pensar em sexo." "Estava no supermercado e comecei a pensar em sexo", diz usuária George El Khouri Andolfato

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