EUA não podem democratizar Islã, diz Pentágono

Bryan Bender
Em Washington

Um novo estudo do Pentágono pinta um quadro pessimista das perspectivas de criar uma democracia no Oriente Médio, declarando que as tentativas americanas de levar eleições livres ao mundo muçulmano arriscam gerar conflitos religiosos internos e maior sentimento anti-americano.

O estudo, conduzido por dois pesquisadores da Faculdade de Guerra do Exército dos EUA, também conclui que a incapacidade até agora em corrigir os erros de interpretação da lei islâmica esposada por militantes prejudicou a guerra ao terrorismo.

O relatório observa que os oficiais e diplomatas americanos podem aumentar as chances de paz desenvolvendo maior compreensão da história islâmica. No entanto, as autoridades americanas devem "levar em conta a possibilidade de fracasso" em seus esforços de acabar com formas suicidas e militantes do islamismo.

O presidente Bush descreveu a guerra ao terrorismo e a invasão americana do Iraque como parte de uma estratégia maior para levar a democracia ao Oriente Médio e ao mundo muçulmano mais amplo.

Apesar disso, o estudo diz que os políticos precisam encontrar novas formas para fortalecer vozes islâmicas moderadas --ou arriscarão colocar mais lenha na fogueira do movimento religioso militante, que cresceu nos três anos desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

Os autores advertiram que as autoridades americanas não devem ditar ao mundo islâmico como evitar o pensamento islâmico militante.

"De fato, o debate acalorado e os conflitos entre muçulmanos sobre o papel da religião em sua política vai continuar por muitas décadas", previram os autores. "Com a democratização, esses conflitos podem ficar ainda mais pronunciados, e os resultados podem não ser do gosto do Ocidental secular", disseram o tenente da Marinha Youssef H. Aboul-Enein e Sherifa Zuhur, professor visitante que estuda o islamismo.

O artigo foi criado como uma introdução ao pensamento islâmico, para autoridades do Pentágono, descrevendo a história da religião desde os tempos do profeta Mohammed, no século sete, até o crescimento do terrorismo islâmico, no final do século 20.

O estudo nega teorias de que o islã é por natureza uma religião violenta; que o conflito entre israelenses e palestinos é o principal motor do crescimento do sentimento anti-Ocidental e que a pobreza gerou a militância.

Os autores salientam que, em seus 1.400 anos de história, o islamismo foi, em geral, uma religião pacífica, que guerreava primariamente em defesa própria. A resolução do conflito entre israelenses e palestinos e a redução da pobreza poderiam aliviar parte da frustração subjacente no mundo muçulmano, mas "não resolveriam a expansão do radicalismo islâmico".

Aboul-Enein é oficial da Marinha e estuda teoria islâmica desde 2000, concentrando-se na história de 1.400 anos de comentários islâmicos que vão contra as ideologias jihadistas esposadas pela Al Qaeda. Zuhur passou os últimos 20 anos entrevistando militantes islâmicos do Egito, Síria, Jordânia, Arábia Saudita e territórios palestinos que usam o Alcorão para sustentar o conflito constante entre o islã e o Ocidente.

Os autores dizem que os erros sérios de compreensão do islamismo se provaram grandes obstáculos aos objetivos americanos no mundo islâmico, porque frustraram esforços para fortalecer as vozes moderadas que poderiam combater extremistas nas escolas religiosas do Afeganistão e Paquistão à Arábia Saudita.

"Compreender a importância dos textos clássicos e objetivos supremos do próprio islamismo --paz e igualdade social-- nos permitirão combater o terrorismo" com uma mensagem mais bem preparada, dizem os autores. "Também facilitarão a compreensão das opiniões e opções de nossos aliados muçulmanos."

Outro especialista concordou. "Para compreender alguma coisa é preciso conhecer sua história. Não é a resposta, mas é parte dela", disse Ali Al-Ahmed, presidente do Instituto Saudita em Washington, que promove ideais islâmicos moderados.

Os autores afirmam que as autoridades americanas precisam fazer esforços para compreenderem a complexidade da lei islâmica e os debates entre os próprios muçulmanos sobre o papel de sua fé religiosa. Entretanto, "isso não significa que devam direcionar o processo ou o resultado desses debates", advertem.

Ao mesmo tempo, os EUA precisam entender melhor como os grupos terroristas "manipulam, escondem e minimizam aspectos da história islâmica, desde sua lei até os versos do Alcorão" opostos à sua visão de mundo.

O que a Al Qaeda e seus seguidores mais temem "são as leis islâmicas, sua história e princípios que não se conformam com suas ideologias militantes", disse o estudo.

E as forças militares americanas, como as que estão ocupando o Iraque, têm um papel crucial.

"Quando militantes islâmicos citam e interpretam com violência versos do Alcorão... as forças aliadas não devem se dizer ignorantes, mas chegar a um nível maior de familiaridade com os aspectos religiosos e outros da cultura muçulmana. As forças aliadas entenderão melhor os dilemas específicos de nossos aliados muçulmanos se conhecerem as mensagens jihadistas e as moderadas".

O artigo clama por "uma estratégia de longo prazo que envolva um esforço para desacreditar o pensamento islâmico militante". Além disso, recomenda uma política de "estímulo para que os muçulmanos desenvolvam uma grande campanha ideológica para combater aqueles que seqüestraram o islamismo com sua interpretação destrutiva da escritura islâmica. Compreender esse esforço será vital para qualquer estratégia que busque dissuadir jovens muçulmanos do niilismo da militância islâmica."

Ele diz que a "ênfase na justiça, moderação e autocontrole vem de muito antes de nossa Era. Com sorte, aproximará os muçulmanos a outras religiões e curará as feridas criadas pela guerra islâmica dos extremistas."

Os autores, entretanto, também advertem que a curva de aprendizado pode ser intensa demais e que a disseminação da militância islâmica pode não ser controlável nos próximos anos, depois que o mundo muçulmano completar sua luta interna pelo futuro.

Como resultado, ele insta as autoridades a enfrentarem o que poderia ser considerado o impensável: "A possibilidade de fracasso na batalha contra o sentimento jihadista, mantendo um trabalho assíduo para a obtenção de um resultado diferente." Relatório aponta que estratégia do país no Oriente Médio fracassará Deborah Weinberg

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