Bush promete reduzir o déficit, mas não diz como

Michael Kranish
Em Washington

Um desfile de especialistas escolhidos pela Casa Branca elogiou as políticas do presidente Bush em um encontro sobre economia nesta quarta-feira (14/12), mas alguns temperaram seus elogios com alertas de que a economia poderá tropeçar a menos que a Casa Branca apresente planos viáveis para reforma do Seguro Social e reduza o déficit pela metade.

Bush, que não participou da sessão matinal sobre economia, apareceu posteriormente em um painel sobre o que a Casa Branca chamou de "os altos custos do abuso de processos".

O presidente prometeu que cumprirá sua promessa de campanha de apresentar uma legislação que limitará as indenizações em certos processos, condenando o que chamou de abusos do sistema legal.

"Eu pretendo apresentar um pacote de leis ao Congresso, o que significa que esperamos que a Câmara e o Senado aprovem uma reforma significativa de responsabilização por asbesto, processos coletivos e responsabilidades médicas", disse ele na conferência.

A conferência quadrienal da Casa Branca sobre economia visa estabelecer a base para que Bush obtenha o apoio popular para os planos ambiciosos que poderão mudar o sistema tributário do país, permitir contas privadas de investimento no Seguro Social e corte dos benefícios prometidos para futuros aposentados.

Mas o clima na sessão matinal sobre economia ocasionalmente se tornava sombrio. Muitas idéias discutidas na quarta-feira custariam trilhões de dólares, ao mesmo tempo em que o vice-presidente dizia aos participantes que a Casa Branca pretende continuar cortando impostos e reduzindo os gastos.

Diferente do amplo apoio entre os Republicanos para os cortes de impostos lançados quatro anos atrás, há muito desentendimento dentro do Partido Republicano sobre como proceder na reforma tributária e do Seguro Social. Os Democratas, que não foram convidados para a conferência, são contra grande parte da agenda de Bush.

Bush, que foi reeleito sem fornecer qualquer informação específica sobre sua agenda econômica, não disse como obterá os mais de US$ 1 trilhão para os custos de transição para permitir contas privadas de investimento no Seguro Social, e não expôs exatamente como os futuros benefícios poderão ser cortados, se é que vão.

A Casa Branca disse nesta quarta-feira (14/12) que as contas pessoais de investimento por si só não serão suficientes para corrigir o déficit do Seguro Social. "Além das contas pessoais será necessário muito mais para a solução do problema", disse o porta-voz Scott McClellan. Mas McClellan não disse que outras mudanças serão propostas por Bush para tratar do futuro problema de fundos.

Bush também não explicou como reformará o sistema tributário, o que provocou especulação sobre se algumas antigas isenções de impostos, como a dedutibilidade federal dos impostos estaduais, poderiam ser eliminadas.

"Isto tudo tem cara de comício, não de encontro econômico", disse o senador John F. Kerry, o Democrata de Massachusetts que perdeu a eleição presidencial para Bush no mês passado, em uma declaração.

"Eles parecem dispostos a evitar questões honestas como nossa dívida crescente, fraco crescimento do emprego, salários estagnados, custos crescentes de saúde e nosso déficit comercial recorde. Os desafios reais das famílias trabalhadoras e pequenas empresas foram apagados da lousa."

Separadamente, importantes Democratas se queixaram nesta quarta-feira em telefonemas aos repórteres por não terem sido convidados para qualquer discussão significativa sobre a redução do déficit ou reforma do Seguro Social.

Alguns Democratas disseram que Bush está exagerando enormemente os problemas que afligem o sistema do Seguro Social para obter apoio para as contas privadas de investimento.

"Não há qualquer esforço deste governo de nos contactar e nos envolver no processo", disse o deputado John Spratt, Democrata da Carolina do Sul.

A conferência "é composta de pessoas de mentalidade semelhante que realizaram doações de campanha na última eleição" para Bush, acrescentou o deputado Robert T. Matsui, um Democrata da Califórnia. Um relatório do não-partidário Center for Responsive Politics disse que alguns dos principais oradores na conferência contribuíram para a campanha de Bush e ao Partido Republicano.

O vice-presidente Dick Cheney, que participou da sessão matinal no Edifício Ronald Reagan, perto da Casa Branca, disse aos conferencistas que os cortes de impostos de Bush foram a salvação da economia. Mas ele pareceu reconhecer que o governo não foi bem sucedido em quatro anos na simplificação do sistema tributário.

Cheney disse que o Seguro Social deve ser reformado com a disponibilização de contas privadas de investimento. Ao mesmo tempo em que destacava que os atuais aposentados vão contar com os benefícios plenos do sistema, ele disse, "os trabalhadores mais jovens estão compreensivelmente preocupados sobre se o Seguro Social ainda existirá quando precisarem dele".

Martin Feldstein, um professor de economia da Universidade Harvard e que foi mencionado como candidato à presidência da diretoria do Federal Reserve, o banco central americano, disse que a economia se encontra em base sólida. Mas ele alertou: "Se o Seguro Social não for reformado, os impostos em folha de pagamento necessários para financiar os benefícios passarão dos necessários 12% para cerca de 20%".

Em uma entrevista, Feldstein disse que Bush e o Congresso provavelmente não aprovarão um aumento destes, mas disse que outras medidas como a conta privada de investimento deverão ser adotadas em breve.

"Quanto mais esperamos, mais nervoso eu fico", disse Feldstein posteriormente. "O problema fiscal de lidar com uma população em envelhecimento é o problema mais sério." Sistema previdenciário do país atravessa crise; Democratas criticam George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos