Nova ameaça para as gigantes da África ocidental

John Donnelly
The Boston Globe

Pendurado entre os galhos no topo de uma acácia, Hassan Abdoulaye examinava o horizonte à procura do animal mais alto da Terra. Mas avistar membros do último rebanho de girafas selvagens da África ocidental não é fácil. Elas sabem se esconder.

Abdoulaye, 48, um guia de girafas nas planícies semi-áridas do Sahel, uma região de densos arbustos espinhosos, foi persistente. Ele subiu numa árvore depois da outra com perícia, trepando descalço pelos galhos. Seu uniforme azul escureceu com as manchas de suor, ao calor de quase meio-dia. Na sexta árvore ele avisou: "Encontrei".

Esse último rebanho de girafas da África ocidental parece estar prosperando, chegando talvez a 176 indivíduos, dos cerca de 100 que havia quatro anos atrás. A procriação rápida é uma boa notícia para um rebanho que foi dizimado nos anos 70 - chegou a ter milhares de animais -e perdeu mais de 30 membros em 1996 que foram transportados inadequadamente, depois da decisão do presidente do Níger de dar uma ou duas girafas de presente para o líder da Nigéria.

Mas a recente recuperação do rebanho, bem-vinda por muitos, também representa um novo tipo de ameaça para as girafas. Vários observadores temem que elas entrem em conflito com os agricultores, aumentando o risco de caça ilegal. As girafas já estão mostrando que apreciam folhas de manga e de feijões, duas das principais colheitas nas bordas do deserto do Saara.

Depois de localizar as girafas, Abdoulaye conduziu o motorista através do mato, ziguezagueando ao redor de pequenas árvores no solo arenoso, até atingir uma clareira. Ali, camuflada pelas manchas de seu pêlo, estava uma girafa com um filhote e uma fêmea grávida.

"Maravilhoso", disse Abdoulaye, enxugando a testa enquanto as três girafas, sem se incomodar com os visitantes, continuaram devorando as folhas de um arbusto.

O conflito entre as girafas e os seres humanos é uma história que se repete em toda a África, numa época em que as reservas de animais selvagens estão encolhendo. O conflito inclui fazendeiros que querem proteger seu gado e suas plantações, ambientalistas que tentam preservar os ecossistemas e animais que, para sobreviver, muitas vezes precisam se afastar de seu território para encontrar alimento.

Os esforços para salvar os animais e proteger os agricultores e ecossistemas são vários. Na África do Sul as autoridades estão avaliando se devem reduzir os rebanhos de elefantes, que causariam extensos danos a antigos baobás e outras árvores. Na Namíbia, os fazendeiros que não capturam ou matam leopardos - a maior parte da população de 3 mil animais vive fora de reservas, em terras agrícolas - receberam um rótulo de "Carne do Território dos Leopardos" para a carne que exportam, vendida por alto preço na Europa.

Para as girafas do Níger - um país confinado e um dos mais pobres do mundo - não surgiram novas estratégias que garantam seu bem-estar em longo prazo. Cerca de uma década atrás, o governo, com a intenção de salvar o rebanho e transformá-lo em atração turística, aprovou uma lei que torna ilegal sua caça, e até agora ela tem funcionado.

Mas segundo Lauren Caister, uma americana que estudou as girafas do Níger durante dois anos no final da década de 90 como voluntária do Peace Corps, "se o rebanho de girafas aumentar e tiver mais choques com os agricultores, acho que vai provocar mais caça ilegal".

Caister, 30, acredita que futuramente o Níger terá de reduzir o rebanho para limitar os conflitos e preservar os padrões de reprodução das girafas. Mas ela disse que os agricultores também poderiam proteger suas mangueiras e plantações de feijão com uma intervenção simples: cavar valas ao redor das árvores e dos campos. As girafas evitam terrenos inclinados ou correntezas de rios, porque numa queda poderiam quebrar o pescoço.

Nas décadas de 60 e 70, os rebanhos de girafas da África ocidental chegavam a mais de 3 mil, e seu território cobria uma área que ia do Mali até o Níger e a Nigéria. Mas a desertificação, o desflorestamento e a caça ilegal reduziram seu número a menos de cem por volta de 1990, obrigando-as a migrar para uma área próxima a Koure e Dallol Bosso, um antigo leito de rio cerca de 80 quilômetros a leste de Niamey, capital do Níger.

Não se sabe quando esse grupo de girafas se separou de outros rebanhos do continente. Caister e vários outros pesquisadores estão terminando um estudo, organizado pelo Projeto Girafa do Zoológico Henry Doorly de Omaha, sobre a genética das girafas africanas, para determinar subespécies. Os resultados deverão ser divulgados no próximo ano.

O rebanho da África ocidental está entre as poucas populações de grandes animais selvagens que sobrevivem na região de 17 países fora de reservas. Muitos grandes mamíferos foram caçados de forma agressiva ao longo dos séculos; a maioria dos rebanhos acabou exterminada. Na opinião dos ambientalistas, talvez as girafas tenham sobrevivido porque sua carne não é apreciada como a de outros animais, e elas puderam se refugiar em locais áridos, menos populosos.

Durante dois anos, Caister e dois outros pesquisadores percorreram de bicicleta a região ao redor de Bosso e Koure para estudar o comportamento das girafas. Ela acabou usando sua pesquisa para uma tese de mestrado na Universidade Estadual de Nova York em Syracuse. No fim do estudo, em 1999, os pesquisadores haviam contado 82 girafas e registrado 32 nascimentos em dois anos.

"A população está procriando em um ritmo de girafas cativas, mais rápido que o das girafas selvagens", disse Caister. "Há especulações de que elas ficaram livres do estresse dos predadores, e isso alivia a necessidade de as fêmeas darem proteção prolongada aos jovens." Ela disse que várias fêmeas procriavam a cada 18 meses, em comparação com a cada dois anos entre outras girafas na natureza.

Durante a pesquisa, disse ela, "era freqüente uma fêmea se aproximar, me cheirar e voltar a pastar. Elas não se assustavam muito conosco ou com os turistas. Mas são bastante assustadas com os nativos".

A sensação é mútua. Próximo à aldeia de Sourgourou, de 200 habitantes, duas mulheres se escondem nos campos de painço, esperando que três girafas se afastem para que elas possam colher os grãos.

"Temos medo delas", diz Biba Issifi, 35, na língua zarma local, agachada entre os caules. "Elas correm atrás de nós e podem nos machucar. Acreditamos que são animais bravos, e não estão acostumados às pessoas."

As girafas migraram para cá na década de 80, e Issifi disse que os aldeões as consideram estrangeiras em suas terras. Caister disse que segundo muitos aldeões o temperamento das girafas é comparável ao dos camelos, notoriamente agressivos, mas ela disse que nunca viu ou ouviu falar de girafas atacarem pessoas.

Abdoulaye, que trabalha como guia há seis anos, deixou as duas mulheres e se aproximou das girafas. Ele as observou durante vários minutos enquanto o filhote mamava. Sua mãe espiava atentamente os visitantes.

"Elas não machucam ninguém, desde que você não se aproxime demais", ele disse. "Eu sou desta região, e agora as girafas estão aqui. Espero que todos aprendam a aceitá-las." Aumento dos rebanhos de girfas pode levar a conflitos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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