Programa anti-Aids na África pede ajuda aos curandeiros

John Donnelly
The Boston Globe

Uma curandeira tradicional descalça entrou em sua cabana de telhado de sapé nesta aldeia zulu, seguida por Randall Tobias, o coordenador global para Aids do governo Bush. Tobias tirou respeitosamente seus mocassins de fabricação inglesa assim que passou pela entrada.

A curandeira de 72 anos, Makhosi Nokusho Bhengu, e Tobias, um ex-chefe da gigante farmacêutica Eli Lilly de 62 anos, tinham acabado de prometer em uma cerimônia do lado de fora trabalharem juntos no combate à Aids. O governo americano está financiando um projeto para treinar centenas de curandeiros locais na união de seus remédios de ervas com drogas anti-retrovirais para Aids, capazes de prolongar a vida. Bhengu disse a Tobias: "O tempo todo fomos desprezados pelas outras pessoas, mas hoje estamos sendo honrados por você".

Dentro da cabana, ela acendeu o fogo sob uma pequena pilha de ervas secas. Enquanto a fumaça subia até o teto, ela olhou para uma mulher doente diante dela e cantou para os ancestrais da mulher ajudarem em sua cura. Outra curandeira perguntou a Tobias o que ele achava do pedido.

"Qualquer coisa que funcione", ele sussurrou.

Para Tobias, que já chefiou um dos maiores laboratórios farmacêuticos do mundo, uma convocação dos ancestrais poderia parecer despropositada. Mas agora que está ocupando este cargo para Aids há pouco mais de um ano, ele está suspendendo o julgamento sobre muitos aspectos da luta contra um vírus que matou cerca de 20 milhões de pessoas ao redor do mundo em duas décadas, infectou outras 40 milhões e está devastando a África sub-Saara.

Durante uma recente viagem de uma semana ao Quênia, Tanzânia e África do Sul -sua quinta visita à África como coordenador para Aids- ele destacou repetidas vezes a importância de apoiar líderes locais e soluções locais, desde que produzam resultados. Ajudar os curandeiros tradicionais, ele disse, faz sentido porque quase 80% dos sul-africanos recorrem primeiro a eles antes de se voltarem aos médicos e enfermeiros.

"Nós temos que escutá-los", disse ele enquanto seu veículo blindado do governo americano partia desta comunidade pobre nas colinas a noroeste de Durban. "Nós não estamos aqui implementando nossa estratégia, mas implementando a estratégia deles."

O programa americano para Aids, chamado de Plano de Emergência do Presidente para Alívio da Aids, tem sido um pára-raios de críticas desde que foi anunciado há quase dois anos, apesar do compromisso do presidente Bush de gastar US$ 15 bilhões ao longo de cinco anos para combater a epidemia, a maior contribuição feita por qualquer país.

Vários especialistas em saúde global de dentro e fora do governo americano citam uma grande desigualdade no programa de 15 países durante seu primeiro ano: as autoridades americanas em alguns países, como a África do Sul, receberam elogios dos grupos locais pelo seu apoio e abertura; mas em outros países, incluindo Tanzânia, Moçambique e Ruanda, problemas de comunicação e incerteza diante do financiamento americano para medicamentos genéricos ou preservativos retardaram o progresso.

Além disso, ativistas de Aids acusaram o programa de ser lento demais, de estar desperdiçando dinheiro comprando medicamentos de marca mais caros em vez de genéricos mais baratos, e de que a estratégia de prevenção se tornou um instrumento da direita religiosa, defendendo a abstinência e não dando a devida atenção a persuadir os parceiros a serem fiéis ou encorajar o uso de preservativos.

Desde a reeleição de Bush no mês passado, os ativistas ficaram mais quietos. Alguns estão suspendendo os julgamentos -pelo menos por algumas poucas semanas, quando os primeiros marcadores significativos que avaliam o progresso do programa para Aids se tornarão conhecidos.

No próximo mês, os Estados Unidos e a ONU anunciarão em conjunto quantas pessoas foram colocadas sob tratamento com drogas anti-retrovirais em países de média e baixa renda. Tobias se recusou a revelar números, mas disse que os esforços estavam "na marca" para atingir a meta do programa de tratar mais 200 mil pessoas até meados de 2005.

Em um segundo teste chave, a Food and Drug Administration (FDA), a agência americana reguladora de alimentos e medicamentos, determinará em breve a aprovação ou não da primeira leva de drogas anti-retrovirais genéricas que foram submetidas a análise.

Tobias disse durante sua primeira visita que é sua "maior esperança nos próximos meses que muitos deles (os genéricos) sejam aprovados e estejam disponíveis. (...) Nossa política sempre foi comprar os medicamentos menos caros, desde que sejam eficientes".

Antes de servir ao governo, Tobias foi um celebrado executivo corporativo, eleito executivo-chefe do ano em 1996 pela revista "Working Mother" e um dos 25 maiores administradores do ano pela "Business Week" em 1997. Depois que seu livro, "Put the Moose on the Table", escrito por seu filho, Todd, foi publicado no ano passado, muitos líderes empresariais adotaram seu conselho de tratar diretamente as questões críticas e não contorná-las. E quando se aposentou da Eli Lilly em 1999, ele iniciou uma fundação para apoio de programas educacionais em seu Estado natal, Indiana.

Mas a Aids apresentou desafios de dimensões totalmente novas, alguns dos quais ficaram aparentes em apenas poucas horas em Durban.

No Hospital Addington, Tobias conversou em uma mesa com seis pessoas sobre tratamento retroviral, incluindo uma mulher que lhe disse que foi estuprada por um homem, que lhe transmitiu o vírus; um soropositivo que disse que perdeu sua esposa e uma namorada para a Aids; e outro homem, um travesti, que contou detalhes íntimos de sua vida.

"Eu sempre digo ao meu parceiro: 'Sem camisinha, sem sexo'", disse Anthony Hetem, 41 anos.

No bairro de Cato Manor em Durban, ele se encontrou com um grupo de homens que desafiou outros homens a mudarem seu comportamento em relação às mulheres, crianças e seus famílias.

"Nós estamos tentando impedir que os homens cometam abusos contra as mulheres", disse Mokgethi Tshabalala, que ajuda a dirigir os programas da Hope Worldwide na África do Sul.

"Você vê homens batendo em mulheres, sejam casados ou não, você vê as mulheres com hematomas", disse Sgidi Sibeko, um conselheiro da Hope Worldwide. "Isto se torna parte da norma. (...) Meu pai batia na minha mãe. Foi preciso um grande esforço da minha parte para não ser como meu pai."

Jendayi Frazer, a embaixadora americana na África do Sul, perguntou aos homens se foram capazes de mudar os relacionamentos com seus pais e avós.

Tshabalala disse que seu pai morreu seis anos atrás, mas sua memória influencia a forma como Tshabalala interage com seu filho de 3 anos. "Apesar de meu pai ter sido um grande homem, a única coisa que queria era ele ter dito: 'Bom trabalho, eu te amo'. Ele nunca o fez. Então eu digo ao meu filho, 'Eu te amo', várias vezes ao dia", disse ele.

Posteriormente, Tobias balançou sua cabeça. "Se um programa como este pode ser bem-sucedido, pense nos ganhos que são possíveis. Mas mudar é tão difícil."

Em uma semana na África, ele visitou fazendas, orfanatos, hospitais e escritórios do governo, assim como a cabana de uma curandeira tradicional. Ele gostou da cabana e da curandeira.

Enquanto Tobias se despedia de Bhengu, a curandeira disse que queria lhe dar uma galinha.

Tobias, cuja avó criava galinhas em Indiana, respondeu: "Você não tem uma paciente que está doente? Posso dar a ela minha galinha?"

Bhengu respondeu em zulu: "Como vou provar que dei a galinha para você?"

"Ora", respondeu Tobias, "se vamos trabalhar juntos, vamos ter que confiar um no outro".

A curandeira e o coordenador para Aids riram. A paciente comeu a galinha naquela noite. George El Khouri Andolfato

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