Séries investem no roteiro e batem "reality shows"

Matthew Gilbert
Em Boston

Como se tivessem agido de forma orquestrada, programadores e espectadores decidiram dar as costas ao falso e sem valor gênero de reality shows e abraçar material roteirizado que não gira em torno de encontros grupais em banheiras.

Com novas séries superiores como "Lost", "Deadwood" e "Rescue Me", além da continuidade das excelentes "Família Soprano", "Scrubs" e "Nip/Tuck", nós fomos capazes de preencher nossa agenda televisiva de 2004 com séries que contavam com verba para roteiristas e atores e que não culminavam em prêmios românticos ou em dinheiro.

Foi o ano de "O Aprendiz", é claro. Mas a série que transformou tanto Donald Trump em um herói da autopromoção quanto seu cabelo em piada estavam caindo em audiência a auto-estima no outono. A TV realidade ainda estava espalhada por toda a programação em 2004, mas ninguém mais falava tanto a respeito. A audiência até mesmo do durável "Survivor" apresentou queda, com seu público parecendo mais sonolento.

Novos programas como "My Big Fat Obnoxious Boss" (meu grande gordo e detestável chefe), "Last Comic Standing" (o último humorista restante) e "Next Great Champ" (o próximo grande campeão) fracassaram em se tornar as sensações previstas por suas emissoras, e a guerra de imitação entre as emissoras apenas dividiu números magros de audiência.

Aparentemente não há interesse por dois programas sobre famílias, "Trading Spouses: Meet Your New Mommy" (trocando esposas: conheça sua nova mãe) e "Wife Swap" (troca de esposa).

Enquanto isso, "Desperate Housewives" não apenas conseguiu enfrentar o campeão de audiência "CSI: Crime Scene Investigation", mas deu início a um renascimento da rede ABC que deve continuar em 2005. Muitos temiam que com a despedida de várias séries roteirizadas de sucesso em 2004, incluindo "Frasier", "Sex and the City" e "Friends", a TV sucumbiria totalmente à tapeação da programação realidade.

Mas o valor de uma narrativa e interpretação elaboradas se reafirmou com uma vingança neste outono, não apenas com "Housewives", a excêntrica homenagem do produtor-roteirista Marc Cherry à sua mãe, mas também com "Lost" e o crescimento da audiência de "Without a Trace", "Cold Case" e das séries derivadas de "CSI" em Nova York e Miami. "Housewives" conseguiu até mesmo aparecer nas capas de revistas que antes eram dominadas por astros da TV realidade.

"Lost" certamente recompensou seus espectadores com uma trama sobre sobreviventes de um acidente aéreo que se tornava cada vez mais misteriosa e envolvente a cada nova informação revelada a cada novo episódio. O criador J.J. Abrams, cuja série "Alias" gira em torno de uma mitologia igualmente envolvente, é o autor do momento na TV, já que reinventou milagrosamente o esgotado gênero ilha deserta.

E Ryan Murphy consolidou sua posição no cabo com uma excelente segunda temporada de "Nip/Tuck", dando uma visão mais profunda e sombria da sede humana por juventude e perfeição. O ponto alto da temporada, no qual a orientadora desonesta interpretada por Famke Janssen revela ser uma transexual, foi magistral e tipicamente bizarro.

Denis Leary também reivindicou seu espaço como autor com a primeira temporada de "Rescue Me", na qual interpretou um bombeiro alcoólatra de Nova York que tenta consertar sua vida. Foi provocativa e engraçada, no sentido cômico e bizarro, particularmente quando Lenny Clarke apareceu no meio da temporada como seu tio fã de ceroulas.

Um antigo autor também recuperou a forma neste ano, enquanto Abrams e Murphy continuavam a solidificar suas reputações. David Milch, de "Hill Street Blues" (também apresentada no Brasil com o nome de "Chumbo Grosso") e "Nova York Contra o Crime", apareceu com "Deadwood", um faroeste belamente escrito (e repleto de palavrões) para a HBO (Fox no Brasil), atolado em lama e moralidade turva.

A série conseguiu passar aos espectadores o senso de anarquia e falta de lei que se encontra logo abaixo da superfície da civilização, ao mostrar um assentamento fora-da-lei povoado com caçadores de ouro e prostitutas. Como o líder divisor Al Swearengen, Ian McShane mostrou ser mais frio do que frio. Ele foi mais frio até mesmo que Tony Soprano, que retornou em uma das melhores temporadas de "Família Soprano", com ele e Carmela se separando e voltando enquanto Adriana ia ao encontro do Criador.

Os comentários eram de que o humor na TV estava morrendo, e diante dos finais de grande destaque do ano e o alto número de clones de "Everybody Loves Raymond" e "According to Jim" (O Jim é Assim), é fácil acreditar nisto. Mas ainda há umas poucas comédias excepcionais em exibição, duas das quais --"Scrubs" e "Arrested Development"-- infelizmente parecem carecer de um maior respaldo de audiência.

"Scrubs" continua sendo uma rica fantasia surrealista, com humor baseado em personagens, texto inteligente e floreios dramáticos sensíveis. É realmente original, assim como "Arrested Development", que conquistou o prêmio Emmy de melhor comédia apesar da baixa audiência. A história da louca família Bluth é irreverente, esperta e ocasionalmente brilhante. É uma comédia com apartes ultrajantes e breves flertes com tabus. "Curb Your Enthusiasm" também lida com tabus, colocando até mesmo um sobrevivente do Holocausto contra um "Survivor" da TV em um dos muitos ótimos episódios de uma ótima temporada. "The Producers" encontrou alguém à altura em Larry David.

E os fãs dos melodramas noturnos estiveram no céu neste ano, com "The L Word", "The O.C.", "Desperate Housewives" e "Queer as Folk". Cada uma destas séries foi melodramática, bem-humorada, cheia de estilo, tola e viciante.

Foram distrações semanais de um mundo que Jon Stewart cobriu tão passionalmente e inteligentemente no "The Daily Show", à medida que o país mergulhava ainda mais em estados de levante e conflito. O tocante e provocativo "The Lost Prince" da PBS, sobre mudanças políticas e familiares na realeza européia no início do século 20, foi notavelmente oportuno. Audiência de dramas e comédias bem escritos surpreende em 2004 George El Khouri Andolfato

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