Amazônia teve nação pré-colombiana, diz estudo

Marion Lloyd
Em Iranduba, Amazonas

No alto de ribanceiras com vista para a confluência dos poderosos rios Negro e Solimões, berinjelas, mamões-papaia e mandiocas gigantes brotam do solo. Sua exuberância desafia uma antiga crença sobre a Amazônia. Por grande parte do último meio século, arqueólogos viam a floresta tropical sul-americana como "ilusão de um paraíso", cujo ambiente inóspito impedia o desenvolvimento de sociedades complexas.

Marion Lloyd/The Boston Globe

Pesquisador Eduardo Neves mostra as alterações nas camadas do solo
Mas uma nova pesquisa sugere que povos pré-históricos encontraram formas de superar as limitações naturais da floresta e prosperar em grandes números.

O segredo, dizem os proponentes da teoria, está no solo sob seus pés. O solo altamente fértil chamado de "terra preta de índio", ou foi criado intencionalmente por estes povos pré-colombianos ou é um subproduto acidental de sua presença.

A pesquisa tem implicações não apenas para a história, mas para o futuro da floresta tropical amazônica.

Se os cientistas puderem descobrir como os ameríndios transformaram o solo, agricultores poderão usar a tecnologia para maximizar a produtividade de áreas menores de terra, em vez de desmatarem áreas cada vez maiores de floresta. Os benefícios deste "presente do passado" já são conhecidos pelos agricultores da região, que plantam suas culturas sempre que encontram terra preta.

"Foi feita pelos índios pré-colombianos e ainda é fértil", disse Bruno Glaser, um químico de solo da Universidade de Bayreuth, na Alemanha, que recentemente coletou amostras de terra preta perto de Iranduba, uma cidade na floresta. "Se soubermos como fazer isto, seria um modelo para a agricultura de toda a região."

Este solo especialmente modificado está espalhado por milhões de hectares na floresta tropical amazônica, em algumas áreas cobrindo 10% do solo. E geralmente está repleta de cacos de vasos de barro e outros sinais de habitação humana.

"Nós acreditamos que não havia apenas sociedades tribais aqui, mas sim sociedades complexas, e estamos fornecendo a prova", disse James B. Petersen, um arqueólogo da Universidade de Vermont que passou a última década trabalhando na Amazônia brasileira. Sua equipe de arqueólogos americanos e brasileiros, que chama a si mesmo de Projeto Amazônia Central, escavou mais de 60 sítios ricos em terra preta perto da cidade de Manaus, onde os rios Negro e Solimões se unem para formar o Rio Amazonas.

Em alguns dos sítios, vários quilômetros quadrados de terra estão repletos de milhões de cacos de potes de barro. Os arqueólogos também citam evidências de praças gigantes, pontes e estradas, completas com meio-fio, e fossos defensivos que teriam exigido exércitos de operários para serem construídos.

Os sinais mais antigos de grandes populações sedentárias parecem coincidir com o início da terra preta. "Algo aconteceu por volta de 2.500 anos atrás, e não sabemos o quê", disse Eduardo Neves, um arqueólogo brasileiro da Universidade Federal de São Paulo, que é co-diretor do Projeto Amazônia Central.

Os cientistas estão trabalhando para determinar se a terra preta, que contém altos níveis de matéria orgânica e carbono, surgiu por acidente ou foi produto de um esforço deliberado para melhorar o notoriamente pobre solo da floresta tropical.

A pesquisa da terra preta alimenta uma "escola revisionista" de cientistas, que argumentam que a Amazônia pré-colombiana não foi uma selva virgem, mas uma floresta povoada de seres humanos. Eles argumentam que sociedades avançadas existiam na região desde antes de Cristo até um século após a conquista européia nos anos 1500, que dizimou as populações ameríndias por meio da exploração e doença.

A teoria também é apoiada por relatos dos primeiros europeus que percorreram a extensão do Rio Amazonas em 1542. Eles relataram assentamentos humanos com milhares de pessoas se estendendo por muitos quilômetros ao longo das margens do rio.

Ilusão de um Paraíso

Nem todos que trabalham na pesquisa amazônica aceitam a nova teoria.

"A idéia de que a população indígena tinha segredos que desconhecíamos não é apoiada por qualquer evidência exceto o desejo de que seja verdade e o mito do El Dorado", disse a arqueóloga Betty J. Meggers, que é a principal defensora da idéia de que apenas pequenas sociedades tribais habitaram a Amazônia. "Este mito continua voltando e voltando. É impressionante."

Meggers, que é diretora do Programa de Arqueologia Latino-Americana do Museu de História Natural do Instituto Smithsoniano, em Washington, passou sua vida tentando provar que a floresta tropical amazônica é um ambiente singularmente hostil e sem obstáculos. Atualmente com 82 anos, seu impacto no campo data do final dos anos 40, quando ela foi pioneira no trabalho de campo na Ilha de Marajó (PA), na boca do Rio Amazonas.

Seu livro de 1971, "Amazônia: A Ilusão de um Paraíso", converteu suas posições em evangelho para uma geração de arqueólogos amazônicos. Nele, ela argumenta que os grupos ameríndios modernos, geralmente compostos de poucas centenas de pessoas, seguem práticas ancestrais de infanticídio e outros métodos de controle populacional para existir em um ambiente hostil.

"Ele teve um impacto imenso. Virtualmente toda classe de Antropologia 1 leu aquele livro", disse Susanna B. Hecht, uma geógrafa da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que passou três décadas estudando as práticas tradicionais de agricultura na Amazônia.

Durante um recente estudo dos modernos índios caiapós na região central do Brasil, ela ficou surpresa ao descobrir que eles estavam criando uma versão da terra preta, queimando o excesso de vegetação e ervas daninhas, e misturando o carvão no solo. A prática confirmou a crença de Hecht de que os índios herdaram técnicas que os permitiam plantar a longo prazo no solo da floresta tropical.

Hecht disse que a técnica provavelmente era mais sofisticada e mais disseminada antes das sociedades indígenas terem sido devastadas pela chegada dos europeus, que trouxeram consigo sarampo, tifo e outras doenças para as quais os índios não tinham resistência. Segundo algumas estimativas, 95% dos ameríndios morreram no período dos primeiros 130 anos de contato. Atualmente há cerca de 350 mil ameríndios vivendo no Brasil.

"Eu acho que devia haver populações muito densas, e o que ocorreu foi um verdadeiro holocausto em várias formas", disse ela. Mas pouco se sabia sobre o impacto destas epidemias quando Meggers começou a escrever seu trabalho, notou Hecht, e seus argumentos persuasivos contra grandes civilizações desencorajaram os arqueólogos a sondarem mais profundamente a Amazônia.

Mas alguns pesquisadores contestaram as teorias de Meggers desde o início, argumentando que as civilizações pré-colombianas modificaram seu ambiente para agricultura em grande escala. Outros foram ainda mais longe, sugerindo que os povos amazônicos podem ter criado enormes cidades que rivalizavam com as dos astecas e maias.

"Há um certo estardalhaço em torno da magnitude, de dezenas de milhares, centenas de milhares até milhões", disse William I. Woods, um geógrafo da Universidade do Kansas que trabalhou extensamente na região. "Mas eu não acho que há muitos estudiosos que têm qualquer problema com a existência de sociedades complexas e muitas pessoas sendo sustentadas por longos períodos em vários locais da Amazônia." Apenas uma sociedade complexa poderia tornar fértil o solo tropical George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos