Democratas devem usar moral e fé, diz Kennedy

Rick Klein
Em Washington

O senador democrata Edward Kennedy exortou nesta quarta-feira (12/01) seus companheiros de partido a abraçarem valores morais no combate ao presidente Bush e os republicanos no Congresso, argumentando que os democratas devem enunciar melhor os princípios que os guiam e reestruturar a discussão nacional em torno de valores para não correrem risco de maiores derrotas eleitorais.

Em um discurso no Clube Nacional de Imprensa, Kennedy não atribuiu a culpa pela derrota na eleição presidencial de 2 de novembro ao seu conterrâneo de Massachusetts, o senador John F. Kerry. Mas Kennedy deixou claro sua decepção pela forma com que os democratas evitaram os debates sobre valores morais, e exigiu que os membros do partido falem mais sobre seus próprios valores morais ao discutirem assuntos como a guerra no Iraque, Seguro Social, educação e aborto.

"Nós temos que realizar um melhor trabalho de olhar dentro de nós mesmos e expressarmos os princípios em que acreditamos, e os valores que são a base de nossas ações", disse Kennedy. "Nós fomos descuidados ao não falar mais diretamente sobre eles --sobre os ideais fundamentais que guiam nossas políticas progressistas (...) Diferente do Partido Republicano, nós acreditamos que nossos valores nos unem como americanos, em vez de nos dividirem."

Kennedy, uma das principais vozes liberais no Congresso e um veterano de 42 anos no Senado, ofereceu seu conselho aos democratas em um momento de incerteza no partido. Além da derrota de Kerry, os democratas perderam cadeiras na Câmara e no Senado, e um debate está fervendo dentro do partido sobre se os democratas devem se deslocar para a esquerda ou para a direita --voltar à base liberal e oferecer um claro contraste aos republicanos, ou se voltar mais para o centro político, segundo o modelo de Bill Clinton.

Ao esboçar uma agenda de cobertura universal de saúde, bolsas universitárias para todos que precisem, forte oposição à guerra no Iraque e proteção aos direitos de aborto, Kennedy defendeu solidamente o primeiro caminho. Ele disse que a vitória de Bush sobre Kerry foi estreita demais para que possa alegar "até mesmo um mandato miniatura", e disse que as eleições de 2004 foram mais parecidas com as campanhas disputadas de 2000 do que com as de 1994, quando os republicanos conquistaram a Câmara e o Senado em uma onda eleitoral de costa a costa.

Mas após uma eleição na qual os eleitores, ao serem questionados pelas pesquisas de boca-de-urna sobre o que mais influenciou sua decisão, classificaram "valores morais" acima da economia, Kennedy também está pedindo para que os democratas sigam o exemplo do manual republicano, tendo apelo junto aos eleitores por meio de valores compartilhados. Sobre o aborto, por exemplo, os democratas podem se desviar das divisões se enfatizarem programas que visem reduzir o número de gravidezes indesejadas, disse ele.

"Há uma forma da América encontrar um ponto de acordo nesta questão", disse Kennedy. "Certamente todos nós podemos concordar que o aborto deve ser raro, e que todos devemos fazer tudo o que pudermos para ajudar as mulheres a evitarem a necessidade de enfrentar tal decisão."

Kennedy disse que os democratas se saíram mal não porque possuem valores errados, mas porque fracassaram em descrevê-los adequadamente. Ele disse que Bush "promove falsamente quase toda questão como sendo uma crise", citando o Iraque e o Seguro Social, que Bush está tentando reformar com contas privadas.

"Eles exploram as políticas do medo e da divisão, enquanto nossas políticas são da esperança e unidade", disse Kennedy. "Diante das táticas deles, nós não podemos conduzir nosso partido ou nossa nação sob cores pálidas ou vozes tímidas."

Política e fé

Apesar de Kennedy não ter mencionado religião em seu discurso, ele se juntou a um grupo crescente de ativistas liberais para encorajar os democratas a usarem valores morais para melhorar suas chances eleitorais.

Nas últimas semanas, em uma série de encontros privados para membros democratas da Câmara e do Senado, o reverendo Jim Wallis, um autor evangélico e ativista, disse aos legisladores para se definirem como protetores da classe trabalhadora e dos destituídos, e não permitirem que os republicanos se tornem os detentores exclusivos da religião e dos valores morais.

Mas os democratas enfrentam a tarefa difícil de convencer os eleitores de que seu partido é o da religião e da moralidade. Além das questões do aborto e do casamento gay, onde muitos conservadores culturais entram em choque com a ortodoxia democrata, os eleitores associam amplamente os democratas com grupos que consideram anti-religiosos, disse Gary Bauer, um ativista conservador e ex-candidato presidencial do Partido Republicano.

"Na mente de muitas pessoas no interior, os democratas estão associados com as duas costas, e com centros de poder que são percebidos como sendo anti-religiosos --Hollywood, o mundo acadêmico e a União Americana das Liberdades Civis", disse Bauer.

"Enquanto estes lugares continuarem sendo uma grande base de fundos para o Partido Democrata, será muito difícil convencer os batistas do Sul no Alabama, ou o crente pentecostal em Saint Louis, de que o Partido Democrata nacional é o partido que compartilha seus valores." Para o senador, os republicanos venceram por manipular os valores George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos