Manifestação reúne cerca de 1 milhão em Beirute

Charles A. Radin
Em Beirute

Na segunda-feira (14/03), mais de um milhão de pessoas foram até à Praça dos Mártires na capital libanesa exigir que os assassinos do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri sejam levados à Justiça, que a Síria abra mão do controle sobre o Líbano, e que observadores internacionais garantam a honestidade das eleições parlamentares que estão por vir.

Norbert Schiller/The New York Times

Cerca de 1 milhão de libaneses foram às ruas da capital, situada às margens do Mar Mediterrâneo, para indicar que a maioria rejeita a presença síria
Oradores que falaram no palanque e vários manifestantes pediram em voz alta a renúncia do presidente Emile Lahoud, um inimigo de Hariri que apóia intensamente a Síria.

Todos concordaram que o protesto atingiu facilmente a meta dos organizadores --suplantar em tamanho uma manifestação favorável à Síria e ao governo realizada na última terça-feira pelo grupo islâmico armado Hezbollah.

A maioria dos observadores disse que aquela manifestação não reuniu mais de 500 mil pessoas. Os números são de uma importância vital para a tensa e rapidamente mutante situação política do Líbano. Logo após o comício do Hezbollah, Lahoud renomeou Omar Karami como primeiro-ministro.

Ele havia sido obrigado a renunciar devido aos protestos pelo assassinato de Hariri, há exatamente um mês. "O comparecimento à manifestação do Hezbollah provou a nossa legitimidade por meio da popularidade nas ruas", disse Karami.

Ativistas favoráveis à soberania do país e que lideraram a manifestação desta segunda-feira disseram que a alegação de Karami, já enfraquecida pelas imagens de televisão mostrando sírios sendo transportados de ônibus para aumentarem o tamanho da manifestação do Hezbollah, foi desmentida, quando libaneses de todos os credos, idades e profissões, e de todas as regiões do país, se reuniram para exigir democracia, soberania e a expulsão dos sírios.

"Hoje estamos demonstrando que existe uma nova legitimidade no Líbano", disse Samir Franjieh, líder da oposição parlamentar ao controle sírio. "Amanhã daremos início a uma nova conversação com o Hezbollah sobre o período de transição".

Franjieh disse que a oposição continuará rejeitando as exigências de Karami e de Lahoud no sentido de que faça parte de um governo de união nacional. "Não negociaremos com este Estado", afirmou. "É um Estado sírio que está acabado".

"O processo que se desenrola no Líbano é a primeira transição popular e democrática no mundo árabe. Antigamente o Líbano era um modelo de violência que foi exportado para o mundo árabe. Agora somos um modelo de paz e de democracia, e estamos exportando isso para o mundo árabe", acrescentou Franjieh.

A Rede de Teledifusão Libanesa avaliou que um milhão de pessoas participaram da manifestação, e as reportagens da mídia afirmaram que a polícia, reservadamente, admitiu que esse era o tamanho da multidão. Não foi divulgada uma estimativa oficial do número de participantes.

O maior e mais antigo jornal do Líbano, o "Al Nahar", que apóia o movimento da oposição, afirmou que fotos de segmentos da multidão indicam que participaram da manifestação quase dois milhões de pessoas.

Isso teria significado que quase a metade da população do país estava no comício ou nos congestionamentos de quilômetros provocados pelas pessoas que tentavam chegar ao centro de Beirute para participar do evento.

Nayla Mouawad, uma cristã maronita integrante do parlamento, que teve o marido assassinado no início dos anos 90, disse à massa: "Vocês estão criando a nossa independência com a sua presença aqui... Estamos felizes por sermos árabes, pessoas cujas identidades se fundamentam na democracia e na liberdade, e não na inteligência secreta e nos assassinatos".

Mas é fato amplamente reconhecido no Líbano que essa ansiada transição não foi alcançada. O comício foi feito a despeito da advertência de Lahoud de que tais manifestações, que não param de acontecer desde o assassinato, devem cessar.

"Se eles quiserem continuar a fazer manifestações de uma praça a outra, é bom saber que uma granada ou um pequeno rojão lançado na multidão por um potencial sabotador criaria uma catástrofe de dimensões trágicas", disse Lahoud em uma reunião na Associação Libanesa de Jornalismo, no sábado, evocando a calamitosa guerra civil libanesa, de 1975 a 1990, na qual drusos, muçulmanos e cristãos lutaram em diversas ocasiões uns contra os outros.

Lahoud é cristão, mas ele é praticamente o único cristão proeminente a levantar a voz a favor da Síria. O seu mandato expirou no ano passado, mas ele foi mantido no cargo pelos sírios, uma ação que muita gente acredita ter levado aos eventos que culminaram com o assassinato de Hariri.

Hariri renunciou ao cargo de primeiro-ministro após agentes sírios obrigarem o parlamento libanês a prorrogar o mandato de Lahoud, e se aproximou politicamente daqueles que defendem que a Síria se afaste das questões libanesas.

Alguns membros do movimento pela soberania temem que uma provocação --por exemplo, um atentado contra os manifestantes como aquele descrito por Lahoud, ou um ataque à fronteira norte de Israel-- possa ser praticada nos próximos dias para fomentar o caos, recriar as emoções e medos do período da guerra civil, e justificar a permanência síria no Líbano.

Mas eles dizem também que tal medida poderia ter um efeito contrário, como ocorreu no caso do assassinato de Hariri.

"É vergonhoso, inacreditável, que Lahoud tenha dito tais coisas", afirmou Chakib Qortobawi, ex-presidente da Associação de Advogados de Beirute. "Se os manifestantes forem feridos, todos os libaneses dirão que Lahoud é o responsável".

Marwan Hamedi, aliado de Hariri no parlamento, que por pouco escapou de uma tentativa de assassinato um mês antes de Hariri ser morto, disse à multidão no comício que os sírios e Lahoud são os responsáveis pela morte do ex-primeiro-ministro e que "com esse assassinato eles deram um fim a si mesmos".

Provocando o clamor da enorme multidão, ele leu os nomes de outros líderes populares libaneses mortos em atentados a bomba no decorrer da acidentada história moderna do país. "A verdade é clara, apesar do que Lahoud está dizendo", afirmou. "O mundo todo sabe. A evidência está sendo coletada; o mundo se prepara para julgá-los".

Dirigindo-se a Lahoud, ele disse: "Esse é o fim da sua era".

Orgulho e altas expectativas com relação ao futuro estavam presentes na multidão castigada pelo sol e que agitava bandeiras, reunida na Praça dos Mártires, tendo como pano de fundo o Monte Líbano, de cume nevado.

Logo atrás estavam os edifícios marcados por tiros de artilharia, que Hariri não teve tempo de reformar. Todos os cartazes e slogans pediam a saída da Síria, mas alguns o faziam com uma dose de humor. Um cartaz trazia uma gravura do uísque Johnie Walker, com uma frase aos ocupantes: "Keep on walking" ("Continuem andando").

Muitos participantes, como Ibrahim Araji, 54, fazendeiro que usava roupas limpas, mas velhas, morador da zona leste do Vale Bekaa, disse que essa foi a primeira vez que participou de uma manifestação.

Araji, que trouxe a mulher e cinco filhos, tendo caminhado os últimos dois quilômetros para participar daquilo que ele estava certo de que seria um evento histórico, ficou surpreso por algumas pessoas lhe perguntarem por que veio. "Somos libaneses", explicou. "Não queremos as tropas sírias aqui". Ele não quis dizer a sua religião. "Agora, não nos preocupamos com religião. Queremos liberdade".

Membros de um grupo de amigos, todos com 15 anos, da Escola São José, em Bifaya, disseram que perderam as provas finais e, conforme afirmou Joanna Haddad, "vieram para salvar o Líbano".

"Crescemos ouvindo como os nossos pais não conseguiram terminar a escola ou realizar os seus sonhos e atingir suas metas devido aos vários conflitos do Líbano. Estamos aqui para garantir que a geração que virá não seja como as gerações de nossos pais e avós", afirmou Michael Tawil, adolescente integrante do grupo.

Khalil Itani, 32, disse ter vindo por um motivo --para apagar a impressão deixada pela grande manifestação do Hezbollah na semana passada, que o enfureceu porque, segundo ele, a multidão estava cheia de sírios e muçulmanos xiitas que vieram por orientação dos seus líderes religiosos.

Jebran Tueni, editor-chefe do "Al Nahar" e líder do movimento pela soberania, disse que o alto comparecimento foi motivado por Lahoud e pelo xeque Hassan Nasrallah, líder do movimento xiita Hezbollah.

"Não queremos ficar brincando de números", disse Tueni. "Mas quando as pessoas viram que o regime estava tentando dizer ao povo que o Líbano quer tal regime e a presença síria, saíram às ruas para dizer 'não'".

Mais tarde, do alto do palanque, Tueni liderou a multidão, fazendo-a jurar --primeiro em nome de Deus, depois da comunidade cristã, e a seguir da comunidade muçulmana-- que o Líbano ficará unido e soberano para sempre. A cada vez que lia um juramento, centenas de milhares de vozes bradavam: "Eu juro, eu juro". Objetivo era demonstrar que opositores à Síria são maioria no país Danilo Fonseca

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