Obesidade já ameaça os ganhos de longevidade

Raja Mishra
Em Boston

A obesidade se tornou uma ameaça a saúde tão disseminada que, até a metade deste século, poderá reverter o longo e constante aumento da expectativa de vida nos Estados Unidos, informou uma equipe de cientistas em um estudo provocador que será publicado nesta quinta-feira (17/03).

A epidemia de obesidade entre as crianças levará a um aumento das doenças cardíacas, derrames, diabetes e câncer --doenças que podem encurtar drasticamente o tempo de vida-- e eventualmente começarão a compensar os ganhos de longevidade promovidos pelos avanços na medicina, escreveram os autores no "New England Journal of Medicine".

As previsões deles são controversas, e um editorial na mesma edição chama o estudo de "excessivamente pessimista".

Mas o novo estudo poderá ter implicações no atual debate sobre a Previdência Social. Os autores dizem que o futuro fardo sobre a previdência não será tão grande quanto o presidente Bush e outros têm alertado, porque os idosos não viverão tanto quanto o governo tem previsto. Mas as complicações relacionadas à obesidade aumentarão os gastos do governo com programas de saúde.

O aumento da expectativa de vida foi um dos maiores triunfos do século 20, à medida que avanços variando de vacinas e antibióticos até melhores condições sanitárias adicionaram três décadas ou mais ao tempo de vida médio em muitos países desenvolvidos.

Guerras e pragas historicamente causavam perdas na expectativa de vida nacional, e os autores do estudo retrataram a obesidade disseminada como um cataclisma semelhante.

"Ela pode ser comparada a um enorme maremoto avançando na direção dos Estados Unidos", disse o dr. David Ludwig, um especialista em obesidade do Children's Hospital Boston e um dos autores do estudo. "Se você esperar até poder ver o oceano avançando para a praia, será tarde demais para fazer algo."

A obesidade já está reduzindo a expectativa de vida nos Estados Unidos em até nove meses, revelou o estudo. Apesar de aparentemente parecer trivial, o número significa que a obesidade já reduz a expectativa de vida mais do que homicídios, suicídios e acidentes fatais combinados, apesar de outras tendências continuarem empurrando o número para cima.

Mas eventualmente no século, à medida que milhões de crianças obesas envelhecerem, a obesidade poderá reduzir a expectativa de vida nos Estados Unidos em dois a cinco anos, podendo sobrepujar as tendências positivas e resultar em uma queda líquida na expectativa de vida, previu o estudo.

Alguns especialistas em demografia disseram que o estudo é exageradamente pessimista, argumentando que novos tratamentos médicos, a diminuição do número de fumantes e a melhora dos níveis de educação continuarão a empurrar a expectativa de vida para o alto pelo restante do século.

Richard Suzman, diretor associado de pesquisa social e comportamental do Instituto Nacional para o Envelhecimento, considerou as conclusões do estudo "plausíveis mas improváveis".

"Eu acho que a obesidade é apenas um de um grande número de outros fatores, e que provavelmente, apesar de não necessariamente, eles compensarão o aumento da obesidade", disse Suzman, cuja agência tem financiado trabalhos que projetam a expectativa de vida.

Os autores do estudo disseram que a reversão da longevidade descrita por eles não é inevitável. Ludwig disse que seria necessária uma "mudança fundamental" para reduzir a obesidade, incluindo reformas no cardápio das escolas e políticas de educação física, regulamentações mais severas na propaganda de alimentos, ampla educação nutricional e um maior gasto no tratamento da obesidade.

"Infelizmente, nós carecemos de qualquer coisa que lembre uma estratégia nacional para a obesidade infantil", disse Ludwig.

A expectativa de vida é o número médio de anos que um recém-nascido pode esperar viver. No mês passado, as autoridades federais de saúde anunciaram que a expectativa de vida nos Estados Unidos em 2003 foi de 77,6 anos. Em 1900, era de 47,3 anos.

A expectativa de vida tem crescido nos últimos anos, à medida que os índices de morte por câncer e problemas cardíacos têm decrescido. Mas o novo estudo prevê que esta tendência terminará.

"Nós achamos que a expectativa de vida continuará subindo por aproximadamente cinco a 10 anos, mas depois disto, quando as crianças obesas começarem a chegar aos seus 20 e 30 anos, a mortalidade induzida pela obesidade começará a ter impacto", disse o dr. S. Jay Olshansky, um professor de saúde pública da Universidade de Illinois, em Chicago, e principal autor do estudo.

Ele disse que a expectativa de vida estagnará por algum tempo e então começará a declinar próximo da metade do século, apesar de ter dito ser difícil estimar precisamente quanto isto acontecerá.

O rápido crescimento das taxas de obesidade, particularmente entre as crianças, são a principal força por trás da previsão. A obesidade praticamente triplicou entre as crianças americanas nas últimas três décadas, segundo estatísticas federais.

Em 2000, mais de 15% das crianças com idades entre 6 e 19 anos eram obesas. Mesmo os mais jovens são afetados: 10% das crianças com idades entre 2 e 5 anos eram obesas, o dobro de três décadas atrás.

Entre os adultos americanos, a obesidade aumentou em cerca de 50% por década entre 1980 e 2000. Dois terços dos adultos americanos atualmente estão acima do peso ou obesos.

Pessoas obesas enfrentam riscos elevados de doenças cardíacas, diabete, câncer e outros males. Um estudo anterior estimou que a obesidade reduz o tempo de vida entre cinco e 20 anos.

Os pesquisadores pegaram este e outros dados sobre os riscos da obesidade e os combinaram com dados demográficos para calcular que a expectativa de vida nos Estados Unidos seria de quatro a nove meses maior em 2000 caso a obesidade tivesse sido eliminada.

Os pesquisadores previram que a obesidade reduzirá a expectativa de vida nos Estados Unidos em dois a cinco anos, "aproximadamente o equivalente ao impacto e todos os cânceres combinados", disse Ludwig.

O dr. Frank Hu, um especialista em nutrição e epidemiologia da Escola de Saúde Pública de Harvard e que não esteve envolvido no estudo, disse que os novos resultados deveriam servir como um chamado de despertar para os americanos.

"Como uma sociedade, nós nos tornamos conscientes da epidemia de obesidade", disse ele, "e não é tarde demais para fazermos algo a respeito". Gordura pode causar tantas mortes quanto cataclisma, diz estudo George El Khouri Andolfato

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