Políticos norte-americanos tentam conquistar eleitorado católico dividido

Susan Milligan
Em Washington

O presidente Bush, dois ex-presidentes e dezenas de membros importantes do Congresso, incluindo os dois senadores por Massachusetts, chegarão a Roma nesta semana unidos em torno de uma única mensagem: o papa João Paulo 2º foi um grande homem.

Em vida, o papa censurou com freqüência os políticos norte-americanos de ambos os partidos, criticando-os por apoiarem o direito ao aborto e a pena de morte, e pelo fracasso de uma nação tão rica em aliviar a pobreza doméstica e internacional. No ano passado, o papa deixou claro durante uma reunião com Bush no Vaticano que não apoiou a guerra contra o Iraque.

Mas apesar de suas diferenças políticas com o sumo pontífice, democratas e republicanos estão ansiosos por se apresentarem como herdeiros do legado de João Paulo 2º, fazendo um apelo a um eleitorado católico dividido que é capaz de decidir eleições.

"Para um liberal democrata ou um conservador republicano que querem os votos católicos, ir ao funeral é um bom negócio", diz John C. Green, professor especializado em religião e política da Universidade de Akron. Ele observa que os católicos estão em grande parte divididos quanto a suas simpatias políticas, sendo um bloco eleitoral tradicionalmente democrata que, não obstante, preferiu Bush ao candidato democrata John F. Kerry na eleição do ano passado.

O padre Robert Drinan, da Ordem dos Jesuítas, professor da Escola de direito da Universidade Georgetown e ex-integrante democrata do Congresso por Massachusetts, concorda. "O que eles querem é o voto católico".

Bush está fazendo um esforço sem precedentes para honrar a memória de João Paulo 2º, sendo o primeiro presidente em exercício da história a comparecer ao funeral de um papa. Além disso, ele organizará uma recepção para os bispos dos Estados Unidos enquanto estiver em Roma.

"Este é um momento de luto. E também um momento de honrar e celebrar a vida de um verdadeiro grande líder moral, o papa João Paulo 2º. E é por isso que estamos indo a Roma", disse nesta na quarta-feira (6/4) aos repórteres o secretário de Imprensa de Bush, Scott McClellan, após o presidente seguir para a Itália com o pai, George H. W. Bush, e Bill Clinton no avião presidencial Air Force One.

Cerca de 26 deputados federais e 14 senadores norte-americanos também comparecerão às cerimônias fúnebres de sexta-feira, em uma notável exibição de legisladores por parte de um país que nem sempre manteve um relacionamento muito caloroso com o Vaticano.

O ex-presidente Jimmy Carter declinou um convite para se juntar à delegação presidencial, e o ex-presidente Gerald Ford, 91, não está em condições de viajar.

Green observa que a ânsia dos políticos por mostrarem as suas afinidades com o Vaticano é um fenômeno recente. John F. Kennedy, o primeiro presidente católico do país, foi alvo de acusações de que seria controlado pelo Vaticano, e procurou rigorosamente separar o seu papel como presidente da sua fé pessoal.

"Mas agora os políticos dos dois grandes partidos não vêem problema em se aproximarem do Vaticano, e a atual geração de parlamentares fez dos assuntos de fé uma questão importante para a política e a governança", diz Green.

"No decorrer dos 40 anos desde a presidência de Kennedy, os temores populares quanto à influência do Vaticano diminuíram, em parte devido à maior "assimilação" dos católicos na sociedade norte-americana", explica Green. "Os católicos atualmente estão menos associados a uns poucos grupos étnicos".

Além disso, protestantes e católicos se aproximaram devido a posições políticas e sociais em comum em questões como o aborto.

Os republicanos, no entanto, recentemente têm se revelado mais eficientes do que os democratas quando se trata de definir os valores cristãos e os ensinamentos católicos como sendo seus, segundo analistas e legisladores dos dois partidos.

Após décadas de domínio democrata dos votos católicos, o presidente Bush venceu entre esse eleitorado em 2000 por sete pontos percentuais, e no ano passado por 14 pontos percentuais, segundo um recente estudo realizado pelo especialista democrata em pesquisas de opinião Stan Greenberg.

Muitos eleitores católicos apoiaram Bush nas questões de segurança nacional, apesar da oposição do papa à guerra no Iraque. Mas Bush enfatizou as suas áreas de concordância com o papa, incluindo a limitação das verbas para as pesquisas com células-tronco e a oposição ao aborto.

O presidente não se acanha em expressar a sua crença religiosa até mesmo de forma oficial. A sua mensagem de Páscoa à nação, divulgada pelo seu secretário de Imprensa, começava com uma citação da Bíblia e continuava com fortes declarações religiosas.

"Durante esta temporada sagrada, agradecemos a Deus pelas suas bênçãos e pedimos que ele nos guie e nos forneça a sua sabedoria", dizia a declaração. O presidente também procurou financiar organizações fundamentadas na fé que fazem obras de caridade.

A religiosidade inabalável de Bush trouxe ao presidente tanto o respeito dos conservadores religiosos quanto a ira dos liberais que acreditam que ele trouxe de forma inapropriada a religião para dentro do governo --tendo-o feito de forma seletiva.

"Com todo o respeito, George Bush não conhece muito o cristianismo. Ele está usando a religião", critica Drinan. "A oposição de Bush ao controle de armamentos e o apoio à pena de morte são coisas que simplesmente ofendem o cristianismo".

O próprio Drinan foi afastado da política pelo papa João Paulo 2º, que decretou em 1980 que os padres católicos deveriam se retirar das atividades políticas. Embora a ordem tivesse natureza genérica, para Drinan, que apóia o direito ao aborto, ela pareceu ter sido direta.

Agora, Drinan se uniu a outros democratas ao afirmar que o partido precisa assumir como seus os valores católicos, apontando para a necessidade da caridade e da compaixão para com os pobres.

O senador Edward M. Kennedy, por exemplo, democrata por Massachusetts, disse que os democratas deveriam estar avaliando o efeito que os cortes propostos no Medicaid, um programa de saúde voltado para os pobres, terá sobre os cidadãos necessitados do país. Mas os republicanos ainda estão tendo mais sucesso em utilizar os valores religiosos para sua vantagem eleitoral e política, disse o senador em uma entrevista.

"Este país é patriota. É religioso. É voltado para a família. Os republicanos têm sido muito eficientes em afanar essas bandeiras dos democratas", afirmou Kennedy, que é católico. "E os democratas não têm sido muito eficazes quando se trata de recuperar essas bandeiras, não sei por que motivo".

O colega de Kennedy no Senado por Massachusetts, Kerry, também é um católico que durante a campanha presidencial foi à missa todos os domingos --mas que ainda assim se viu na defensiva nas questões religiosas.

Kerry apóia o direito ao aborto, o que levou um líder da igreja durante a campanha a dizer que não se deveria permitir que o senador recebesse a eucaristia na igreja. O fato de ter problemas com alguns líderes da igreja tornou difícil para Kerry falar sobre religião da mesma forma que Bush.

Alguns democratas pediram ao partido que seja mais tolerante com os eleitores contrários ao aborto. O Partido Republicano, por exemplo, tolera uma ala que apóia o aborto, embora a plataforma do partido seja antiaborto. Greenberg recomendou na sua análise que os democratas se empenhem mais em se apresentar aos católicos como sendo o partido da classe média, enfatizando a "responsabilidade pessoal" e a dedicação à família.

O apoio à pena de morte --que tem sido importante para os candidatos que procuram conquistar os eleitores que desejam a lei e a ordem-- também parece estar diminuindo entre alguns eleitores. Um estudo recente conduzido pela Zogby International revelou que 48% dos católicos apóiam a pena de morte, e que 47% se opõem a ela. O apoio à pena de morte já chegou a 68% em pesquisas de opinião passadas.

Até mesmo o senador Rick Santorum, republicano católico e conservador da Pensilvânia que tentará se reeleger no ano que vem, sugeriu recentemente que está ficando mais flexível quanto a essa questão. "Concordo com o papa quando ele diz que no mundo civilizado a aplicação da pena de morte deveria ser limitada", disse Santorum no mês passado ao jornal "Pittsburgh Post-Gazette".

Na noite de quarta-feira Santorum seguiu para Roma para o funeral do papa. Republicanos têm sido mais eficazes no uso de bandeiras da igreja Danilo Fonseca

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