Republicanos permitem inquérito sobre DeLay

Sussan Milligan
Em Washington

Republicanos da Câmara, cedendo à forte pressão política, concordaram nesta quarta-feira (27/04) com uma mudança nas regras que libera o caminho para uma investigação do líder da maioria da Câmara, Tom DeLay.

"Precisamos seguir adiante. Precisamos ultrapassar isso", disse o presidente da Câmara, J. Dennis Hastert, republicano de Illinois, explicando a mudança nas práticas de investigação de congressistas. Depois do anúncio de Hastert, a Câmara aprovou a medida por 406 votos contra 20, na quarta-feira à noite.

DeLay, acusado de ter violado as regras da Câmara viajando ao exterior com as contas pagas por lobistas, disse na quarta-feira à tarde que estava contente que o Comitê de Ética voltaria ao trabalho.

"Espero um processo justo, uma oportunidade de limpar meu nome em um foro apropriado", disse o influente republicano do Texas.

A medida aprovada pela Câmara na quarta-feira à noite reinstalou os regulamentos anteriores que permitem a investigação de um membro da casa mesmo que o Comitê de Ética esteja em um impasse sobre alguma questão de conduta --um cenário provável, uma vez que o conselho de 10 membros é igualmente dividido entre republicanos e democratas.

Em janeiro, os republicanos aprovaram a mudança nas regras, exigindo a aprovação da maioria do comitê antes de prosseguir com uma investigação. Assim, qualquer partido podia impedir um inquérito sobre a conduta de um colega e DeLay ficava efetivamente protegido.

A decisão de voltar às regras antigas é um recuo dos republicanos, que vêm usando os procedimentos da Câmara para controlar a agenda legislativa.

Os republicanos disseram que ouviram as reclamações dos eleitores questionando seu compromisso com a ética e que a questão estava roubando a atenção das realizações legislativas do partido.

"Tom talvez não tenha quebrado a lei, mas esticou os limites da ética. As leis de ética devem se aplicar aos dois lados", disse o deputado Christopher Shays, republicano moderado de Connecticut que publicamente questionou a manutenção de DeLay no cargo de líder da maioria.

"A realidade é que aprovamos leis importantes e ninguém parece saber a respeito, porque Tom é a notícia", disse Shays. "Nós somos os culpados."

Os republicanos no Capitólio, ajudados pelo presidente Bush, conseguiram grande parte do que queriam nos últimos anos. O esforço para proteger DeLay --que é um dos mais poderosos congressistas do partido-- das investigações de ética gerou uma rebelião dos democratas.

Eles já estavam inquietos depois das ameaças dos senadores republicanos de acabar com a possibilidade de adiamentos das nomeações do presidente para cargos judiciais e das críticas dos conservadores a juizes antipáticos a sua causa.

"Eles estão exagerando. É um abuso de poder", disse a deputada Louise Slaughter, democrata de Nova York que participa do Comitê de Regras da Casa.

O Comitê de Ética agora está livre para iniciar a investigação oficial de DeLay, que foi repreendido três vezes no ano passado. DeLay foi admoestado por chamar o Departamento de Aviação (FAA) para interferir em uma briga na redistribuição dos distritos do Texas, por jogar golfe com executivos da energia enquanto o Congresso analisava uma lei para o setor e oferecer apoio à candidatura ao Congresso do filho do republicano Nick Smith, se este votasse a favor da lei de 2003 para o Medicare. Smith foi contra, mas o projeto de lei foi aprovado.

Os membros do conselho, sigilosos, recusaram-se até mesmo a discutir a possibilidade de investigação, mas o próprio DeLay indicou que gostaria de um inquérito; na quarta-feira, ele disse que planeja entregar voluntariamente ao comitê seus documentos relacionados às viagens e pedirá o esclarecimento da política de viagens da Câmara.

Hastert também sugeriu que esperava que o conselho estudasse o caso de DeLay. Ele disse que o Comitê de Ética precisava ser capaz de fazer seu trabalho porque outro congressista republicano estava sendo acusado e, por enquanto, não podia limpar seu nome.

Quando as regras para o Comitê de Ética mudaram, os democratas da Câmara fecharam-no em protesto. Desde então, os republicanos têm estado ansiosos para botá-lo de volta em funcionamento.

"A Câmara precisa de um Comitê de Ética operacional, e são os republicanos que estão tentando fazer isso acontecer", disse DeLay.

No entanto, a medida também foi um tropeço nos esforços dos republicanos de marginalizar os democratas em Washington.

Com a vantagem extraordinária de controlar a Casa Branca, a Câmara e o Senado, os republicanos usaram sua influência e força política para realizar grande parte de seu programa legislativo, inclusive cortes de impostos e novas restrições na lei de falências. No entanto, encontraram obstáculos recentemente em seus esforços para mudar as regras e aumentar seu controle sobre o Congresso.

No início do ano, os deputados republicanos foram forçados a desistir de uma mudança no regulamento que permitiria que DeLay continuasse como líder da Câmara mesmo que a investigação federal em curso no Texas leve ao seu indiciamento.

Senadores republicanos enfrentam a oposição pública em seus esforços para eliminar a possibilidade de adiamento de nomeações para o judiciário, o que tiraria da minoria democrata um de seus últimos instrumentos de resistência.

Mas democratas e analistas políticos disseram que os republicanos talvez tenham ido longe demais para conseguir o que querem -mudando as regras e criticando os juizes que decidem contra seus interesses.

"Os republicanos caíram em uma armadilha. É excesso de confiança. Como são a maioria, estão cheios de si, considerando-se imunes às críticas do público. Estão correndo o risco de criar uma reação", disse Stuart Rothenberg, analista político independente e editor do Rothenberg Political Report.

O deputado Barney Frank, democrata de Newton, disse que os problemas do partido republicano pareceram se agravar depois que se envolveu profundamente no caso de Terri Schiavo.

O caso era de uma mulher da Flórida com danos cerebrais que morreu recentemente, depois de uma longa batalha entre seu marido e seus pais para suspender sua alimentação por tubos.

Os republicanos no Congresso, invocando seu compromisso com a "cultura da vida", emitiram intimações judiciais para Schiavo em um último esforço de evitar uma ordem judicial de remoção dos tubos.

"São fanáticos com interesses radicais e não aceitam restrições em suas formas de atendê-los", disse Frank. "As pessoas que acham que estão trabalhando em nome do Senhor às vezes são menos abertas a aceitar restrições terrenas."

Michael Carvin, advogado de Washington que agilizou a nomeação de juizes conservadores, disse que havia uma sugestão no Senado de aguardar uma nomeação à Suprema Corte para propor a eliminação dos sistemas de protelação. Isso porque os republicanos acreditam que um adiamento democrata de tal nomeação poderia criar mais revolta pública.

Mas os republicanos não conseguem chegar a um acordo que não elimine a possibilidade de adiamento de nomeações ao judiciário, disse ele. "Agora, é uma questão da liderança do líder da maioria do Senado" --Bill Frist, do Tennessee-- "e do presidente", disse Carvin. "É uma questão de macheza." Deputado é um dos mais influentes políticos do partido de Bush Deborah Weinberg

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