Aliança entre negros e latinos pode decidir eleição para prefeito de Los Angeles

Brian Macquarrie
Em Los Angeles

Na política das grandes cidades, eleger um representante da própria etnia sempre foi um meio de as minorias se fortalecerem. Mas na segunda maior metrópole dos EUA, as divisões políticas em uma disputada eleição para prefeito estão dando lugar a uma rara e histórica aliança entre eleitores negros e latinos.

Esses eleitores, segundo as pesquisas, estão apoiando o vereador Antonio Villaraigosa em uma convergência de interesses que seria impensável quatro anos atrás, quando o candidato descendente de mexicanos foi derrotado nos bairros negros por James K. Hahn, o prefeito branco que procura se reeleger.

Agora, furiosos com a demissão de um chefe de polícia negro por parte de Hahn, e a sua substituição por William J. Bratton, o ex-comissário de polícia de Boston e Nova York, os moradores negros que deram a esse prefeito que está no seu primeiro mandato mais de 80% dos seus votos em 2001 estão migrando para Villaraigosa.

Ele exibiu uma dianteira de 20 pontos percentuais em relação a Hahn entre os eleitores negros em uma pesquisa do jornal "Los Angeles Times" feita entre 5 e 11 de abril, e contou com uma vantagem total por margem semelhante.

O turno final da eleição entre Hahn e Villaraigosa, ambos democratas, será em 17 de maio.

"Quando comparada à eleição passada, a situação atual é totalmente diferente", diz Harry P. Pachon, diretor do Instituto de Políticas Tomas Rivera, da Universidade do Sul da Califórnia, que estuda questões latinas em todo o país.

Também se constitui em um exemplo de poder o fato dessas duas minorias, que durante muito tempo mantiveram distância política, serem capazes de exercer influência quando atuam em conjunto. Os analistas dizem que só uns poucos dos antigos prefeitos de grandes cidades --David Dinkins, em Nova York, Harold Washington, em Chicago, e Federico Peña, em Denver-- se beneficiaram de uma coalizão negro-latina desse tipo.

A disputa eleitoral de Los Angeles também é vista como uma manifestação do poder político latino. Durante muito tempo prejudicados pelo baixo comparecimento às urnas e a má organização, os latinos nesta cidade e em outras regiões da Califórnia se transformaram em uma força formidável que pode prenunciar o seu crescente poder em outras partes do país.

"Isso agora é esperado", diz Pachon, se referindo aos nomes latinos nas urnas. "É parte da normalidade da política na Califórnia e não a exceção".

Embora os latinos não sejam mais estranhos nos cargos políticos locais --em 2004 eles ocuparam 30 cargos importantes no condado de Los Angeles--, faz 133 anos que não há um prefeito latino em Los Angeles.

Mas os fatores demográficos podem alterar essa situação. Os latinos representavam 46,5% da população da cidade em 2000, comparados a 39,9% em 1990, segundo o Censo dos Estados Unidos. Em todo o Estado da Califórnia, a população latina representava 30,8% do total em 2000, contra 26% em 1990.

Os negros, por outro lado, representam 11% da população de Los Angeles. Embora bem menor, o voto negro foi um fator importante para a vitória de Hahn sobre Villaraigosa em 2001.

Pachon também aponta para a "inevitabilidade demográfica" como sendo uma das razões para o apoio negro a Villaraigosa. Bernard C. Parks, o chefe de polícia negro demitido por Hahn, e que atualmente é vereador da cidade, cita o seu próprio distrito no sul de Los Angeles, um bairro historicamente negro que atualmente é 40% latino, como evidência do surgimento de uma nova ordem política.

"Conforme a cidade foi crescendo, percebemos que tal relacionamento se tornou natural", diz Parks, que apoiou Villaraigosa. Parks disputou uma vaga de prefeito nas primárias, ficando em quarto lugar mas obtendo 54% dos votos negros. Os dois candidatos mais votados se enfrentarão em um segundo turno.

Alguma cooperação entre negros e latinos já existiu anteriormente, diz Parks, mas nunca em uma disputa de dimensões tão grandes. Villaraigosa conta com o apoio de algumas figuras negras significativas: a deputada federal Maxine Waters, do sul de Los Angeles; a supervisora do condado de Los Angeles e ex-vereadora Yvonne Brathwaite Burke; e o ex-astro do basquete Earvin "Magic" Johnson.

O senador John F. Kerry, democrata por Massachusetts, apoiou Villaraigosa, um dos diretores da sua campanha presidencial, em um comício no último sábado.

A extensão do apoio negro nas bases eleitorais não será conhecida até o segundo turno da eleição. Pachon diz que negros e latinos continuam suspeitando uns dos outros nas ruas, e que a violência entre gangues ocasionalmente irrompe nas escolas.

Já os assessores de Hahn dizem esperar que ele obtenha 50% dos votos negros, que apoiaram entusiasticamente o seu pai, Kenneth, ex-superintendente do condado que foi eleito para o cargo por dez vezes, um recorde. Na pesquisa de intenção de voto realizada pelo "Los Angeles Times", Villaraigosa obteve 52% dos votos negros, contra 32% do prefeito.

Mas os eleitores negros podem ser vistos em vários comícios de Villaraigosa, incluindo aquele realizado na semana passada no nordeste de Los Angeles, no qual Tracy Gray-Barkin desfilou com um coiote "mestiço" vestido com uma camiseta de campanha de Villaraigosa.

"Na minha opinião Antonio defende os trabalhadores", afirmou Gray-Barkin, 42, analista de pesquisa de uma agência sem fins lucrativos. "E as duas comunidades são formadas por pessoas que trabalham com afinco na cidade".

Após o evento, Villaraigosa disse que durante toda a sua carreira procurou ser um formador de coalizões. "Em uma cidade como esta, que é a mais diversa etnicamente dos Estados Unidos, e talvez de todo o mundo, às vezes as pessoas não se falam entre si", afirmou.

Hahn, no entanto, governa a cidade em um período no qual o índice de criminalidade despencou e a região central, há muito tempo estigmatizada, tem passado por uma onda de progresso econômico. Morando próximo ao Parque MacArthur, que era infestado por usuários de drogas e membros de gangues, a ativista comunitária Sandra Romero elogia Hahn pela liderança que revelou ao rejuvenescer a área e reduzir a criminalidade.

"Faz dois anos que não ouço falar de um tiro sendo disparado no parque", afirma Romero, que é latina e diz ser neutra em questões raciais.

Hahn previu que venceria a eleição usando a mesma tática utilizada há quatro anos: ir até os eleitores e conversar com eles.

Embora o prefeito se gabe de um crescimento empresarial recorde, mais trabalhos e maior segurança, o seu governo vem sendo prejudicado por uma investigação em andamento, conduzida pela Procuradoria-Geral dos Estados Unidos, que procura apurar se os contratos firmados com o município foram influenciados por doações de campanha.

Villaraigosa enfrentou um problema similar na semana passada quando o procurador distrital anunciou uma investigação sobre uma possível lavagem de dinheiro envolvendo contribuições de duas companhias da Flórida que poderiam tentar obter concessões empresarias no Aeroporto Internacional de Los Angeles.

Observadores políticos e assessores das duas campanhas dizem acreditar que as complicadas alegações de irregularidades poderiam se neutralizar mutuamente na cabeça dos eleitores.

Isso deixaria Hahn em uma situação difícil para obter a reeleição, já que as pesquisas indicam que ele está bem atrás. "É irônico que o cara que salvou a cidade esteja lutando para se manter de pé quando nos aproximamos da linha de chegada", disse o chefe de polícia Bratton, quando saía de um jantar beneficente que custou US$ 300 por pessoa, ao qual Hahn compareceu com uma série de empresários, artistas e desportistas proeminentes.

Hahn, no entanto, também pode ser prejudicado pela reputação de indiferente que possui nos bairros menos afluentes da cidade, nos quais alguns moradores reclamam de que a única vez em que viram o prefeito foi durante a eleição.

"Ele não interage conosco", reclama Irene Ponce, uma latina que mora no bairro El Sereno, no norte da cidade. "Nas três vezes em que apertei sua mão, ele nunca me olhou nos olhos. Nós o convidamos para assistir ao nosso desfile, e ele nunca apareceu. Já Antonio sempre conversa com a gente".

O carisma pode ajudar um candidato a se eleger, mas o fato de interagir com o eleitorado é algo que também gera expectativas.

Se Villaraigosa vencer o segundo turno e for o primeiro candidato em 32 anos a desbancar um prefeito que tenta se reeleger, o futuro da aliança entre negros e latinos aqui dependerá da apresentação de resultados, afirma Pachon.

"Para o político latino eleito, a questão é ir de porta em porta", explica Pachon. "Agora ela dirá respeito ao seu desempenho no cargo". Democrata pode ser o primeiro mandatário latino após 133 anos Danilo Fonseca

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