Kerry faz campanha como se fosse político novo

Rick Klein
Em Baton Rouge, Louisiana

O hino de Bruce Springsteen, sua música tema, estava de volta: "No retreat, baby, no surrender" (não vamos bater em retirada, querida, não vamos nos render). As pessoas ficaram de pé antes mesmo de seu discurso começar. Atravessando a multidão, enquanto a música tocava, o senador John F. Kerry parecia estar novamente em campanha presidencial: andava em direção ao palco sorrindo, apertando mãos e levantando o polegar.

Rick McKay/Cox News Service

Senador democrata fala de seu projeto sobre saúde infantil em Washington
No entanto, o público era muito inferior às multidões que o democrata de Massachusetts atraía em seus últimos comícios de campanha, no outono.

Foram-se seu discurso contra a guerra de Bush no Iraque, suas reclamações contra a lentidão da economia e contra o programa republicano; até as menções a sua carreira no Senado e seu serviço no Vietnã desapareceram.

Em vez disso, Kerry --um político veterano que teve cargos eleitos por 21 anos-- tirou seu paletó e caminhou pelo pequeno palco na antiga Assembléia do Estado de Louisiana para promover uma nova mensagem: irrite-se com Washington.

"Washington parece cada vez mais distante das dificuldades que enfrentam as famílias comuns", disse Kerry a um grupo de aproximadamente 150 pessoas na semana passada em Baton Rouge. "Levem daqui um pouco de raiva e indignação diante do fato de que Washington não está tratando das verdadeiras preocupações de nosso país."

Seis meses depois de sua candidatura presidencial terminar em derrota, Kerry está em outra campanha nacional. Desta vez, está indo contra o establishment político.

É uma transformação impressionante para uma pessoa por tanto tempo identificada com a política. Entretanto, ele e seus assessores insistem que é sincera. Apesar de sempre ter prometido continuar na ativa depois de sua campanha presidencial, a intensidade de seus esforços tem sido surpreendente. Nos últimos anos, os candidatos à presidência derrotados nas urnas entraram em períodos de reclusão.

Em essência, Kerry está tentando reacender um fogo que nunca de fato queimou muito forte por sua candidatura presidencial e com ele buscar apoio para um projeto que está apresentando ao Congresso.

Ele envia informativos eletrônicos regulares para sua lista de três milhões de partidários. Seu novo comitê de ação política, em um grande espaço de propaganda no jornal USA Today de terça-feira passada, acusa Bush e líderes republicanos de ignorarem questões como o aumento da gasolina, crianças sem seguro médico e a falta de empregos de qualidade com bons salários.

"Eles acham que tudo é sobre eles", dizia o anúncio, por cima de retratos de Bush, do líder da maioria da Câmara, Tom DeLay, e do líder da maioria no Senado, Bill Frist. "Não os deixem esquecer o que realmente importa para você... faça Washington defender as necessidades e valores das famílias americanas."

Pode parecer estranho para um homem que está no Senado há mais de duas décadas --e que nunca foi conhecido por seu trabalho de corpo a corpo-- gritar contra políticos distantes.

Sua campanha presidencial concentrou-se mais em seu histórico, particularmente em seu serviço militar no Vietnã, do que nos defeitos de Washington. A tática que está adotando atualmente era mais do estilo de Howard Dean, hoje presidente do Partido Democrata, que tinha prometido "retomar os EUA" durante sua campanha pela candidatura democrata à Casa Branca.

Kerry insiste que simplesmente quer arregimentar apoio para seu projeto de lei "Kids First" (crianças primeiro) de cobertura médica para todas as crianças --apesar de admitir que é muito ambicioso para um Congresso controlado pelo Partido Republicano. Logo abaixo da superfície, porém, Kerry está tentando reabilitar sua imagem pública, caso haja outra campanha nacional em seu futuro.

Donna Brazile, consultora democrata que foi gerente de campanha do vice-presidente Al Gore à presidência, em 2000, disse que, como ex-candidato, é uma boa estratégia Kerry tentar basear seu novo perfil em uma questão caracteristicamente sua. Ele poderia dar mais atenção a uma questão política importante, disse Brazile, e assim expandir o número de questões que os eleitores identificam com ele.

"Ele tem um enorme capital político junto a vários grupos, e é um dos mais importantes líderes de nosso partido", disse ela. "Enquanto John Kerry continua a refletir sobre 2004 --e explorar opções para 2008-- é importante que ele entenda que as pessoas de fato não o conheciam na última campanha."

Entretanto, reformular sua imagem é difícil para um homem que está há tanto tempo na vida pública.

"Ele é o último político que as pessoas vão ver como estranho no ninho. Essa não cola. John Kerry concorreu à presidência e tem um longo histórico na política. Simplesmente não passa essa imagem de pessoa de fora", disse Jeffrey Berry, professor de ciências políticas da Universidade Tufts.

Mesmo assim, foi recebido com entusiasmo em Baton Rouge. A maior parte dos presentes foi chamada ao comício pela mala direta eletrônica de Kerry. Alguns deixaram claro que o senador teria que superar forte resistência, se quisesse entrar para outra campanha presidencial.

Frank Vine, psicólogo de 54 anos, estava no comício do Baton Rouge. Ele aprovou a nova mensagem, mas se pergunta se Kerry jamais chegará à presidência. "Eu o apoiaria, mas quero alguém elegível. Não tivemos muita sorte com liberais do Norte", disse ele, que mora no subúrbio de Zachary.

Em Baton Rouge, Kerry passou meia hora criticando os cortes de impostos para os ricos, o sensacionalismo na mídia e líderes eleitos cuja "tolice" e "falsidade" lamentavelmente levaram-nos a ignorar as necessidades de seus eleitores. Kerry transmitiu a mesma mensagem a três outros públicos na semana passada, em uma excursão por Seattle, Miami e Minneapolis.

Apesar de dizer que não tinha vindo a Louisiana para falar de sua derrota, o senador claramente ainda estava se recuperando da campanha de 2004. Orgulhosamente, ele observou que recebeu 10 milhões de votos a mais do que o presidente Clinton em sua campanha de reeleição de 1996. Além disso, Kerry sugeriu que as advertências de terrorismo alardeadas no meio da campanha foram exageradas para ajudar Bush.

"Combata as mentiras, combata as distorções", implorou Kerry à multidão. "Na última campanha, houve uma exploração inacreditável do medo --'guerra ao terror, guerra ao terror, guerra ao terror'. Quantos alertas tivemos desde as eleições?"

Kerry insiste que só está fazendo campanha para aprovar o projeto de lei, e não por sua carreira política. Sua concorrência à Casa Branca o fez ver que as pessoas sentem uma grande desconexão com o governo, e ele está tentando usar o poder de seus partidários para algo produtivo, disse ele.

"Criamos uma energia enorme, e não quero que se dissipe", disse Kerry em uma entrevista, pouco depois do comício em Baton Rouge. "Estou fazendo o que posso com as lições que aprendemos, com o apoio que construímos. Seria irresponsável se ficasse num canto me lamentando do que aconteceu."

Sua agenda das últimas semanas tem sido lotada, viajando não só para Estados que o apoiaram, mas para alguns que votaram decisivamente em Bush: Texas, Geórgia, Flórida e Louisiana. Seus eventos são freqüentemente associados a recepções de agradecimento aos ativistas e eventos de levantamento de fundos para candidatos locais.

Kerry está apresentando seu plano de saúde infantil como uma escolha simples para os congressistas: por um lado, podem tornar permanentes os recentes cortes de impostos para os que ganham mais de US$ 300.000 (em torno de R$ 750.000) por ano; por outro lado, podem usar os custos desses cortes para garantir a saúde de todas as crianças, principalmente pelo Medicaid. Essa, disse ele, é uma verdadeira questão de valores.

"Se levarmos a questão de comunidade em comunidade, podemos introduzi-la na agenda política", disse Kerry em Louisiana. "Precisamos falar com todo mundo, por todo o país, apresentando essa escolha simples. É uma escolha de valores fundamentais. Se você não pode garantir a saúde das crianças em vez de um maior corte de impostos, como poderá defender a moralidade de nossa nação?" Senador viaja pelos EUA para divulgar seu projeto de saúde infantil Deborah Weinberg

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