Vítima de erro médico recebe US$ 23,8 milhões

Scott Allen
Em Boston

Em uma das maiores decisões judiciais na história do Estado de Massachusetts, um júri do condado de Suffolk concedeu uma indenização de US$ 23,8 milhões (cerca de R$ 60 milhões) à família de uma menina nascida com paralisia cerebral depois de um parto traumático no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston.

Os jurados levaram menos de quatro horas, na última segunda-feira, para determinarem que duas obstetras do hospital foram negligentes durante o parto de Julia McLaughlin, em 1996, que nasceu com grandes hematomas na cabeça e sangramento no tecido em volta do cérebro.

Advogados da família McLaughlin argumentaram que as obstetras, Mary Ames Castro e Alessandra Peccei, negligenciaram Maria Lynn McLaughlin quando esta lutava para dar a luz ao seu primeiro filho e não deixaram de perceber que a cabeça de Julia estava inclinada, de forma que não se encaixa na pélvis da mãe. Os advogados disseram que, após 17 horas de trabalho de parto, Ames Castro puxou o bebê com um extrator a vácuo, sem informar aos pais sobre o risco de lesões cerebrais.

"Elas não deram atenção suficiente à paciente, e não se dispuseram a discutir a situação e alertar os pais", disse o advogado Andrew C. Meyer Jr, do escritório de advocacia Lubin & Meyer.

Mas o hospital defendeu as médicas, que estavam entre os primeiros profissionais contratados quando o hospital deu início ao seu programa de obstetrícia em 1994. O hospital alega que as deficiências de Julia não têm relação com as complicações durante o seu nascimento.

"Apesar dos melhores esforços da equipe médica... às vezes podem surgir complicações durante a gestação, e tragicamente, nem todos os resultados são perfeitos", alegou o hospital em um comunicado.

"Nesse caso, os médicos trabalharam intensamente para administrar aquilo que era uma situação extraordinariamente difícil e complexa".

George E. Wakeman Jr., cuja firma representa o hospital, garantiu que vai recorrer da decisão junto ao Tribunal de Apelações de Massachusetts, alegando que o júri agiu de forma apressada.

"Todas as pessoas do tribunal com as quais falei estavam desnorteadas com a rapidez com que esse júri retornou", reclama Wakeman, do escritório de advocacia Adler, Cohen, Harvey, Wakeman & Guekguezian. Ele disse que os médicos nada fizeram de errado e que mantiveram os pais informados sobre os procedimentos.

A indenização, que inclui US$ 12,9 milhões em danos e US$ 10,9 milhões em juros, desde a abertura do processo em 1998, parece ser a terceira maior na história do Estado. A mais alta foi a de US$ 30 milhões concedida a uma mãe da cidade de Randolph e ao seu filho paralítico, em 1992.

A indenização por danos, de US$ 12,9 milhões, será a quarta maior da história do Estado, segundo a revista "Massachusetts Lawyer's Weekly". Todos as grandes indenizações envolvendo bebês devido a danos sofridos devido a erros médicos valem por toda a vida. A indenização de Julia inclui US$ 2,6 milhões em salários futuros perdidos, assim como US$ 3,7 milhões em custos com tratamentos de saúde.

Para Lynn McLaughlin, a indenização tão aguardada só agora começa a compensá-la por todo o sofrimento e preocupação desde o nascimento de Julia. A menina de nove anos está na segunda série, mas precisa da ajuda constante de alguém e necessita passar metade do seu período escolar fora da aula, para se submeter a aprendizado especial e terapia.

Julia, que sofre convulsões, é capaz de andar com a ajuda de aparelhos ortopédicos, mas precisa de uma cadeira de rodas para cobrir distâncias maiores.

"Isso não vai mudar a minha vida", diz McLaughlin, de Lexington. "É algo que resolve o problema financeiro relativo a Julia, e garante que ela receberá o tratamento adequado. E é disso que precisamos".

Durante as duas semanas de julgamento, que se concentrou em determinar se as obstetras foram as responsáveis pelo problema, ninguém negou que Júlia é portadora de graves deficiências.

Meio milhão de norte-americanos padece de paralisia cerebral, um problema crônico que muitas vezes causa dificuldades para a locomoção e a fala, mas os médicos não sabem por que a maioria dos pacientes desenvolve a doença. No entanto, especialistas que auxiliaram os McLaughlin garantiram que o trauma cerebral pode provocar essa desordem e as convulsões.

Negligência

Segundo Meyer, Lynn McLaughlin e seu marido, Kevin, chegaram ao hospital em 18 de janeiro de 1996, de forma que Lynn pudesse tentar dar a luz à Júlia pela segunda vez. Às 6h30, a obstetra do período da noite ministrou Pitocin a Lynn, para provocar contrações.

Peccei, que estava fazendo residência médica havia um ano e meio, deveria ter assumido o caso de McLaughlin às 7h, mas não há registro de que o tenha feito até às 11h50.

Wakeman diz foi devido ao fato de o trabalho de parto de McLaughlin estar transcorrendo de forma tão normal que Peccei não tomou notas, mas os McLaughlin disseram não ter visto o médico durante um período no qual as enfermeiras estavam aumentando cada vez mais a sua dose de Pitocin, para provocar contrações mais fortes.

"Não acreditamos que as coisas transcorriam bem com o nível elevado de atenção que estávamos recebendo", afirma McLaughlin. "Mas eles não me deram nenhuma indicação de que algo estava errado".

McLaughlin esteve em trabalho de parto durante todo o dia, mas o bebê mal se deslocou para o canal vaginal, apesar das doses cada vez mais elevadas de Pitocin e outras medidas tomadas. Às 16h45, Peccei fez com que McLaughlin se deitasse de lado e colocou uma máscara de oxigênio no seu rosto, e, a seguir, deixou o hospital, disse Meyer.

Meyer alegou que Peccei deveria ter dado a McLaughlin a opção de uma cesariana porque o bebê não sairia por si próprio. Ele disse ainda que o fato de ministrarem drogas que induzem o trabalho de parto prejudicou o bebê.

Ames Castro deveria tomar conta de McLaughlin a partir das 17h, mas a família diz que ela não apareceu na sala até às 19h30, e não tomou nenhuma providência quanto ao parto problemático até às 21h30, quando a médica deu início aos preparativos para usar um equipamento de sucção, chamado extrator a vácuo, para puxar Julia.

"Ela basicamente entrou no quarto e disse que tínhamos que retirar o bebê", conta Lynn, que disse que estava tão cansada que simplesmente fez tudo o que a médica disse. "O clima estava tenso. Não houve discussão sobre os riscos da sucção ou das alternativas possíveis".

O advogado de Ames Castro rebateu dizendo que a médica não conversou com McLaughlin porque esta estava dormindo das 17h até depois das 19h, e que após a mãe ter acordado, esteve com ela com freqüência. Quando Ames Castro decidiu extrair o bebê, Julia tinha descido bastante ao longo do canal vaginal para possibilitar uma cesariana, fazendo com que a sucção fosse a melhor alternativa.

No entanto, o advogado Meyer observou que a sucção não funcionou, apesar de cinco tentativas durante mais de 11 minutos. Finalmente, Lynn McLaughlin conseguiu dar a luz ao bebê, que a princípio não deu sinais de vida e apresentava hematomas na cabeça. Uma tomografia subseqüente revelou sangramento em volta do cérebro, embora Wakeman, o advogado das médicas, faça questão de enfatizar que nenhum sangramento ocorreu no cérebro em si.

Mas Meyer disse que os próprios registros do hospital descrevem o nascimento de Julia como "traumático", acrescentando: "Não há dúvida de que uma pessoa está sujeita a lesões cerebrais devido ao trauma. Todos sabem que qualquer pessoa pode sofrer uma lesão cerebral se for golpeada na cabeça com um martelo". Parto mal conduzido causa dano permanente no cérebro da criança Danilo Fonseca

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