Por trás da pompa, um intenso drama político se desenrola na Grã-Bretanha

Charles M. Sennott
Em Londres

Em uma das exibições mais elaboradas da tradição britânica, a rainha Elizabeth 2ª colocou sua coroa e vestiu seu manto branco de veludo nesta terça-feira, e então sua carruagem dourada liderou uma procissão do Palácio de Buckingham até a Casa dos Lordes, no Palácio de Westminster, para presidir a sessão de abertura do Parlamento.

Por trás de toda pompa e cerimônia que marcam o início do histórico terceiro mandato do Partido Trabalhista do primeiro-ministro Tony Blair, há um drama político em andamento, no qual muitos observadores acreditam que Blair disputará a liderança do partido com seu ministro das finanças e rival político, Gordon Brown.

Alguns parlamentares trabalhistas já pediram publicamente a renúncia de Blair, após análises da eleição deste mês terem revelado uma erosão significativa da confiança em sua liderança pela forma como lidou com a guerra no Iraque.

Blair e Brown estavam lado a lado durante a cerimônia de terça-feira, e há muito mantêm uma postura pública de aliados políticos estreitos e até mesmo de velhos amigos. Mas nos bastidores, disseram observadores políticos, há uma intensa rivalidade entre eles e uma animosidade crescente.

"O relacionamento entre eles é muito instável", disse Robert Peston, autor de "Brown's Britain", um livro recém-publicado que traça o relacionamento entre Brown e Blair por meio de longas entrevistas com Brown, assim como fontes e funcionários ligados a ambos os homens.

"O que parece certo é que Brown sucederá Blair, e que esta transição ocorrerá durante uma crise, e tal crise já está fermentando, apesar de ser impossível dizer precisamente quando e como ela ocorrerá."

Blair e Brown possuem visões diferentes do que constitui o coração do Partido Trabalhista, e têm assiduamente forjado alianças pessoais que ameaçam dividir o partido do governo à medida que inicia seu terceiro mandato consecutivo, um feito sem precedente em um século de história dos trabalhistas.

Blair sobreviveu à eleição de 5 de maio com uma maioria reduzida a 67 cadeiras, em comparação a 161 cadeiras, mas é Brown que é considerado como o grande vencedor. A Blair restou tentar definir melhor o legado de sua liderança e Brown está se preparando para assumir o poder.

Os dois homens não poderiam ser mais diferentes. Nascido filho de um pastor da Igreja da Escócia, Brown, 54 anos, cresceu em uma cidade operária na costa leste escocesa e esteve mergulhado no espírito trabalhista por toda sua vida.

A infância de Blair, por outro lado, foi de classe média na região central da Inglaterra. Seu pai era um advogado bem-sucedido que não conseguiu concretizar sua aspiração de concorrer a uma cadeira pelo Partido Conservador.

Ambos foram eleitos pela primeira vez para cadeiras trabalhistas em 1983 e dividiram um pequeno gabinete em Westminster durante os anos difíceis para os trabalhistas, quando Margaret Thatcher segurava as rédeas do então partido do governo, o Conservador.

Brown sempre foi visto como o mais cerebral, alguns diriam mal humorado, dos dois. Blair, 52 anos, era visto como um político desembaraçado, um carreirista, mas também considerado como tendo um maior apelo junto aos eleitores. Juntos, os dois homens tramaram uma estratégia para revitalizar o Partido Trabalhista.

Em 1994, após a morte do então líder trabalhista John Smith, os dois homens fizeram um acordo no qual Blair lideraria o partido e então cederia o poder para Brown na metade do segundo mandato, segundo muitos jornalistas e parlamentares.

Blair liderou os trabalhistas à vitória em 1997, e novamente em 2001, e mais uma vez neste ano, mas nunca ofereceu publicamente que abriria mão do poder. Recentemente, Blair tem dito que cumprirá "o terceiro mandato plenamente", mas que então não concorrerá a um quarto.

A história de Brown como um líder traído tem pairado sobre o Partido Trabalhista há vários anos e até mesmo tornou popular um filme feito para a TV no ano passado, chamado "The Deal" ("o acordo").

Apesar de terem trabalhado estreitamente juntos, Brown é considerado como um trabalhista da velha guarda, particularmente em sua visão do que ele considera como a obrigação do partido, a redistribuição da riqueza e a diminuição da desigualdade de renda.

Blair é creditado por ter movido seu Novo Trabalhismo, como ele o chama, para o centro e promovido uma agenda que, apesar de popular entre os eleitores, é amplamente considerada pelos membros mais velhos do partido como uma traição aos ideais populistas dos trabalhistas.

Ambos demonstraram inclinação pelos Estados Unidos, particularmente pelas políticas econômicas centristas do presidente Bill Clinton. Brown, em particular, viaja com freqüência aos Estados Unidos e passa férias quase todo verão em Cape Cod, passando seu tempo em Chatham e Nantucket.

A disputa nos bastidores já é lendária. Uma conseqüência particularmente amarga ocorreu após a Guerra no Iraque. Segundo Peston, Brown tinha o compromisso de Blair de que renunciaria em 2004, mas Blair se agarrou ao poder.

Segundo o relato de Peston, um Brown enfurecido teria dito posteriormente para Blair: "Não há nada que você possa me dizer agora em que acreditarei".

Na recente campanha, ambos foram cuidadosos para exibir união em público. Blair chamou Brown de "o melhor chanceler em 100 anos". Brown apoiou Blair em sua hora de necessidade, assim como do partido, ao dizer que apesar da guerra no Iraque ser impopular, ele também apoiou a decisão.

Mas por baixo da superfície há atrito, e as ambições em duelo destes dois homens estabelecem o cenário para o novo governo.

A rainha, que é oficialmente a chefe de Estado no Reino Unidos, apresentou a ambiciosa agenda dos trabalhistas, incluindo 45 projetos propostos de legislação, variando de um projeto de lei para crimes violentos até amplas reformas na educação e no serviço nacional de saúde.

Mas a proposta mais controversa é o pedido de Blair para uma carteira de identidade nacional como medida de segurança, que analistas políticos acreditam que poderá provocar uma rebelião na ala esquerda do Trabalhista, cujos membros consideram a carteira de identidade como uma invasão de privacidade.

Eles já estão fervendo de raiva contra Blair pela forma como ele e seu Gabinete supostamente manipularam relatórios de inteligência para justificar a guerra no Iraque.

Se tal rebelião aumentar em torno da questão da carteira de identidade, ela poderá provocar uma mudança na liderança do partido e acelerar a saída de Blair.

John Rentoul, que escreveu uma biografia simpática de Blair, publicada em 2001, disse em uma entrevista que está cético diante da possibilidade de uma rebelião política ou crise política forçar a saída de Blair.

Mas ele disse que acredita que a transição de liderança de Blair para Brown é inevitável e que, quando acontecer, transcorrerá em ordem. De fato, Blair prometeu isto durante a reunião acalorada de líderes do partido em 11 de maio, quando ele prometeu uma transição "estável e em ordem" na liderança trabalhista, mas pediu aos seus críticos que lhe permitissem passar o bastão quando ele achasse melhor.

A transição "é a grande história dos próximos três anos. Eu acho que Blair aceitou que é impossível deter Gordon, mas como e quando isto ocorrerá é uma questão em aberto", disse Rentoul. Descontentamento trabalhista pode antecipar a saída de Tony Blair George El Khouri Andolfato

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