Massacre marca o início de potente contra-ataque das Farc na Colômbia

Indira A.R. Lakshmanan
Em Bogotá

Um descarado massacre vespertino em uma reunião de vereadores no sul da Colômbia, na última terça-feira (24/05), é o mais recente episódio em um aumento dos ataques mortais neste ano de rebeldes esquerdistas, os quais o governo afirmava ter contido.

Após um ano de relativa tranqüilidade desde que o presidente Álvaro Uribe lançou o "Plano Patriota", uma ambiciosa ofensiva militar que empregou 18 mil soldados e cerca de US$ 100 milhões em assistência militar americana para expulsar os guerrilheiros de suas fortalezas no sul, os rebeldes deixaram seus esconderijos disparando suas armas.

Desde janeiro, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, conhecidas como Farc, lançaram numerosos ataques mortais contra alvos civis e militares, deixando muitas vítimas e lembrando a população de que apesar dos progressos obtidos por Uribe na segurança, uma guerra ainda transcorre em muitas partes do interior.

Alguns analistas afirmam que a ofensiva militar do governo perdeu força nos últimos meses, dando aos guerrilheiros uma chance para reagrupar e contra-atacar.

O mais recente ataque rebelde, que matou cinco autoridades na cidade de Puerto Rico, a 320 quilômetros ao sul de Bogotá, na província de Caquetá, provocou um debate nacional sobre se os recentes ataques das Farc são os últimos suspiros desesperados de uma força rebelde debilitada, ou obra de um exército guerrilheiro astuto que tem enfrentado o governo há 40 anos e não pode ser derrotado por ação militar.

Observadores políticos disseram que as eleições nacionais do próximo ano são outro elemento que leva as Farc a aumentar seus ataques, em um esforço para minar a confiança pública em um presidente altamente popular e sua muito alardeada política de "segurança democrática", que visa eliminar os grupos armados ilegais, o tráfico de drogas e a corrupção.

"Esta foi uma operação muito ousada --não o trabalho de um grupo que está encurralado ou à beira de ser eliminado", disse Andrés Villamizar, analista de segurança e professor da Universidade dos Andes, em Bogotá.

"Vinte agressores vieram do rio e mataram os vereadores, voltando para a picape e seguindo para o rio sem que ninguém os detivesse --como? Esta é uma grande falha de inteligência no meu ponto de vista."

Observadores compararam o ataque ao seqüestro em massa realizado pelas Farc, em abril de 2002, de 14 deputados eleitos de uma assembléia local na província de Valle. As Farc ainda mantêm aqueles deputados estaduais como reféns, tentando usá-los como moeda de troca com o governo.

Puerto Rico é uma cidade de 25 mil habitantes em uma região que por muito tempo foi controlada pelas Farc devido à sua posição estratégica perto das fronteiras do Peru e do Brasil, em um rio usado para o tráfico de drogas, que financia tanto as atividades dos paramilitares de direita quanto de esquerda.

O prefeito de Puerto Rico foi morto pelas Farc em agosto de 2001, assim como seu substituto, quatro meses depois. Um terceiro prefeito foi nomeado, e, no mês seguinte, escapou por pouco de uma tentativa de assassinato das Farc, que matou seus dois guarda-costas.

Julio Casas Pachon, 30 anos, um vereador que sobreviveu ao ataque de terça-feira ao pular por uma janela da assembléia, descreveu a cena angustiante em uma entrevista por telefone a The Boston Globe.

Cerca de 15 a 20 agressores, que testemunhas e autoridades acreditam ser membros da unidade de forças especiais das Farc, chegaram à praça da cidade em uma picape e invadiram a reunião dos vereadores, fuzilando três vereadores e um secretário com rifles de assalto.

Outro vereador morreu na terça-feira dos ferimentos, disseram autoridades em uma entrevista por telefone. Dois vereadores, um policial, um jornalista e um transeunte foram feridos, segundo a polícia.

O coronel Gabriel Rodríguez, comandante da polícia do Caquetá, disse em uma entrevista por telefone que os rebeldes estavam disfarçados em uniformes militares colombianos, de forma que seu ataque pegou a polícia e os guarda-costas dos vereadores de surpresa.

Casas disse que panfletos distribuídos pela cidade pelas Farc nas últimas semanas ordenavam que os vereadores renunciassem aos cargos ou que pagariam por suas vidas. Há duas semanas, as Farc colocaram um prêmio de cerca de US$ 3.500 pela cabeça de qualquer vereador no Estado de Caquetá.

Apesar do trauma do massacre, Casas prometeu que manterá o posto e continuará representando o governo de Uribe, porque nenhum outro presidente conseguiu promover tanta segurança quanto ele.

No momento do massacre, os vereadores estavam reunidos para discutir uma marcha pela paz planejada para a sexta-feira, que visava protestar contras as ameaças das Farc às autoridades locais --uma marcha que Casas agora disse ter medo de participar.

Historicamente, as Farc têm tentado influenciar as eleições locais e controlar as autoridades municipais e seus orçamentos de todas as formas, de suborno até intimidação e assassinato.

Villamizar estima que cerca de 200 prefeitos de pequenas cidades entre as 1.098 municipalidades do país vivem sob controle das Farc. Quando os rebeldes não conseguem controlar as autoridades locais, eles enviam uma ameaças para persuadir outros no governo a se renderem, ele disse.

Em 2003, 75 vereadores foram mortos em todo o país; tal número caiu para 18 em 2004. Até o momento neste ano, 13 vereadores e um secretário municipal foram mortos no sul do país --10 por milícias da Farc, outros quatro por paramilitares de direita, segundo Oscar Andres Núñez, diretor executivo da Federação Nacional das Assembléias Municipais.

As Farc "vêem os vereadores como representantes do Estado e de Uribe. Mas os vereadores são representantes da população local que os elegem. Este foi um ato desesperado e covarde de um grupo que está perdendo sua influência na arena local e nacional", disse Núñez.

O general Arnulfo Martínez Baron, comandante da 12ª Brigada do Exército em Caquetá, contestou as críticas de que a campanha militar perdeu força nos últimos meses. Desde janeiro, ele disse, sua brigada já matou 55 guerrilheiros das Farc em Caquetá --incluindo 11 em Puerto Rico-- dos cerca de 2 mil rebeldes na província.

Ele disse que suas forças capturaram mais de 100 rebeldes, juntamente com centenas de toneladas de suas provisões, munições, armas, equipamento de comunicação e base de coca, a matéria-prima para a cocaína que é vendida para levantar dinheiro para suprimentos.

"Há cerca de um ano e meio a dois, o relógio começou a bater para os rebeldes" sob a política de Uribe para eliminá-los militarmente, ele disse. "O fim está muito próximo para eles."

Mas Alfredo Rangel, um analista militar e diretor da independente Fundação para a Segurança e Democracia, em Bogotá, alertou que o Estado "declarou prematuramente a vitória".

Ele comparou a afirmação à aparição do presidente Bush, há dois anos, em um porta-aviões com uma faixa que proclamava "Missão Cumprida", antes do fim das hostilidades no Iraque.

"As Farc estavam no ano passado em um recuo planejado. Elas estavam ganhando tempo e esperando pela exaustão do governo. As forças armadas não foram capazes de neutralizar as Farc, e agora os rebeldes estão tentando enfraquecer Uribe e influenciar a próxima eleição." Guerrilheiros atacam políticos alinhados com o governo de Uribe George El Khouri Andolfato

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