Tratamentos para transtornos psíquicos são inadequados, aponta pesquisa

Carey Goldberg
Em Boston

Entre o um quarto de americanos que sofre de desordens mentais a cada ano, muitos mais buscam tratamento atualmente do há uma década, mas grande parte dos cuidados que recebem são inadequados, revelou um novo grande estudo nacional.

O estudo, divulgado nesta segunda-feira (6/6), indicou que a doença mental tende a surgir cedo: aos 14 anos em metade de todos os casos. O estudo também revelou que apesar da maioria das desordens mentais serem leves, 6% dos americanos em qualquer ano ficam seriamente debilitados por elas.

O levantamento revelou que a doença mental tem um impacto tão grande sobre os americanos quanto quaisquer outros males comuns, como diabete ou doença cardíaca, mas que tende a começar décadas mais cedo, disse Ronald C. Kessler, professor de política para atendimento de saúde da Escola de Medicina de Harvard, que liderou o estudo.

"As desordens mentais são as condições crônicas mais importantes da juventude na América", disse ele, mas "infelizmente, elas raramente ganham a atenção do sistema de tratamento a menos que sejam muito severas".

Ele e seus colegas recomendaram mais pesquisa sobre como identificar e tratar na juventude os precursores mais brandos de doenças mentais sérias.

O estudo de US$ 20 milhões, financiado com recursos federais e realizado a cada dez anos por pesquisadores acadêmicos treinados, envolveu entrevistas face a face em casa com mais de 9 mil pessoas escolhidas aleatoriamente.

Ela revelou que entre esta amostra nacional representativa, a doença mental continua tão predominante quanto 10 anos atrás: quase metade dos pesquisados já enfrentou alguma forma de doença mental em algum ponto de suas vidas, e cerca de um quarto no ano passado.

Cerca de 18% dos entrevistados buscaram tratamento para doença mental no ano passado, um aumento em comparação a 13% na pesquisa de 1994. Entre aqueles com uma doença mental em um certo ano, 41% buscaram ajuda -um aumento em comparação a 25% na pesquisa de 94.

Entre aqueles que buscaram tratamento, menos de um terço recebeu o tratamento apropriado como definido pelas diretrizes profissionais nacionais sobre aspectos como o número de visitas aos provedores de atendimento.

Avanços no tratamento "geraram a esperança de que as desordens mentais estão sendo tratadas muito mais eficazmente do que no passado", escreveram o dr. Philip S. Wang, professor de Harvard, e colegas em um dos relatórios gerados pelo estudo e divulgado na segunda-feira pela revista "Archives of General Psychiatry".

"Nossos resultados sugerem que tal otimismo é prematuro", eles acrescentaram.

O estudo também revelou longa demora, freqüentemente de vários anos ou mais, entre o início da doença mental e a decisão do paciente em buscar atendimento. O mais preocupante, disse Kessler, é que "quanto mais jovem você é quando ela começa, mais grave ela se torna, mas quanto mais jovem você é quando ela começa, menor a probabilidade de receber tratamento".

"Estas duas coisas não eram de nosso conhecimento", ele acrescentou. "Nós estamos vendo o grande ventre da besta como nunca vimos antes e é um tanto notável."

O atendimento impróprio e a demora no tratamento poderiam explicar outro resultado --o de que as taxas de doença mental não diminuíram apesar do aumento do tratamento, disse Kessler.

Exemplos de atendimento inadequado, ele disse, incluem a prescrição pelos médicos de uma dose de 5 miligramas de Prozac quando a dose mínima é 20, e os pacientes fazendo apenas duas ou três visitas ao psicoterapeuta, quando nenhuma terapia provou funcionar em menos de oito.

Os planos de saúde e as finanças do sistema de saúde freqüentemente criam obstáculos para o tratamento ideal, ele disse, mas a culpa às vezes é dos pacientes.

Nos últimos anos, pacientes tem apresentado maior probabilidade de buscar tratamento para a saúde mental junto aos seus clínicos gerais, ele disse, mas tais pacientes tendem a ter um compromisso menor com o tratamento do que os pacientes que procuram psicólogos e psiquiatras.

Os médicos freqüentemente também carecem de recursos para o atendimento adequado --como um psiquiatra disponível para consulta ou para assistir ao paciente.

Pela primeira vez, o estudo mais recente investigou desordens de controle de impulsos, incluindo desordem explosiva intermitente até desordem de hiperatividade/déficit de atenção.

Ela revelou que as desordens de impulso são surpreendentemente comuns, seguidas apenas pelas desordens de ansiedade e afetando 25% dos entrevistados em algum momento de suas vidas. Elas também tendem a ser mais severas do que a ansiedade ou desordens de abuso de substâncias.

Na pesquisa, os pacientes não se autodiagnosticaram; em vez disso, os entrevistadores usaram ferramentas de pesquisa da Organização Mundial de Saúde que visam gerar diagnósticos formais.

Entre outras conclusões, a pesquisa também indicou que uma pessoa que tem uma desordem mental apresenta alta probabilidade de desenvolver outra, e que há uma forte correlação entre múltiplas desordens e ficar severamente incapacitado.

"Nós descobrimos que cerca de 45% das pessoas com uma desordem mental também preenchem os critérios de duas ou mais, e que a gravidade da desordem mental está diretamente associada ao grau com que a pessoa manifesta mais de uma desordem", disse Kathleen Merikangas, a principal pesquisadora do Instituto Nacional de Saúde Mental no estudo.

Kessler disse que os dados acentuaram que os problemas do paciente podem se somar: uma pessoa jovem que é extremamente tímida, com fobia ou depressiva na adolescência pode se voltar para o abuso de drogas ou álcool para aliviar a dor; pode largar a escola ou ter filhos fora do casamento; e buscar ajuda aos 25 anos. "Mas é uma ajuda uma década atrasada", disse Kessler.

A doença mental pode ser tratada, mas o dano na vida daquela pessoa não poderá ser desfeito, disse ele.

Nacionalmente, tem crescido recentemente a controvérsia em torno de propostas federais que pedem o exame de crianças e adolescentes em busca de doenças mentais, mas Kessler disse que o exame não é o principal problema: os precursores de doenças mentais sérias geralmente são óbvios e a disfunção é clara.

O problema, ele disse, é que ainda não se sabe o suficiente sobre quando e como tratar inicialmente os sintomas leves.

Apesar do estudo não ter encontrado nenhum declínio significativo nas doenças mentais, ele revelou que desde a Segunda Guerra Mundial, a tendência de aumento rápido da ocorrência está finalmente se estabilizando.

Não se sabe se o aumento ao longo dos últimos 50 anos, e a recente estabilização, reflete mudanças reais na ocorrência ou simplesmente mudanças no informe de doenças mentais.

Mas ainda assim, ele disse, "é a primeira década em que podemos dizer com boa certeza que não ocorreu um aumento na ocorrência de desordens mentais", disse Kessler.

"Eu esperava ver uma queda", disse ele, "mas estou feliz no momento por vê-la parar de crescer". Responsabilidade é de todos, médicos, planos de saúde e pacientes George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos