"Guantánamo é prisão necessária", diz Rumsfeld

Bryan Bender e Charlie Savage
Em Washington

O secretário de defesa norte-americano, Donald H. Rumsfeld, disse nesta terça-feira (14/06) que os EUA não tinham opção senão deter indefinidamente terroristas suspeitos na base naval americana em Cuba.

Ele procurou rebater uma onda crescente de críticas oferecendo novos detalhes sobre a operação e a validade das informações obtidas dos prisioneiros detidos sem julgamento.

Rumsfeld insistiu que, por questões legais e de segurança, a prisão terrorista inaugurada em janeiro de 2002 da Baía de Guantánamo não pode ser fechada ou transferida, e sugeriu que deverá continuar em operação durante anos.

"O governo dos Estados Unidos e os militares americanos não querem ficar na posição de deter terroristas suspeitos por mais (tempo) do que o absolutamente necessário", disse Rumsfeld aos repórteres.

"Entretanto, enquanto houver o imperativo de impedir os terroristas de atacar novamente, a instalação continuará sendo imprescindível."

Para defender sua posição, o secretário revelou que os interrogatórios de um suspeito importante da Al Qaeda --Mohamed Al Kahtani-- levaram à captura de outros 22 suspeitos da Al Qaeda e de Khalid Sheikh Mohammed, que planejou os ataques de 11 de setembro de 2001.

Rumsfeld também forneceu pela primeira vez o custo de operação do campo: cerca de US$ 95 milhões (em torno de R$ 237 milhões) por ano. Ele disse que foram gastos US$ 100 milhões (aproximadamente R$ 250 milhões) na construção do centro de detenção na base, que mantém cerca de 520 "combatentes do inimigo".

Na mais veemente defesa que o governo fez da prisão, Rumsfeld disse: "Pode-se argumentar que nenhum campo de detenção na história da guerra foi mais transparente e mais fiscalizado do que Guantánamo."

"Mais de 1.000 jornalistas fizeram quase 400 visitas à Guantánamo. Adicionalmente, cerca de 180 membros do Congresso visitaram a prisão. Nós damos acesso contínuo ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha, cujos representantes fazem visitas particulares aos presos."

Falando aos repórteres no 230º aniversário do Exército dos EUA, o secretário de defesa e o general Marine Peter Pace, vice-diretor das forças armadas, discutiram os desafios de recrutamento, depois que o Exército fracassou em suas metas durante quatro meses seguidos.

Eles disseram que a meta do Exército era conseguir 8.000 novos recrutas neste ano, para expandir a força ativa em 30.000 homens nos próximos anos.

No entanto, "do ponto de vista de novos recrutamentos, precisamos trabalhar mais para enviar a mensagem aos possíveis voluntários", disse Pace. "E, como país, precisamos estimular nossos jovens a servirem o país em tempos de necessidade."

Pace e Rumsfeld disseram que os líderes militares identificaram uma combinação de medidas para resolver a questão. Entre as propostas está a transferência de soldados que hoje fazem tarefas de apoio para o serviço de recrutamento, que receberá 3.000 homens.

O Pentágono pode transferir "militares que desempenham funções civis e substituí-los por civis", disse Rumsfeld. "Esse número não é trivial." Até agora, disse ele, 10.000 pessoas envolveram-se no programa e até 300.000 militares em funções de apoio podem ser levados a preencher posições de combate.

No entanto, foi sua defesa de Guantánamo que dominou a entrevista coletiva.

Nas últimas semanas um número crescente de líderes políticos, incluindo o ex-presidente Jimmy Carter e membros do Congresso dos dois partidos, pediu o fechamento da prisão, argumentando que sua imagem negativa no cenário mundial estava minando a causa americana e ajudando os terroristas a recrutarem novos membros.

A Anistia Internacional disse que Guantánamo era a versão americana de um "gulag", referindo-se aos campos de trabalho forçado secretos soviéticos.

Rumsfeld disse que o cerne do debate não devia ser propriamente a prisão de Guantánamo. Em vez disso, a sociedade deve se perguntar o que fazer com terroristas suspeitos e "combatentes inimigos" capturados antes de terem cometido um crime. Ele argumentou que o debate deve ser se as leis atuais de guerra prevêem essa ameaça e como devem ser mudadas.

"O verdadeiro problema não é Guantánamo", disse Rumsfeld. "O problema é que, em grande parte, estamos andando em território não explorado nessa batalha não convencional e complexa contra o extremismo. As doutrinas (jurídicas) tradicionais que cobrem prisioneiros militares e criminais não se aplicam adequadamente".

As cortes federais estão avaliando como os presos podem ser julgados. Os planos de levar os presos a tribunais militares foram adiados até que esse estudo tenha resultados.

Para mostrar que Guantánamo deu dividendos significativos na luta contra a Al Qaeda, Rumsfeld detalhou na terça-feira o caso de Al Kahtani, conhecido como o "20º seqüestrador" por seu papel no atentado de 11 de setembro de 2001.

Al Kahtani, principal prisioneiro de Guantánamo, foi deportado por um fiscal da imigração no Aeroporto Internacional de Orlando, em agosto de 2001, enquanto o líder da sua unidade da Al Qaeda, Mohammed Atta, esperava no saguão. Mais tarde, ele foi capturado na fronteira do Afeganistão e trazido para Guantánamo.

No último final de semana, a revista "Time" publicou trechos do interrogatório em Guantánamo e os passos tomados para extrair informações de Kahtani no inverno de 2002.

As táticas empregadas incluíram privar o prisioneiro de sono, fazê-lo latir como um cão, bater nele com uma luva, raspar sua cabeça e barba e forçá-lo a urinar em si mesmo.

Rumsfeld alegou que Kahtani deu informações importantes. Pela primeira vez, ele associou os interrogatórios de Kahtani à captura de Khalid Sheikh Mohammed, em março de 2003 no Paquistão, e à prisão pela polícia de outros países de "22 suspeitos de planejar ataques terroristas no início do ano".

Segundo Rumsfeld, Kahtani tinha dado informações sobre "20 guarda-costas de Osama Bin Laden", apesar de não dar detalhes. Em sua matéria, a "Time" disse que os 20 guarda-costas estavam entre os prisioneiros em Guantánamo.

Rumsfeld disse que devolver os presos aos seus países de origem --apesar de ser o objetivo dos EUA-- seria tolice nesta altura, porque poucos países têm penitenciárias para mantê-los, disse Rumsfeld. Até agora, ao menos 38 presos foram liberados e 200 foram entregues aos seus respectivos governos.

"Os tipos detidos em Guantánamo incluem treinadores de terroristas, fabricantes de bombas, recrutadores e patrocinadores de extremistas, guarda-costas de Osama Bin Laden e possíveis homens-bomba", disse Rumsfeld aos repórteres. "Não são ladrões de automóvel. Acredita-se que sejam matadores determinados."

Quanto aos maus tratos dos prisioneiros, ele disse que "quem agiu mal está sendo responsabilizado" e que "as forças armadas americanas instituíram várias reformas na condução de operações de prisão, com maior ênfase em padrões e treinamento". Secretário de Defesa anuncia que a base ainda funcionará por anos Deborah Weinberg

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