Falta de consenso atrapalha estratégia dos democratas quanto à questão do Iraque

Rick Klein
Em Washington

Democratas na Câmara e no Senado, percebendo uma oportunidade na queda dos índices de aprovação do presidente Bush e em uma guerra cada vez mais impopular, mantiveram uma série de longos encontros a portas fechadas nas últimas semanas, a fim de encontrar uma posição em comum e uma mensagem política afiada sobre a Guerra do Iraque.

Alguns participantes desses encontros disseram que o fracasso de Bush na tarefa de articular uma estratégia de fuga no seu discurso da noite da última terça-feira somente ressaltou a necessidade dos democratas delinearem a sua própria posição. Mas eles também reconheceram que, dentro do partido, existem posições fundamentalmente diferentes com relação à guerra.

"O argumento por uma estratégia de fuga só faz ficar mais forte a cada dia", disse o deputado Martin T. Meehan, de Lowell, integrante do Comitê da Câmara para Questões das Forças Armadas, que está pressionando os seus colegas democratas a se comprometerem com um cronograma para a retirada do Iraque.

"Infelizmente o Congresso não parece estar disposto a fazer tal coisa, apesar de ser algo muito necessário".

A falta de consenso ficou evidente em um encontro de duas horas de deputados democratas no início deste mês. Alguns queriam uma retirada total e imediata, enquanto outros contra-argumentavam que as tropas deveriam se retirar de forma mais gradual. E alguns disseram que não deveria haver prazo algum para a retirada.

"Temos gente de várias tendências que está abordando essa questão", disse a deputada Maxine Waters, da Califórnia, fundadora do grupo Convenção Fora do Iraque, integrado por 50 deputados, que deseja um fim imediato para o conflito.

"A situação está melhorando, porque os membros estão respondendo às pesquisas de opinião e fazendo as perguntas corretas. Mas temos que atrair mais atenção para esse assunto. Não podemos ficar calados".

Democratas no Senado tiveram uma reunião similar na semana passada, que terminou com os senadores concordando em exigir metas mais claras do governo Bush, mas discordando sobre o que devem ser essas metas.

O senador Joseph I. Lieberman, de Connecticut, expressou preocupação com a possibilidade de a crítica democrata à guerra reduzir o apoio público às tropas, enquanto outros parlamentares discutiram uma resolução para definir um cronograma para a retirada, patrocinada pelos liberais Barbara Boxer, da Califórnia, e Russel Feingold, de Wisconsin.

Um número substancial de democratas na Câmara e no Senado votou a favor de dar a Bush a autoridade para invadir o Iraque --incluindo John F. Kerry, o candidato presidencial do partido em 2004-- e até mesmo aqueles que se opõem à guerra estão agora divididos quanto à questão de retirar as tropas ou mantê-las pelo tempo que for necessário para restaurar a ordem.

Liberais como o deputado Dennis J. Kucinich, de Ohio, exigiram a retirada imediata das tropas. A senadora por Nova York, Hillary Rodham Clinton, que está de olho em uma candidatura à presidência, advertiu que um debate intenso e público sobre a questão do Iraque poderia dividir amargamente a nação, como ocorreu durante a Guerra do Vietnã, quando houve conflito nas ruas.

Lieberman, que concorreu à vice-presidência cinco anos atrás, acredita que mais tropas devam ser enviadas para terminar o serviço no Iraque, e que o partido deveria apoiar tal iniciativa.

Para recuperar o cada vez menor apoio popular à guerra, Bush falou em Fort Bragg, na Carolina do Norte, sede da 82ª Divisão Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos e da unidade de comando das Forças Especiais.

Invocando os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, Bush prometeu manter o curso adotado por quanto tempo for necessário, descrevendo a guerra como a nova frente contra a Al Qaeda e a guerra em escala mundial contra o terrorismo.

Nos últimos meses, várias pesquisas de opinião indicaram que a maioria das pessoas vê a invasão do Iraque como um erro, embora por uma pequena maioria a população apóie a manutenção das tropas naquele país.

O apoio republicano à guerra também deu sinais de fraquejar, mas o partido como um todo tem se mostrado bem mais unido no apoio à guerra do que os democratas têm se oposto a ela.

Apesar das preocupações democratas quanto ao desenrolar da guerra, só cerca de 60 dos 202 membros democratas da Câmara estão apoiando uma resolução que pede a Bush que articule os objetivos da guerra e traga as tropas para casa, a partir de outubro de 2006. A resolução conta com o apoio de três republicanos.

Os democratas enxergam no descontentamento com Bush uma ferramenta poderosa a ser usada contra parlamentares republicanos nas eleições congressuais do ano que vem.

Se falharem, alguns membros do partido advertem, terão desperdiçado uma oportunidade de conquistar assentos no Congresso e ganhar ímpeto para a eleição presidencial de 2008.

"Sou do Havaí, e sei que ou surfamos a onda ou somos surfados por ela", afirma o deputado democrata Neil Abercrombie. "Os democratas fariam bem em surfar essa onda. É apenas uma questão de tempo para o partido perceber isso".

Os líderes do partido acreditam que as notícias de convulsão aparentemente sem fim no Iraque --incluindo os casos de abusos praticados contra prisioneiros em Abu Ghraib, seqüestros, atentados suicidas a bomba quase diários e o aumento de baixas norte-americanas--, combinadas a outras questões como o Social Security (previdência social norte-americana), o déficit do orçamento, e os custos cada vez maiores dos serviços de saúde, convencerão os eleitores a expulsar os parlamentares republicanos do Congresso.

Bush defendeu agressivamente os argumentos a favor da guerra, e muitos dos principais membros do seu governo estão se defrontando com as informações errôneas relativas à presença de armas de destruição em massa no Iraque e à crença de que as tropas dos Estados Unidos seriam saudadas como libertadoras.

Mas os democratas continuam a brigar, assim como o fez Kerry na sua candidatura à Casa Branca no ano passado. A postura relativista de Kerry com relação ao Iraque --ele votou a favor da guerra, mas contra parte do financiamento de tropas-- ajudou Bush a fazer da primeira campanha presidencial desde os ataques terroristas de 11 de setembro um referendo sobre segurança nacional.

Em uma audiência no Senado na semana passada com o secretário da Defesa, Donald H. Rumsfeld e outras autoridades do governo Bush, as divisões internas do partido vieram a público. O senador Edward M. Kennedy perguntou a Rumsfeld por que ele não renuncia.

Hillary Clinton, que era uma jovem no final dos anos 60, relembrou os confrontos furiosos e violentos devido à questão do Vietnã. "Temos muitas discórdias sobre como enfrentar o problema no Iraque e como vencer, mas nunca mais quero passar por aquilo", afirmou.

Em uma declaração que Rumsfeld aplaudiu brevemente, Lieberman manifestou preocupação quanto à possibilidade de os líderes parlamentares não estarem fazendo o suficiente para informar à população sobre o que as tropas dos Estados Unidos realizaram e o porque de elas precisarem de apoio.

"Devido à bravura e ao brilho das forças armadas norte-americanas, o povo do Iraque foi libertado de um ditador brutal", disse Lieberman.

Alguns democratas afirmam que o partido teve sucesso em pressionar Bush quanto aos erros do governo no planejamento de pós-guerra e aos escandalosos acordos do governo com empreiteiros particulares que trabalham no Iraque. E alguns sentem que os democratas precisam fazer um pouco mais do que manter a pressão sobre Bush.

O general reformado Wesley Clark, que tentou obter a vaga de candidato à presidência pelo Partido Democrata em 2004, e que aconselhou os senadores democratas sobre como lidar com a questão iraquiana, disse que os democratas não precisam de consenso para argumentar que Bush e o Congresso controlado pelos republicanos administraram mal a situação no Iraque.

"Não é realista esperar que os democratas tenham uma voz coerente", disse Clark. "O presidente é o comandante-em-chefe. É seu o papel de criar uma estratégia de sucesso. E é responsabilidade dos democratas levantar essas questões, e fazer com que o presidente assuma as suas responsabilidades".

Mas alguns não se sentem confortáveis em se opor à guerra. Ao todo, 29 senadores democratas e 81 deputados votaram a favor da guerra no final de 2002, e o possível prejuízo político devido ao fato de terem criticado a sua própria decisão deixou alguns deles preocupados, disse o deputado Michael E. Capuano, democrata de Somerville.

Os republicanos têm aproveitado as oportunidades para apresentar os democratas como antipatriotas. Quando o líder da minoria na Câmara, Nancy Pelosi, chamou recentemente a guerra de "um erro grotesco", o líder da maioria na casa a acusou de "tentar marcar pontos políticos às custas de nossas tropas".

"Nós temos uma tendência a manifestar opiniões diversas", afirmou Capuano, que votou contra a guerra, e disse que pensa em apoiar uma retirada imediata das tropas norte-americanas.

"Acredito que essa é uma das belezas do partido, o fato de não marcharmos unidos. Mas é verdade que isso torna difícil conseguir realizações políticas". Partido não sabe usar a rejeição de Bush para vencer republicanos Danilo Fonseca

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