Nomeação de juiz para a Suprema Corte é vista como a "eleição presidencial de 2005"

Charlie Savage e Susan Milligan
Em Washington

Muitos chamam esta de "a eleição presidencial de 2005", um movimento de arrecadação de verbas para lançar uma campanha, no estilo presidencial, a favor e contra a iminente indicação do presidente Bush para a Corte Suprema.

Grupos liberais e conservadores, mobilizados para um entrechoque sem precedentes quanto a questões sociais altamente sensíveis, tais como o direito ao aborto, traçaram nesta terça-feira (5/7) as estratégias para uma campanha de arrecadação de verbas que poderia obscurecer todas as campanhas políticas já registradas, exceto a presidencial.

Segundo os especialistas, tantos grupos estarão participando da campanha que será difícil prever quanto dinheiro será gasto com propagandas de televisão, mala direta e bancos telefônicos.

E ao contrário do que ocorre em uma campanha presidencial, quase todo o dinheiro será despendido por grupos militantes independentes. A maior parte desses grupos não é obrigada, segundo as leis fiscais federais, a revelar as suas fontes de renda.

"Não estou certo de que jamais saberemos realmente quanto foi gasto", afirma Jesse Rutledge, diretora-executiva da Justice At Stake (Justiça em Jogo), um grupo não partidário que procura remover a questão política das seleções do Judiciário. "Pode ser que não obtenhamos muita coisa no que diz respeito à revelação dos padrões de gastos".

Até a terça-feira, dezenas de grupos invocavam a questão da Suprema Corte para encherem os seus cofres.

O ativista conservador Gary Bauer enviou uma mensagem de e-mail a 125 mil seguidores pedindo dinheiro para conter os liberais, que "deixaram claro que lutarão contra qualquer indicado pró-família com unhas e dentes". A Progress for America ("Progresso para os Estados Unidos"), um outro grupo conservador, prometeu arrecadar US$ 18 milhões.

E a Focus on the Family (Foco na Família), liderada por James Dobson, evangelista e autor de livros sobre como criar filhos, também está acumulando dinheiro para uma campanha publicitária de apoio a uma indicação conservadora.

"Tantos norte-americanos deram o seu suor, trabalho e lágrimas para elegerem um presidente conservador e uma maioria conservadora no Senado para decidir este exato momento", escreveu Bauer em um pedido de doações de cartões de crédito no seu site na Internet.

O grupo liberal People for the American Way (algo como "O Povo Pelos Valores Norte-Americanos"), solicitou na terça-feira dinheiro de doadores de todo o país a partir da "sala de guerra" que foi equipada com 75 linhas telefônicas e 40 computadores para uma batalha na Suprema Corte.

Tendo investido US$ 5 milhões para se opor aos esforços dos republicanos para modificar as regras do Senado a fim de impedir os democratas a bloquear os nomes dos indicados a juízes, o grupo está construindo a sua própria estrutura de guerra, incluindo uma corrente de mensagens de e-mail que pede a quem receba que doe e que passe a mensagem a dez amigos.

"A batalha da Suprema Corte está aqui", diz a propaganda da People for the American Way. "Não sabemos quem será o indicado neste momento, mas sabemos que vamos precisar de tempo, energia e recursos de dezenas de milhares de norte-americanos para impedir a confirmação do indivíduo indicado, caso ele ou ela seja demasiadamente extremista".

O porta-voz da Casa Branca, Scott McClelan, disse na terça-feira que o presidente Bush levou consigo os dossiês de meia-dúzia de candidatos potenciais à indicação na sua viagem européia, e que demorará várias semanas para que ele esteja pronto para anunciar o nome indicado.

Mas grupos liberais e conservadores estão em campanha. Tão logo o nome do indicado seja divulgado, os dois grupos pretendem dirigir as suas propagandas de TV para os Estados que possuem senadores tidos como vulneráveis à pressão política, criando uma "dinâmica do Estado indeciso" similar àquela presenciada na campanha presidencial do ano passado.

"O nosso principal foco são os Estados republicanos que possuem senadores democratas", afirmou Wendy Long, conselheira da Judicial Confirmation Network, um grupo conservador, referindo-se aos democratas em Estados que apoiaram Bush na última disputa eleitoral.

Com tantos líderes políticos e ativistas se preparando para um embate --e agitando as bases eleitorais com previsões catastróficas sobre aquilo que poderá acontecer se o campo adversário vencer a batalha--, alguns observadores temem que um duro embate possa ser inevitável, não importando quem Bush venha a indicar.

"Não há jeito de retroceder", diz Susan MacManus, professora de ciência política da Universidade do Sul da Flórida. "Essa é a culminação de uma divisão ideológica profunda e crescente que está sendo alimentada por esses grupos... Se você olhar para trás, para a eleição de 2004, várias das correspondências postais enviadas por cada um dos lados mencionava a questão do Judiciário, de forma que o que estamos vendo é apenas uma extensão da campanha passada".

No entanto, alguns liberais, incluindo a presidente da Alliance for Justice (Aliança pela Justiça), Nan Aron, diz que ainda esperam evitar uma refrega ao pressionarem a Casa Branca a escolher um juiz politicamente moderado para substituir Sandra Day O'Connor.

O senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York, disse na terça-feira que contaria com um abaixo-assinado de 30 mil assinaturas até a semana que vem para pedir a Bush um juiz moderado, e o grupo liberal Moveon.org faz uma campanha similar, com a meta de obter 300 mil assinaturas.

A maioria dos liberais é pessimista quanto às suas chances de influenciar a escolha de Bush. E alguns conservadores, lembrando-se da aceitação de O'Connor pelos liberais, já esperam poder usar isso em seu favor, afirma Manuel Miranda, chefe do grupo pela nomeação de um juiz conservador Third Branch Conference (Conferência do Terceiro Poder) e ex-assessor do líder da maioria no Senado, Bill Frist, republicano do Tennessee.

Em uma conferência de 70 grupos na terça-feira, disse Miranda, os membros discutiram a aceitação de O'Connor pelos liberais contra estes.

Os grupos pretendem citar as posições conservadoras de O'Connor quanto a várias questões, tais como a sua defesa intensa dos direitos de propriedade, a fim de alegar que ela sempre foi uma juíza conservadora.

Então, se os liberais afirmarem que o nome indicado por Bush está fora de sintonia com a tendência majoritária, eles simplesmente apontarão todas as similaridades entre essa pessoa e O'Connor.

"Falamos sobre O'Connor e sobre o fato de a esquerda ter tentado usá-la como ícone", disse Miranda. "Chegará o momento quando haverá um indicado e as palavras dos liberais serão utilizadas contra eles próprios".

Enquanto isso, os membros da MoveOn.com participarão de mais de mil "reuniões caseiras" neste fim de semana, quando formularão estratégias locais para pressionarem os senadores, diz Ben Brandzel, diretor da organização.

Brandzel diz que não tem uma meta em termos de arrecadação de dinheiro, mas observou que o grupo foi capaz de arrecadar US$ 1,5 milhão para as recentes batalhas pela indicação de nomes para o Judiciário.

"Imagine o que seremos capazes de fazer se Bush substituir O'Connor por um extremista", diz Brandzel. Outros grupos não estão planejando caras campanhas de mídia, mas dizem que estão se organizando para uma briga. Paul Schenck, diretor-executivo do centro Nacional de Ação Pró-Vida, disse que os seus membros têm se comunicado com o clero cristão.

"Esse será o tópico no púlpito, assim como entre o povo", afirma.

No Congresso, os membros do Comitê do Senado para o Judiciário disseram esperar que o processo de confirmação leve cerca de 70 dias após a nomeação; isso incluiria audiências e o debate do comitê. Líderes de ambos os partidos devem se reunir com Bush em 11 de julho para discutirem os indicados.

O epicentro do processo de seleção é o escritório da conselheira da Casa Branca Harriet Miers, com o auxílio da Divisão de Política Legal do Departamento de Justiça. Esse órgão está sob a supervisão do procurador-geral Alberto Gonzalez, que é ele próprio um candidato potencial.

Gonzalez seria o primeiro juiz hispânico da Suprema Corte na história dos Estados Unidos. Mas, no último fim de semana, ele foi atacado pelos conservadores, que temem que o procurador seja leniente com relação ao aborto.

A sua advertência à Casa Branca para que esta não indicasse Gonzalez foi repudiada por Bush em uma entrevista publicada na terça-feira. "Al Gonzalez é um grande amigo meu", disse o jornal "USA Today". "Eu sou o tipo de pessoa que não gosta de ver um amigo atacado".

Miranda disse que alguns ativistas conservadores manifestaram na terça-feira a sua preocupação em voz alta com a possibilidade de terem inadvertidamente estimulado Bush a escolher Gonzalez por meio dos seus ataques, embora Miranda diga ter acreditado que dois outros hispânicos com firmes credenciais conservadoras --o cubano, naturalizado norte-americano, Danny Boggs, e Emilio Garza, ambos juízes federais de apelação-- sejam escolhas mais prováveis.

"Karl Rove, o assessor político da Casa Branca, está mais sintonizado com as ramificações políticas disso", afirmou Miranda. "Ele sabe que Gonzalez dividiria a base republicana, enquanto um outro hispânico uniria a base republicana e dividiria os democratas tremendamente".

Com republicanos e democratas já bolando estratégias para obter ganhos políticos, Bill Leuchtenberg, professor aposentado da Universidade da Carolina do Norte que testemunhou contra a nomeação do juiz Robert Bork para a Suprema Corte em 1987, previu que a luta que está poor vir será a mais acirrada da história.

"Existe aqui um profundo compromisso ideológico. É quase como uma guerra religiosa, com uma sensação de que há muita coisa em jogo", disse Leuchtenberg. Escolha de Bush mobiliza liberais e conservadores para uma guerra Danilo Fonseca

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