Bush promete ajudar o programa nuclear indiano

Bryan Bender
Em Washington

O governo Bush reverteu nesta segunda-feira (18/07) uma antiga política e prometeu fornecer à Índia tecnologia de energia nuclear civil, um claro sinal da emergente aliança entre os dois países após décadas de animosidade em torno do legado da Guerra Fria da Índia como líder do Movimento Não-Alinhado.

Stephen Crowley/The New York Times 
O primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, e Bush formalizam acordo de cooperação nuclear entre os países
Na 1ª visita de um líder indiano em 5 anos, o presidente Bush e o premiê Manmohan Singh saudaram uma nova era de cooperação, prometendo trabalhar juntos para disseminar a democracia, combater o terrorismo e o vírus HIV, e derrubar as barreiras no comércio, defesa e laços econômicos.

"A Índia e os Estados Unidos compartilham um compromisso com a liberdade e a crença de que a democracia fornece o melhor caminho para um futuro mais esperançoso para todos os povos", disse Bush após o encontro com Singh no Escritório Oval. "Nós também acreditamos que a disseminação da liberdade é a melhor alternativa para o ódio e a violência."

Em uma clara vitória, a Índia conseguiu o que mais queria dos Estados Unidos nos últimos anos: promessas de reatores nucleares e combustível nuclear para suas crescentes necessidades de energia. Em troca, a Índia prometeu "assumir as mesmas responsabilidades e práticas" que outros países com tecnologia nuclear avançada, incluindo a separação das instalações e programas civis e militares.

Mas especialistas em controle de armas rapidamente levantaram preocupações de que os Estados Unidos estão correndo o risco de enviar a mensagem errada --que é recompensar uma potência de armas nucleares que se recusou a se juntar a tratados que visavam prevenir a proliferação de armas nucleares.

E eles notaram que tal ajuda exigirá a mudança de leis que visam punir a Índia por sua recusa de revelar detalhes de seu programa de armas nucleares e não assinatura do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

Mas autoridades do governo Bush argumentam que a Índia tem sido responsável com sua tecnologia nuclear, reduzindo as preocupações de proliferação. As autoridades também acrescentaram que os Estados Unidos precisam melhorar seu relacionamento com a Índia, que é vista, juntamente com a China, como as duas potências militares e econômicas que cresceram mais rapidamente nos últimos 50 anos.

Segundo uma declaração conjunta divulgada após as reuniões, "o presidente Bush comunicou seu apreço ao primeiro-ministro pelo forte compromisso da Índia em impedir a proliferação [de armas de destruição em massa] e declarou que, como um Estado responsável com tecnologia nuclear avançada, a Índia deve adquirir os mesmos benefícios e vantagens que outros Estados".

A declaração acrescentou que Bush trabalhará com o Congresso para suspender as restrições necessárias e trabalhará "com amigos e aliados para ajustar os regimes internacionais para permitir a plena cooperação e comércio de energia nuclear civil com a Índia".

Singh, apesar de não ter se comprometido a assinar quaisquer tratados, prometeu aderir a muitas das mesmas regras que outras potências nucleares, incluindo a revelação de suas instalações nucleares civis para a Agência Internacional de Energia Atômica, a manutenção de sua moratória de testes nucleares e trabalhar com os Estados Unidos para colocar um fim à produção de material físsil, os ingredientes necessários para se fazer uma bomba.

Mas alguns especialistas temem que em resultado do acordo, outros países poderão decidir relaxar suas próprias regras e fornecer know-how nuclear civil que pode potencialmente ser usado para fins hostis por países de preocupação como Irã, Paquistão e Síria.

O Tratado de Não-Proliferação Nuclear de 1968 exigia dos signatários --incluindo potenciais nucleares como Rússia, China, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França-- que não transferissem know-how nuclear para países que não assinaram o tratado.

Os Estados Unidos impuseram suas próprias restrições legais para assistência nuclear à Índia em 1978, quatro anos depois de Nova Déli ter realizado seu primeiro teste de bomba atômica. Tais diretrizes foram reforçadas depois dos testes nucleares de 1998, conduzidos pela Índia e depois pelo Paquistão, que também se recusou a assinar o tratado de não-proliferação.

Fornecer tal assistência para a Índia marcaria uma mudança significativa de política, segundo alguns especialistas.

"O problema é, se você mudar as regras para a Índia, há outros países que adorariam jogar pelas mesmas regras mas que possuem problemas de proliferação bem piores", disse Michael Krepon, diretor do programa para Sul da Ásia do Centro Henry L. Stimson, um centro de estudos voltado para questões de segurança. "França, Rússia, China e outros países vão adotar as mesmas regras para o Irã, Paquistão e Síria."

George Perkovich, vice-presidente de Estudos do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, disse: "O país mais forte não pode ficar mudando as regras. Nós dizemos aos russos para não venderem para X, Y e Z, mas nós vendemos para a Índia. Minha objeção não é em teoria."

"A questão", ele acrescentou, é se pode ser feita "sem minar o sistema baseado em regras. Este governo tende a não operar desta forma".

Mas a segunda nação mais populosa do mundo possui necessidades imensas de energia e há muito tempo busca ajuda americana para expandir seu setor de energia nuclear. Os Estados Unidos são os maiores investidores na Índia, e os indianos correspondem ao maior número de estudantes estrangeiros que freqüentam as universidades americanas.

Karl Inderfurth, o subsecretário de Estado para Sul da Ásia de 1997 a 2001, saudou a iniciativa de cooperação nuclear. "O momento é o certo para Estados Unidos e Índia terem uma séria discussão sobre como reconciliar as necessidades de energia da Índia com nossas preocupações globais de não-proliferação, e fazê-lo de uma forma que nos permita trabalhar com a Índia de forma cooperativa em energia nuclear", disse ele.

Singh foi recebido na Casa Branca na segunda-feira com pompa e circunstância, completa com a corporação de flautas e percussão no Gramado Sul da Casa Branca, em contraste com as relações gélidas durante a Guerra Fria, quando o então primeiro-ministro Jawaharlal Nehru criou o Movimento Não-Alinhado.

"Nós compartilhamos um compromisso comum com a democracia, liberdade, direitos humanos, pluralismo e regra da lei", disse Singh na cerimônia de boas-vindas.

"Nós enfrentamos desafios comuns que ameaçam nosso modo de vida e os valores que ambos países defendem. Nós compartilhamos uma determinação comum e uma responsabilidade comum de enfrentar tais desafios."

Bush e Singh também concordaram em cooperar em uma ampla variedade de áreas, incluindo tecnologia espacial, agricultura, programas de desenvolvimento da democracia e medidas conjuntas para deter a proliferação mundial do vírus HIV. Os dois líderes também discursaram para um grupo de executivos de ambos os países na Casa Branca, na segunda-feira. Parceria contraria tratado internacional sobre proliferação de armas George El Khouri Andolfato

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