Pesquisa aponta que a fertilidade da mulher poderá ser prolongada após a menopausa

Carey Goldberg
Em Boston

O sangue a e medula óssea contêm células-tronco capazes de produzir novos óvulos, anunciaram nesta quarta-feira (27/07) pesquisadores, sugerindo que algum dia as mulheres poderão prolongar a sua fertilidade simplesmente congelando amostras do seu sangue quando jovens e descongelando-as décadas mais tarde.

As descobertas feitas em ratas, por uma equipe do Hospital Geral de Massachusetts, revelou que as células-tronco produzidas na medula óssea e transportadas para o sangue foram capazes de substituir a reserva esgotada de óvulos de ratas. Os cientistas acreditam que serão capazes de demonstrar o mesmo processo em mulheres.

"Estamos falando sobre medicina regenerativa; sobre fazer com que os ovários voltem a ser novos", afirmou o líder das pesquisas, Jonathan L. Tilly.

Em um trabalho sobre o mesmo assunto, publicado no ano passado, Tilly desafia a afirmação relativa à fertilidade, segundo a qual as mulheres só contam com a reserva de óvulos com a qual nascem, e que diminui até a menopausa.

As descobertas do seu grupo de pesquisadores indicam que os ratos, pelo menos, utilizam células-tronco para criar novos óvulos em uma fase avançada da vida adulta, e que o principal motivo para o declínio da fertilidade feminina com a idade não é o fim da reserva inicial de óvulos, mas sim o fato de as células-tronco deixarem de produzir óvulos novos e de boa qualidade.

Agora, o seu novo trabalho, publicado no prestigiado periódico "Cell", revela o resultado de novas pesquisas que demonstram que ratas adultas repõem a sua reserva de óvulos.

E o mais importante é que o trabalho mostra que quando as ratas se tornam inférteis, e a seguir recebem medula óssea ou sangue de outros ratos, os seus ovários são capazes de gerar aquilo que parecem ser óvulos novos e saudáveis.

No entanto, o trabalho carece daquilo que seria o argumento conclusivo: bebês produzidos a partir dos novos óvulos. Segundo Tilly, esse trabalho ainda está em andamento.

Outros pesquisadores, que tomaram conhecimento das linhas básicas do trabalho no início da semana, em uma conferência científica, estão intrigados, mas se mantêm profundamente céticos.

"O trabalho representa uma descoberta notável, mas gera tantas questões que eu não sou capaz de me entusiasmar", afirmou em uma entrevista por telefone R. Jeffrey Chang, diretor de endocrinologia reprodutiva da Universidade da Califórnia em San Diego.

"Estamos muito longe de concluir que, se isso pode ser feito com ratas, também pode ser feito com mulheres que já passaram pela menopausa", afirmou Chang. "Esses saltos de fé são incríveis".

Mesmos os que apóiam a pesquisa dizem que o trabalho de Tilly precisa ser replicado por outros laboratórios e passar por um desenvolvimento bem maior antes que possa sequer potencialmente se tornar relevante para seres humanos. No entanto, se for integralmente confirmada, a pesquisa poderá refazer a mulher pós-menopausa do futuro.

"A medicina moderna quase que dobrou a expectativa de vida, e agora podemos estar nos deparando com uma mulher do século 21 com o dobro da expectativa de vida e o dobro da expectativa de vida reprodutiva", afirma Kutluk Oktay, chefe do centro de preservação da fertilidade da Escola de Medicina Weill da Universidade Cornell.

Na visão de longo prazo de Tilly, uma mulher congelará uma amostra do seu sangue aos 20 anos. "Depois, ela poderá nos telefonar um dia e dizer: 'Estou com 42 anos. Os meus ovários estão falhando. Quero que eles sejam revigorados'. Eles são as próprias células da mulher. Ela não precisa da aprovação de ninguém. Essas células entram diretamente no suprimento de sangue e vão para os ovários dela, onde amadurecem, formando os óvulos", explica Tilly.

Tais técnicas provavelmente não têm nenhum "aspecto negativo": nenhum efeito colateral, nenhum procedimento invasivo, explica Tilly.

Há várias outras implicações. Em tese, os óvulos formados a partir de células-tronco poderiam proporcionar aos cientistas uma maneira de contornar as objeções a um tipo de pesquisa com células-tronco embrionárias chamada clonagem.

Ao invés de precisar recrutar doadoras de óvulos, que correm um ligeiro risco de saúde, os cientistas poderão ser capazes de utilizar células-tronco para criar no laboratório os óvulos necessários para pesquisas que têm o potencial de salvar vidas, afirma Tilly.

E os oncologistas poderiam aprender a dosar a quimioterapia no sentido de poupar as células-tronco formadoras de óvulos na medula das pacientes. Quando isso não fosse possível, os médicos poderiam ser capazes de oferecer às pacientes a opção de remover e congelar algumas células antes do início da quimioterapia, um procedimento bem mais simples do que outras opções como o congelamento de embriões, óvulos ou porções dos ovários.

"As iniciativas no sentido de ajudar mulheres jovens que passam por quimioterapia são um benefício muito grande e necessário", afirma Lindsay Nohr Beck, sobrevivente de câncer e fundadora da Fertile Hope, um grupo sem fins lucrativos que ajuda as pacientes de câncer a lutar contra a infertilidade. Esse trabalho oferece uma tremenda esperança às pacientes e às sobreviventes de câncer".

O novo trabalho também oferece uma possível explicação para o desconcertante fenômeno das mulheres com câncer que passam por quimioterapia, e que se tornam inférteis --e que às vezes engravidam anos depois.

Se uma mulher receber um transplante de medula óssea como parte do seu tratamento, explica Tilly, a nova medula poderia conter células-tronco que acabariam repondo as reservas de óvulos dos ovários. Em tese, se a medula for proveniente de uma doadora, o bebê poderá não possuir relação biológica com a mãe.

Após ter completado o trabalho do ano passado demonstrando que novos óvulos se formaram em ratas adultas, a equipe de Tilly se dedicou a tentar achar as células-tronco que teriam que ser a fonte desses óvulos.

O lugar mais óbvio para procurá-las era o ovário. Eles examinaram os ovários em busca de um marcador genético para células embrionárias formadoras de óvulos e, para surpresa de todos, descobriram apenas um pequeno grupo dessas células no centro do órgão, onde não havia óvulos e apenas alguns vasos sanguíneos conectados ao ovário.

"Nada fez sentido", conta Tilly. "Assim, batemos a cabeça contra a parede algumas vezes e concluímos que deveria haver uma outra explicação para o fato de essas células estarem nos ovários. E foi aí que ocorreu a epifania".

Os pesquisadores perceberam que as poucas células que detectaram no centro do ovário poderiam não ter se originado ali, e sim ter migrado pela corrente sanguínea.

A equipe de Tilly decidiu procurar em outro local pelas células-tronco formadoras de óvulos --especificamente na medula óssea, já que as células encontradas no sangue são originárias da medula. Além disso, pesquisas recentes sugeriram que células-tronco presentes na medula óssea podem se transformar em vários tipos de células, tais como células do coração ou células nervosas.

Quando testaram a medula óssea dos ratos em busca de vários possíveis marcadores de células-tronco formadoras de óvulos, todos estavam presentes. Esses marcadores, observa Tilly, também foram encontrados na medula óssea e sangue humanos em mulheres em idade reprodutiva, o que quer dizer que o sangue e a medula das mulheres podem também conter células-tronco formadoras de óvulos.

A equipe de Tilly concluiu que, se a medula óssea é a fonte das células-tronco, então deve ser possível removê-la de uma rata normal, inseri-la em uma fêmea que foi esterilizada com drogas quimioterápicas, e recompor o suprimento de óvulos da fêmea estéril.

De fato, dois meses após a rata esterilizada receber o transplante de medula óssea, o seu ovário voltou a conter óvulos, e estes continuavam normais quando foram examinados um ano depois. Já os ovários dos roedores que não receberam tal transplante permaneceram estéreis.

O próximo passo lógico: se o sangue é o condutor da medula óssea para o ovário, raciocinou a equipe, ele deveria ser capaz de repor também as reservas de óvulos. E devido ao fato de o sangue transportar não só células-tronco, mas um estágio posterior dessas células, chamadas de células progenitoras, o processo deveria ocorrer rapidamente.

Assim, eles destruíram a reserva de óvulos de uma rata com quimioterapia, e a seguir submeteram-na a uma transfusão de sangue de uma outra fêmea que havia sido geneticamente manipulada para produzir células formadoras de óvulos que emitem um brilho esverdeado. Cerca de um dia depois, a fêmea esterilizada apresentou alguns óvulos de brilho esverdeado nos seus ovários.

"Mesmo assim, a grande questão persiste", admite Tilly. "A rata com medula ou sangue transplantados é capaz de engravidar e produzir crias normais? Nós realizamos os testes de procriação? Eles estão sendo feitos, isso é tudo o que posso dizer", afirma Tilly.

Os testes são complexos e exigem tempo, explica ele, e a equipe está tentando trabalhar com uma ampla gama de permutações. Eles procuram acasalar algumas ratas que receberam uma dose de quimioterapia, e algumas que não receberam, algumas que receberam transfusões sanguíneas e outras que receberam transplantes de medula.

Tilly admite que para que algum dia o trabalho com os ratos seja aplicado a seres humanos é necessário que os experimentos produzam bebês ratos, e esses bebês precisam ser normais. Mas, devido ao fato de o processo não envolver drogas, ele é capaz de imaginar que tão logo o seu trabalho seja considerado suficientemente sólido e confirmado em seres humanos, poderá ser aprovado muito rapidamente para uso clínico.

O trabalho de Tilly é financiado pelo Instituto Nacional do Envelhecimento, e outros, incluindo o Fundo Filantrópico Rubin Shulsky e o fundo de Pesquisa Memorial Vincent. Tilly diz que deu entrada em três pedidos de patente baseados no seu estudo. Quando lhe perguntam se ele já conta com uma companhia para comercializar o seu trabalho ele diz que ainda não.

"O novo trabalho parece ter sido cuidadosamente elaborado", diz Frank Bellino, que administra as verbas para pesquisas sobre biologia do envelhecimento do Instituto Nacional do Envelhecimento. "Mas o que realmente está faltando agora é a confirmação de outros laboratórios", afirma.

A publicação de Tilly no ano passado foi tão chocante que foi como se ele tivesse dito que a Terra é chata, disse Oktay, de Cornell. Quanto a sua reação atual, ele afirma: "É como se disséssemos: 'O mundo é sem sombra de dúvida plano, e é preciso mudar os planos de viagem'". A fonte dos óvulos está em células-tronco desenvolvidas na medula Danilo Fonseca

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