Cientistas condenam os suplementos vitamínicos

Stephen Smith
Em Boston

A princípio, é algo que faz todo o sentido do mundo. Já que frutas, verduras e peixe contêm grande quantidade de nutrientes saudáveis, por que não isolar as vitaminas presentes nesses alimentos, colocá-las em pílulas, e engoli-las? E uma quantidade maior não seria melhor?

Tony Cenicola/The New York Times 
Novas pesquisas contestam a eficácia das vitaminas ingeridas na forma de pílulas
Dessa forma poderíamos deixar de comer morangos, espinafre e salmão e deixar que vários tabletes de vitaminas criassem um escudo protetor fortificado contra o câncer, doenças cardíacas e outras enfermidades, certo?

"É uma hipótese bem plausível", afirma JoAnn Manson, diretora de medicina preventiva do Hospital Brigham and Women. "No entanto, quando ela foi submetida a testes rigorosos, não foi confirmada... Trata-se de uma idéia simplista".

Durante três vezes nas últimas semanas, cientistas que escrevem para periódicos de medicina atacaram a idéia de que altas doses de vitaminas podem reduzir a ocorrência de doenças potencialmente fatais. Eles argumentam que, em certos casos, suplementos excessivos podem ser até prejudiciais.

Os pesquisadores insistem que a maneira de se ter uma vida longa e saudável não é ingerir grandes quantidades de pílulas, mas sim ter uma dieta saudável e balanceada.

Por motivos que os cientistas ainda não identificaram, o corpo processa as vitaminas de maneira diferente quando elas são administradas na forma de alimentos ou de pílulas --provavelmente porque os alimentos interagem uns com os outros de uma forma que auxilia a absorção de nutrientes. Os especialistas em nutrição dizem que até o momento os cientistas que trabalham nos laboratórios não conseguiram superar aquilo que a natureza faz.

"Aquilo que compramos em um frasco não chega nem perto de proporcionar a riqueza de benefícios que é automaticamente adquirida quando esses nutrientes estão presentes na forma de alimentos", explica Linda Van Horn, nutricionista e pesquisadora da Universidade Northwestern, em Chicago.

No entanto, oferecer conselhos sobre nutrição nunca é algo tão simples quanto dizer "tome as suas vitaminas", ou, mesmo, "não tome as suas vitaminas". E, para complicar ainda mais as coisas, a resposta não é a mesma para todos.

Grande parte das críticas recentes envolvendo as vitaminas têm girado em torno das megadoses, que podem ser dez, 20 ou 30 vezes mais fortes do que as quantidades diárias recomendadas.

Mas até mesmo as multivitaminas, que costumam conter a dose diária recomendada de uma gama de nutrientes, não são universalmente aceitas pelos nutricionistas.

Alice H. Lichtenstein, professora da Escola de Nutrição Friedman, da Universidade Tufts, diz que não existem evidências de que as multivitaminas sejam perigosas --mas frisa que não há nenhuma prova convincente de que elas impliquem algum benefício apreciável. Outros especialistas acreditam que as multivitaminas podem ajudar a restaurar o equilíbrio nutricional comprometido por uma dieta deficiente.

"Se examinarmos o que as pessoas comem, e houve muitas pesquisas de âmbito nacional para determinar os níveis de nutrientes e alimentos, encontraremos muitas deficiências", diz Meir J. Stampfer, professor de epidemiologia e nutrição da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard.

"Não estamos falando de pessoas com escorbuto ou raquitismo, mas há nutrientes que não estão sendo consumidos por parcelas substanciais da população, incluindo as vitaminas B12 e D", adverte ele. E para algumas pessoas, cuja extrema pobreza impede que se alimentem corretamente, os suplementos podem salvar-lhes a vida.

No ano passado, as vendas de vitaminas nos Estados Unidos chegaram a US$ 6,9 bilhões, segundo estimativas da Nutrition Business Journal, uma firma de publicações e pesquisas de mercado do setor. Isso corresponde mais ou menos à dimensão da indústria de água mineral.

Mas a promessa de saúde vinculada às pílulas com altas doses de vitaminas tem sido cada vez mais contestada por pesquisas científicas de qualidade, escreveu Lichtenstein, em parceira com um colega da Universidade Tufts, no periódico "The Journal of the American Medical Association," no mês passado.

Consideremos, por exemplo, o beta-caroteno. A substância tem sido apresentada como o maior combatente do câncer. Mas em um estudo os pesquisadores demonstraram que altas doses desse nutriente, que o corpo converte em vitamina A, na verdade aumenta a probabilidade de que um fumante venha a sofrer de câncer de pulmão.

E há também o ácido fólico. Os médicos ainda encorajam as mulheres a tentarem engravidar tomando suplementos que incluem essa substância, porque estudos científicos demonstraram que ela previne os defeitos de nascença.

Mas descobertas recentes reduziram as esperanças de que o ácido fólico possa ajudar a combater as doenças cardíacas, e um estudo sugeriu que pacientes cardíacos que ingerem grande quantidade de ácido fólico após uma operação de desobstrução de artérias têm maior probabilidade de sofrer novas obstruções.

Dois outros relatórios médicos divulgados no mês passado examinaram as vitaminas D e E. O estudo sobre a vitamina D, publicado no periódico "The Archives of Internal Medicine", revelou que ela não desacelerou a perda óssea em mulheres negras idosas, como havia sido previsto.

E o relatório sobre a vitamina E, publicado em "The Journal of the American Medical Association", concluiu que para a maioria das mulheres, grandes doses de vitamina E não têm nenhum efeito no sentido de prevenir problemas do coração.

Mesmo assim, até mesmo o presidente da Associação Americana do Coração reconhece como é sedutora a promessa de cura vinculada às vitaminas.

Robert H. Eckel, professor da Universidade do Colorado, diz que ingeriu suplementos de vitamina E por cerca de dois anos, com base nos primeiros estudos que enalteciam as propriedades da substância de combater as doenças.

"Mas quando emergiram os resultados de pesquisas mais elaboradas, eu finalmente me debrucei sobre as evidências e disse pra mim mesmo que não valia a pena tomar as pílulas de vitamina E".

É claro que muita gente ainda é devota das vitaminas. "Muita gente continua tomando suplementos, apesar das advertências de que as pílulas podem não ajudar em nada. Muitas pessoas são cabeças-duras", afirma Eckel.

Os estudos que contestam os poderes das vitaminas para prevenir doenças têm sido alvos de ataques, tanto da indústria de suplementos vitamínicos quanto dos aficionados das pílulas. A Aliança de Educação sobre Suplementos Dietéticos, uma coalizão apoiada pelos fabricantes de suplementos vitamínicos, ataca regularmente os estudos que criticam as pílulas de vitaminas, argumentando que a ciência está cometendo um erro, e que o que esses estudos geram medo.

Para fazer comentários sobre o assunto, a aliança encarregou Mart Traber, professora do Departamento de Ciências de Nutrição e Exercício da Universidade Estadual de Oregon, e, segundo a indústria, especialista na utilidade das vitaminas. Traber concordou que uma dieta saudável combinada com um estilo de vida ativo é a melhor forma de alcançar a boa forma física.

"Sabemos que a nutrição e os exercícios são fundamentais para uma boa saúde, mas temos ignorado isso", diz Traber, que afirma não receber verbas da indústria de suplementos vitamínicos para pesquisa, embora os dólares da indústria tenham ajudado a pagar o preço de um equipamento científico usado por ela. "Sempre é mais fácil sentar no sofá e comer Doritos do que sair para fazer uma corrida. Todo mundo é preguiçoso".

É só perguntar a Traber se ela toma vitamina E, que a sua resposta demonstra --novamente-- a complexidade das questões envolvendo a nutrição e os suplementos e a futilidade de se tentar encontrar uma fórmula dietética universal: "Não tomo vitamina E porque ela me causa sangramentos. Eu me machuco com muita facilidade".

Stampfer, o pesquisador de Harvard, disse acreditar que alguns recentes comentários científicos sobre as vitaminas tenham "ido um pouco longe demais em se tratando de assustar as pessoas". Ele duvida que haja tanta gente assim tomando altas doses de vitaminas, a ponto de isso implicar em riscos para a saúde.

"O maior perigo é o psicológico. O risco é que as pessoas achem que, se tomam suplementos vitamínicos, não precisam se exercitar e podem fazer uma alimentação de má qualidade". Estudos contestam a maneira como as vitaminas são consumidas Danilo Fonseca

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