Fome atinge ao menos 200 milhões de africanos

John Donnelly
Em Johannesburgo
África do Sul

Uma confluência de problemas interligados, em mais de uma dúzia de países africanos, criou a mais ampla escassez de alimentos e fome em décadas, de acordo com analistas africanos e americanos. Entre os agravantes, estão falta de governo, a desatenção à produção agrícola, a Aids, as secas e a praga de gafanhotos do ano passado.

Os problemas foram descritos por alguns especialistas como uma "tempestade perfeita". Eles se estendem desde o cinturão central da África, da Mauritânia, no Leste, até a Somália, no Oeste, e também inclui nações do Sul, como Zimbábue, Maláui, Lesoto, Suazilândia e partes de Moçambique e Zâmbia, de acordo com a Rede de Sistemas de Alarme da Fome.

A rede, fundada pela Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA, lista 12 países africanos em necessidade de "ação urgente" e dois que precisam ser monitorados. Ao todo, 28 das 54 nações africanas apresentam algum déficit de alimentos.

"Quando você olha para o continente inteiro, seja para a situação de Darfur, a necessidade crônica na região do Sahel ou os problemas políticos no Sul da África, a situação hoje é mais séria do que nunca", disse Daniel E. Shaughnessy, que trabalhou para uma instituição internacional de ajuda alimentar por mais de quatro décadas, em entrevista telefônica de Arlington, Virgínia.

Apesar de grande parte da atenção atualmente estar voltada para a falta de alimentos em um único país --a Nigéria-- especialistas em desenvolvimento internacional dizem que os políticos da África e do Ocidente devem atacar as causas subjacentes para reduzir o número gigantesco de pessoas passando fome em outras nações.

A situação alimentar do continente piorou substancialmente desde 1970. A estimativa de africanos mal nutridos cresceu para mais de 200 milhões --ou quase um terço da população, em 2001, de acordo com um relatório divulgado nesta quinta-feira (11/08) pelo Instituto Internacional de Pesquisa de Política de Alimentos em Washington, D.C.

Mark W. Rosengrant, principal autor do estudo, disse que a falta de investimentos públicos na agricultura contribuiu para o problema. De 1980 até 1998, os gastos governamentais com a agricultura na África caíram de 6% para 4,9% do orçamento, disse ele.

Em comparação, os investimentos dos governos asiáticos com agricultura se mantiveram estáveis em cerca de 10%. Rosengrant acrescentou que uma esperança é a promessa, feita em 2002 pela Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano, uma iniciativa de dirigentes africanos, de eventualmente dobrar os gastos com agricultura para chegar aos níveis da Ásia.

Rosengrant, diretor da divisão de produção e meio-ambiente do instituto, disse que para muitos países "basta duas coisas acontecerem juntas --como no caso da Nigéria, em que dois anos de seca somaram-se à infestação de gafanhotos-- e uma situação difícil vira fome."

Vários analistas, porém, disseram que, em alguns lugares, as pessoas estão tão fracas que, a não ser que estratégias de longo prazo sejam implementadas para melhorar a produção agrícola, a fome continuará crescendo.

Scott Drimie, 34, sul-africano que estuda o impacto da Aids na escassez de alimentos, disse na quinta-feira que vários países sul-africanos tiveram "uma série de déficits de alimentos todos os anos desde 2001". Segundo Drimie, não se vêem melhoras, mesmo nas áreas com maior precipitação.

"Há uma erosão da habilidade das pessoas de garantirem suas necessidades alimentares. As razões para isso estão emboladas em um nó", disse ele. "Há uma série de crises que se misturam. O HIV e a Aids são uma das razões mais importantes, porque a resistência das pessoas às doenças fica tão baixa."

No Zimbábue, a pesquisadora Sithabiso Gandure, 35, estudou os índices pluviométricos de duas regiões desde os anos 30 e entrevistou dezenas de pessoas sobre as últimas secas. Ela disse que as secas não só tinham piorado nos últimos anos, mas a capacidade de as pessoas de lidarem com elas também.

"Há perda de vegetação, e a fertilidade do solo não é mais a mesma", disse Gandure. "Isso é agravado pela redução da ajuda do governo."

Esses não são os únicos problemas, disse ela. A economia do Zimbábue vem desabando em queda livre nos últimos anos, o que prejudica os agricultores. As crises de combustíveis, disse ela, impediram os produtores de viajar para os mercados e os comerciantes de comprar bens perecíveis.

Nas escolas, muitas crianças não estão mais freqüentando às aulas, porque suas famílias não têm dinheiro, e as crianças são enviadas para a rua para catar comida ou tentar ganhar um trocado, disse ela.

"Há muito tempo, as pessoas se ajudavam", disse Gandure. "Agora, cada família cuida dos seus, porque não tem nada sobrando." Diferentes fatores, inclusive a Aids, agravam a desnutrição na África Deborah Weinberg

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