Pesquisador dos EUA é assassinado na Amazônia

Anand Vaishnav
Em Boston

Enquanto escavava o passado da humanidade, o arqueólogo James B. Petersen abriu trilhas na densa floresta tropical da Amazônia e limpou seiva venenosa de seus olhos na ilha vulcânica de Montserrat.

Mas no último sábado (13/08), o professor de antropologia da Universidade de Vermont enfrentou o perigo no lugar mais improvável --um restaurante de família em uma pequena cidade da Amazônia. Enquanto jantava com colegas, Petersen, 51 anos, recebeu um tiro fatal durante um assalto cometido por três homens sob efeito de cocaína, segundo a polícia brasileira. Os assaltantes roubaram um celular dos clientes e cerca de US$ 200 em moeda local.

Petersen foi o único morto.

"É horrível", disse Michael Heckenberger, um professor associado da Universidade da Flórida que apresentou a Amazônia para Petersen. "Jim seria a primeira pessoa a dizer que amava o Brasil. Ele amava o povo brasileiro e tinha inúmeras amizades profundas com brasileiros. Foi apenas obra do tipo de criminoso sanguinário que você pode encontrar em qualquer cultura, que não tem respeito pela vida humana."

Na segunda-feira (15), a polícia prendeu os três homens, dois dos quais adolescentes, segundo a agência de notícias "Associated Press". Mas a notícia não minimizou a dor sentida pelos amigos arqueólogos e antropólogos de Petersen.

Petersen era uma autoridade em arqueologia do nordeste da América do Norte, que encontrou evidência de caçadores e coletores entre 8 mil e 10 mil anos atrás no Maine. Ele encontrou pontas de lança, ferramentas e facas, freqüentemente enterradas entre 3,6 a 4,5 metros de profundidade ao longo de um rio, enquanto realizava pesquisa contratada antes da realização de uma obra comercial ou de uma estrada, disseram colegas.

Ele também lutou pelo reconhecimento por parte do Estado da tribo Abenaki em Vermont, argumentando que os artefatos provavam a presença constante dos abenakis na região. O Estado está em disputa com a tribo Abenaki em torno de um reconhecimento formal.

O trabalho de Petersen freqüentemente o colocava em perigo. Em uma expedição a Montserrat, em 1990, para pesquisar uma aldeia datada de 500 a.C., Petersen estava cortando mato com um facão quando uma seiva venenosa de uma planta respingou nele, lembrou John G. Crock, diretor do programa de consultoria de arqueologia da Universidade de Vermont. Após lavar os olhos, Petersen retomou a abertura da trilha.

No início dos anos 90, Petersen passou a trabalhar na ilha caribenha de Anguilla. Petersen documentou artefatos de aldeias que remontavam 1.000 anos. Ele e sua equipe peneiravam cuidadosamente a areia, registravam dados e procuravam por resquícios do passado que muitos freqüentadores das praias confundiriam com detritos.

"Ele tinha uma memória maravilhosa, quase fotográfica", disse James B. Richardson III, curador de antropologia do Museu Carnegie de História Natural, em Pittsburgh, onde Petersen era um pesquisador associado. "Ele podia se lembrar de milhares e milhares de atributos de cerâmica."

Em 1994, Heckenberger apresentou a Amazônia para Petersen quando os dois participaram de uma cerimônia fúnebre dos kuikuro, uma tribo local.

Ele percorria a vasta e úmida Amazônia brasileira uma vez por ano, encontrando nativos da região e aprendendo seus costumes enquanto tentava entender as evidências de seus ancestrais. Petersen, um especialista em cerâmica, encontrou rica evidência de cerâmica, túmulos e antigos vestígios de assentamentos que datavam de 8 mil anos atrás.

Petersen estava no Brasil havia poucos dias quando foi morto.

"Este é um motivo para ser uma tragédia inacreditável. Ele correu para voltar para um lugar que amava cada vez mais", disse Heckenberger.

Petersen, que foi casado por nove anos com Jennifer Brennan, mantinha um ritmo incessante, disseram seus colegas. Ele concluiu seu doutorado na Universidade de Pittsburgh (em escavações de artefatos nativo-americanos perto de Winooski, Vermont) em três anos, enquanto a maioria dos estudantes de doutorado leva seis ou sete.

Seu currículo tem 24 páginas com dezenas de trabalhos, capítulos de livros, artigos e apresentações sobre diques de pesca, tecidos pré-históricos e cerâmica.

"Ele honestamente fez mais nesta meia vida do que qualquer um de nós poderia fazer em três vidas", disse Crock. Professor estava cada vez mais apaixonado pelo Brasil, diz colega George El Khouri Andolfato

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